domingo, 18 de setembro de 2016

O pós-impeachment e a pobreza do debate

O impeachment de Dilma Rousseff deflagrou uma reação tardia, na forma de protestos de rua, os quais ensejam uma série de dúvidas, inquietações e controvérsias, sobretudo por invocarem, de forma explicita ou inconsciente, fantasmas de junho de 2013 - movimento que, como sabemos, foi denegado, delatado e brutalmente esmagado pelo petismo (seja diretamente, via Força Nacional, ou em conluio com governadores de todos os partidos e suas PMs).

Qualifico como tardia a reação que tomou conta das ruas por dois motivos principais:
1) Protestos massivos tenderiam a ter mais eficácia durante a tramitação do impeachment, enquanto ainda poderiam exercer pressão sobre o voto dos senadores;
2) Uma das pautas principais das manifestações - a convocação de eleições gerais já - faria muito mais sentido antes da abertura do processo de impeachment, em meados de maio, não só porque daria mais tempo hábil para a preparação da logística de um pleito nacional, mas porque significaria uma saída honrosa para Dilma, que poderia ter costurado um acordo por meio do qual condicionasse sua renúncia à convocação de novas eleições. Mas, como dolorosamente sabemos, timing e negociação política não são o forte da ex-presidente.
Ademais, como evidenciam a passividade e o imobilismo dos dirigentes petistas durante o processo, o impeachment serviu como uma luva ao partido, pois o livrou do ônus de uma das piores crises da história do país e de ter de explicar o desastre vergonhoso que foram os dois governos Dilma, substituindo a urgente autocrítica - da qual petistas têm hojeriza - pelo trunfo narrativo do "golpe" e pelo papel de vitima, no qual o partido, com o suporte de seu elenco de coadjuvantes, atua com gosto e vocação.



Manifestações e orquestrações

O sincronismo e o timing das atuais movimentações de rua - tão logo consumado o impeachment - nunca deixaram de evidenciar sua orquestração via movimentos da base petista, os quais vêm convocando e divulgando os protestos. Mas, seja por wishful thinking bem-intencionado, seja por interesses inconfessáveis, muitos sustentaram a tese de que os protestos não só eram independentes e transcendiam o partido, mas que a presença deste nas ruas seria infima. As ultimas manifestações, com presença majoritária das entidades-satélite do petismo, vestidas a caráter - e com carros de som entoando palavras de ordem e fazendo indisfarçável campanha eleitoral - desvanecem tais ilusões.

Tal contatação, no entanto, não anula a percepção de que, no campo da guerra de narrativas, o PT venceu a primeira batalha: como se observa nas redes sociais e nas ruas, convenceu parcelas consideráveis da juventude e da esquerda de que foi vítima de um golpe.



Para além do PT
Isso tudo seria um problema menor se se restringisse ao âmbito do petismo: um capitulo a mais na história de um partido que um dia veio a representar os anseios de grande parte da esquerda, chegando a promover um importante processo de incorporação econômica dos mais pobres (ainda que não tenha avançado para além da inclusão via consumo), mas que acabou naufragando nas concessões e alianças em nome de uma realpolitik por demais elástica, enfraquecendo ainda mais sua desossada base ideológica; na indulgência com que se refestelou em esquemas de corrupção; na submissão de compromissos programáticos aos ditames do marketing politico mais cosmético; na desfaçatez com que sua candidata à Presidência protagonizou a campanha eleitoral mais suja do ciclo democratico pós-ditadura - para, empossada, colocar um executivo do Bradesco e um economista neoliberal para gerir a economia, cometendo estelionato eleitoral.

De um partido que não apenas descomprometeu-se em defender algumas de suas bandeiras históricas, mas foi além: passou a violar de forma sistemática os direitos indigenas, vítimas de invasões, mortalidade infantil, surtos de suicidios, e do crime humano e ambiental que foi a construção de Belo Monte; a promover a violência de Estado e a colaborar para o acirramento da repressão periférica; a boicotar a reforma agrária ao passo em que enchia as burras do alto latifundiario com parte dos R$500 bilhões de dinheiro público que transferiu para "os campeões" do setor privado agronegócio; a superdimensionar e estender artificialmente as benesses trazidas, até 2012, pelos programas sociais e pela politica salarial enquanto agravava-se a assimetria da renda do capital, simbolizada por exorbitantes lucros bancários, cujos recordes, mesmo apos a eclosão da crise, foram sucessivamente quebrados nas gestões petistas.

Mas não, a questão, infelizmente, não se restringe ao petismo: a narrativa do golpe tem provocado a adesão não só daqueles setores da dita "esquerda crítica" - que, aconteça o que for, sempre acaba apoiando o PT -, mas de um amplo leque de atores políticos situados do centro à esquerda do arco politico-ideológico. E o engajamento na narrativa do golpe vem acompanhado não apenas da nula atenção, do esquecimento e do abono em relação aos erros e violações do petismo no poder - que vão além dos que foram apontados nos dois páragrafos anteriores -, mas do acordo tácito de que ficam proibidas tais referências, e que o interlocutor que ousar a elas aludir deve ser atacado.



Debate empobrecedor
Chama particularmente a atenção, pelo grau de adesão e virulência do fanatismo, a penetrabilidade de tal narrativa nos meios artísticos e universitários. Nestes, dos quais se esperaria um grau mais elaborado de formulação critica, assiste-se hoje a um rebaixamento tanto do nivel do debate - com o simplismo de categorias correntes como "coxinha", "golpe" e "isentão" - quanto dos padrões de civilidade do debate público, com agressões e desqualificações tornando-se a norma. Impressiona ainda mais que tal fenômeno se dê com ampla adesão de professores universitários, categoria que, enquanto a pesquisa e a pós-graduação eram sucateadas em nome da expansão populista da graduação, foi tratada a pão e água nos seis anos de governo Dilma, sobretudo após protagonizar a mais longa greve das muitas que marcam a história das universidades federais no pais.

Esse fenômeno faz baixar ainda mais o nível do debate político, já prejudicado tanto pelo falso binarismo entre uma nova direita inculta e agressiva e um autointitulada esquerda petista, ambas movidas a fanatismo tendencioso, quanto pela troca das reflexões embasadas e aprofundadas por "memes", palavras de ordem, boatos e mentiras repetidos à exaustão. Como resultado, a qualidade do debate público, no Brasil, atravessa o seu pior momento histórico, resguardada apenas pela produção variável de meia dúzia de jornalistas e aos posts e artigos da lavra de alguns poucos franco-atiradores, em geral cultos, informados e apartidários, dispersos nas redes sociais.

Tudo somado, um dos efeitos mais impressionantes e menos falados do petismo é o deserto de ideias que legou a seus próprios defensores e o decorrente empobrecimento do debate politico no pais. Uma constatação que a inacreditável fala de Lula exaltando politicos em detrimento de professores e concursados corrobora de foma didatica.




Ameaça à democracia
No lugar de um debate substancioso, uma disputa adolescente caudatária do marketing político. Uma dinâmica que nos remete a um dos problemas centrais da atual relação entre narrativas e protestos politicos: a aceitação, implícita mas efetiva, de que a defesa da ordem democrática implica na defesa do PT, e que, por sua vez, a defesa do PT contra a ilegalidade de que teria sido vítima implica na não-responsabilização e no esquecimento generalizados do que o partido fez ao longo dos quase 14 anos em que governou o pais. Endossa-se, assim, tanto a mencionada recusa petista à autocritica quanto o saudável hábito nacional de enterrar o passado em nome do apaziguamento, tão bem simbolizado na anistia pós-ditadura a torturadores e assassinos estatais.

O problema é não só não haver, a rigor, equivalência entre defender a democracia e desobrigar de prestar contas um partido que ficou quase uma década e meia no poder, mas um dos pilares dos regimes democráticos ser justamente a prestação de contas, o reconhecimento dos erros e a responsabilização pelos eventuais crimes dos politicos e partidos que governam um pais. Ou seja, o automatismo passivo com que se quer isentar o PT em nome da defesa da democracia é, em ultima análise, um desserviço e uma afronta à democracia que se alega defender.


(Tirinha da Mafalda, de Quino, retirada daqui)