quinta-feira, 28 de abril de 2016

O pós-impeachment e as narrativas de falseamento

A polêmica quanto ao impeachment ser ou não um golpe transformou-se em um não-debate, posto que choque de convicções. Cada um dos lados em confronto possui tanto argumentos irrefutáveis quanto um arsenal de truques retóricos e óbvias falácias. Para além de quem tem razão em tal impasse, preocupam-me duas de suas consequências diretas.

A primeira, já apontada por diversas vozes, é que, seja qual for a resposta a tal polêmica, ela devolverá ao PT o estigma do vitimismo, cujo culto, açulado pelos truques do marketing político tão eficiente quanto aético, já lhe foi muito útil nas urnas e pode vir a ser decisivo para reanimar a candidatura Lula em 2018.

A segunda, a meu ver ainda mais artificial do que a anterior, diz respeito ao modo como o legado petista tende a perdurar e a ser tratado pela militância, por simpatizantes e pelo pessoal do "voto crítico" - aquela turma que passa dois anos descendo a lenha no PT, acusando-o de fazer o jogo da direita e de, portanto, não representar a esquerda, mas, na hora do voto, volta a ser linha-auxiliar do petismo. Difícil afirmar se se trata de mera miopia política ou grave masoquismo, mas o fato é que já vimos esse filme em 2010, 2014 e na votação do impeachment, e não há razão para acreditar que não se repita em 2018, com Lula, a despeito de seu legado, que inclui o desastre Dilma Rousseff.

E é justamente a operação de maquiagem e falseamento de tal legado, já em curso, o que me interessa tratar aqui. Pois parece-me claro que a tendência narrativa petista será opor as medidas anticíclicas que Temer certamente tomará - ajuste fiscal, tunga nos aposentados ("reforma" da Previdência", em linguagem marqueteira), corte de direitos trabalhistas - não a medidas extremamente similares que Dilma tomou ou estava prestes a tomar (como aexpansão das "concessões" e a própria "reforma da Previdência", item prioritário em sua agenda pré-impreachment), mas ao ápice do governo Lula, com a expansão do crédito, das vagas na universidade, dos concursos públicos, dos lucros em geral.

Ou seja, será comparado um presente recessivo e em crise (em grande parte graças a artes petistas) com um passado atípico e já idealizado em seu momento mesmo de consagração (porque,entre outras aspectos, foram desprezadas suas consequências para a economia futura do país).

Tal tendência já é possível de ser observada atualmente, em forma embrionária: a administração Temer, segundo tal narrativa, representará o fim da ascensão de muitos à universidade (como se o FIES já não estivesse falido com DIlma), atentados a direitos trabalhistas (como se os dois governos petistas não tivessem mudado as regras de aposentadoria, seguro-desemprego, seguro-defenso e pensões), o término do período em que pobres viajavam de avião (como se a redução das rotas interioranas, do número de voos e de sua taxa de ocupação não fosse uma realidade presente), e por aí vai.

Ou seja, contra o então presente recessivo de Temer será contraposto um passado idílico e socialmente justo do petismo - como se este não se desdobrasse naquele, e como se o legado de Dilma (presente ou futuro) não fosse a pior crise econômica dos últimos 34 anos.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Brasil depois de domingo

Neste momento em que, com o desembarque do PP (e do PSD do "aliado" Kassab), o impeachment torna-se uma possibilidade iminente, a linha de defesa do governismo tem se concentrado em duas frentes: uma, a tradicional tática de martelar mentiras, freneticamente reproduzidas nas redes sociais por militantes e simpatizantes, cujo maior exemplo - até agora - é um desenho com uma contagem alterada dos deputados corruptos da Comissão de Ética que teriam votado pró e contra o impeachment (apontando, respectivamente, 35x2. quando o placar verdadeiro é 19x16).

A outra é a aposta na tática do medo, carro-chefe eleitoral do petismo e a principal responsável pela vitória de Pirro em 2014. Em sua versão pré-impeachment, ela apregoa que o governo Temer será o inferno neoliberal na terra, com privatizações a granel - inclusive de universidades -, "entrega" do jamais leiloado Pré-Sal, sacrifício dos (ora privilegiados) trabalhadores e aposentados, repressão a manifestações e movimentos sociais (2013, Copa do Mundo, alô?), além de um "mega" ajuste fiscal (o adjetivo anteposto é para diferenciá-lo daquele praticado por Dilma, digo, por Levy).

Contra tanta maldade, a enésima reavivação da promessa de que Dilma promoverá a tal guinada à esquerda (acredite... se quiser).


Questões em aberto
Ironias à parte, duas questões tomam corpo: 1) Quais as chances de isso realmente acontecer? 2) Na hipótese de Dilma sobreviver à primeira tentativa de impeachment, quão diferentes dessas seriam suas pollíticas?

Em um eventual governo Temer, como a situação econômica torna óbvio constatar - e seu discurso "que vazou" confirma -, deve ocorrer um aperto fiscal, o cenário recessivo tende a agravar o desemprego; um aumento significativo das privatizações está em pauta. Trata-se de uma perspectiva sombria, sem dúvida.


Tempo exíguo
Porém, a campanha para as eleições de 2018 está, na prática, há menos de um ano de começar (em março do ano que vem). Se o governo Temer fizer um terço das malvadezas recessivas que ora lhe atribui a militância governista, lidar com o rótulo de golpista e com a ruidosa oposição dos simpatizantes do PT será o menor dos seus problemas.

Pois, na prática, ele não disporá de tempo hábil para colher nada além dos efeitos ruinosos dos ajustes, tendo de fazer campanha eleitoral em cima de promessas de melhoras enquanto agrava-se a recessão e o desemprego. Ou seja, um cenário de sonho para o retorno do messianismo lulista, bradando o desempenho econômico do país durante a sua presidência.


Impeachment ou imobilismo
E como seria com Dilma, na hipótese cada vez mais improvável de não sair derrotada no domingo? Embora a memória seletiva da militância (e de alguns inocentes úteis) finja esquecer, a pauta da presidente, antes de parar de governar o país para se defender, leiloando cargos, tinha dois itens prioritários: a "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados) e a aceleração da privatização da infraestrutura ("concessão", na novilíngua petista; "vender o Brasil", quando quem privatiza são os tucanos). O desemprego disparara, a inflação projetara-se acima da meta, a atividade econômica e até a renda mensal caíram. Nada minimamente ao gosto da esquerda, nem mesmo da autodenominada "esquerda" governista (aquela que apoia Belo Monte e Força Nacional).

Nos próximos meses, com a economia em frangalhos - incluindo queda vertiginosa na arrecadação de impostos, devido à recessão -, uma base política esquálida e Dilma se equilibrando na corda bamba enquanto a oposição, majoritária, lhe atira bananas, de onde ela tiraria recursos e apoio político para, mesmo se quisesse, adotar políticas anticíclicas?


Platonismo político
Tais questões, embora mais do que relevantes, necessárias, tendem a ser, na verdade (se o impeachment não vier a significar um choque capaz de produzir autocrítica e rearranjos partidários profundos), meramente retóricas. Pois o petismo militante há tempos não está mais interessado na materialidade das políticas levadas a cabo por seus governantes e em seus desdobramentos. Prefere as substituir por uma visão platônica de esquerda, em que, por um lado, as ações de seu governo são, à revelia de efeitos nocivos e aspectos retrógrados, avaliadas pelo que poderiam ser ou representar; enquanto, por outro lado, a oposição é, invariavelmente, uma alteridade maléfica e conservadora, a nêmesis neoliberal (ainda que o neoliberalismo jamais tenha deixado de ser um elemento orientador de políticas oficiais durante os governos Lula e Dilma).

Tudo somado, em um caso ou em outro, as perspectivas, a curto prazo, são, sem trocadilho, temerárias.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Cunha e a moral cínica

Se confirmada, será um acinte a anunciada decisão de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) de começar a votação pelos deputados do Sul, como forma de "criar um clima pelo impeachment" e pressionar parlamentares do Nordeste (alegadamente mais propensos a votar em Dilma).

Mesmo na sessão do impeachment de Collor, em 1992, que contava com uma quase-unanimidade a favor (a qual não se verifica no processo atual), a votação foi em ordem alfabética, justamente para evitar acusações de favoritismo ou distorções no processo.

Não tenho dúvidas de que quanto mais evidentes as manipulações de Cunha, mais alimentarão o discurso do "golpe" e o ressentimento de parcelas dos eleitores, o que pode resultar tanto em irrupções de violência pública no curto prazo quanto, para 2018, num refortalecimento do lulismo.

É verdadeiro o argumento de que Cunha foi cobra criada pela aliança entre PT e PMDB no Rio, só tendo sido alçado à posição de poder que ocupa graças ao misto de irrealismo, incapacidade de articulação política e megalomania delirante de Mercadante e Dilma, cuja decisão desastrada de "desidratar o PMDB", principal partido da aliança, está na gênese da crise. Constatar tal retrospecto, no entanto, não me parece minimamente suficiente para justificar que sejamos complacentes com as tramoias de um político que age com total desfaçatez e à revelia da ética. A menos que o ódio ao petismo se sobreponha ao apego pelos ritos básicos da democracia.

Com todo respeito aos que pensam de outra forma, alegar que o petismo, no poder, tampouco tem respeito pela democracia, não obstante tratar-se de uma verdade cristalina - como se vê nas sucessivas violações aos direitos trabalhistas e previdenciários, no uso da Força Nacional para reprimir manifestantes pacíficos, no genocídio indígena, nos inúmeros casos de corrupção -, não me parece um argumento convincente de que, então, as violações democráticas contra o PT tenham de ser toleradas.

Pois tal retrospecto não significa, automaticamente, a concessão de um salvo conduto para que os críticos do petismo nos calemos ante as flagrantes violações diretas ou indiretamente ligadas ao processo de impeachment em curso - pelo contrário: a coerência, para mim, consiste em condenar todas e quaisquer violações ao Estado de Direito, mesmo quando elas se voltam contra aqueles aos quais póliticamente nos opomos. A mesma indignação contra as violações de direitos que fez com que me opusesse e as denunciasse, na era Dilma, faz com que as denuncie agora, ainda que contra aquela que julgo a pior presidente do período pós-ditadura.

O contrário disso me parece a adoção de um duplo padrão ético - ou, em outras palavras, a adesão a uma lógica de moral cínica.



(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Especialistas de estimação

Um dos efeitos mais bizarros da difusão das redes sociais é que tem especialistas, profissionais reconhecidos e gente com reputação de séria para respaldar virtualmente qualquer opinião, em qualquer disciplina.

Se aquela ideia do Swift de matar crianças de rua para fazer salsicha com a carne delas e acabar com a fome no mundo for lançada no Facebook ou no Twitter, aposto que vão aparecer nutricionistas e sociólogos com projeção nacional para respaldá-la.

E, na dinâmica atual das redes, em que - como várias pesquisas mostram - as pessoas tendem a se juntar em grupos com interesses e ideologias afins, o resultado é que praticamente qualquer posição, por mais esdrúxula e insustentável que seja, acaba corroborada por opiniões de peso.

Em última análise,o efeito é que muitos tornam-se convictos de sua posição - e da legitimidade desta, a despeito de critérios objetivos de validação.

Durante os anos 90, antes da web 2.0, disseminou-se o prognóstico de que a internet diminuiria significadamente o prestígio e a função social dos especialistas. Talvez esteja acontecendo o oposto: eles se tornaram onipresentes, independente de posicionarem-se com a maioria ou com grupelhos.

Desnecessário apontar que, em um cenário político de polarização extrema, tal processo atinge o paroxismo - e com resultados os mais nefastos.



(Imagem retirada  daqui)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Chico, a Geni da vez



Vou falar de uma coisa que está me incomodando demais.
Acredito que Chico Buarque tenha o direito de defender suas posições políticas sem passar pelo verdadeiro linchamento moral e pelos ataques desqualificadores em sequência que passou a sofrer desde que assumiu uma postura contra o impeachment e de defesa do governo Dilma Rousseff.

Não há nenhuma acusação de desvio de dinheiro público contra ele, ele não está no rol de investigados da Lava-Jato. Só defende - a meu ver equivocadamente - o governo de um partido com o qual ele e sua família têm ligações de décadas. Não há benefício direto nenhum advindo desse apoio.

O assassinato de reputações dos que discordam assomou ao primeiro plano com o jornalismo neocon da Fox News, foi importado tanto por Veja quanto por blogueiros progressistas e tornou-se regra com a disseminação das redes sociais.

Mas ainda penso ser possível discordar de quem defenda o que para nós pareça indefensável sem desqualificar completamente a pessoa, anulando-a como interlocutor e como ser pensante.

Chico Buarque não é apenas um compositor e escritor reconhecidamente talentoso - é alguém que, na maior parte das décadas em que viveu até agora, manteve um compromisso com os rumos sociais e políticos do país. Neste momento as escolhas dele não coincidem com a da maioria de nós, mas quem está sendo autoritário e antidemocrático ao, por isso, descartá-lo, esculachando-o?

(Imagem retirada daqui)