quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Delcídio e a derrocada moral do PT

"Na história recente da nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós, brasileiros, acreditou no mote segundo o qual uma esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a Ação Penal 470 e descobrimos que o cinismo tinha vencido aquela esperança. Agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. O crime não vencerá a Justiça. Aviso aos navegantes dessas águas turvas de corrupção e das iniquidades: criminosos não passarão a navalha da desfaçatez e da confusão entre imunidade, impunidade e corrupção. Não passarão sobre os juízes e as juízas do Brasil. Não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro, porque a decepção não pode estancar a vontade de acertar no espaço público. Não passarão sobre a Constituição do Brasil”
 No trecho acima reproduzido do voto que proferiu sobre o caso da prisão do deputado Delcídio Amaral (PT/MS), a ministra Carmem Lúcia coloca alguns pingos fundamentais nos is.


Primeiro, ela alude à enorme diferença entre o que o PT prometeu que faria, no poder, e o que realmente fez, que já era insatisfatório e se encontra cada vez mais diminuído por uma das piores crises econômicas da história do país – crise esta que deriva diretamente das opções econômicas e morais go governo petista. Na economia, representadas por uma política clientelista e descriteriosa de concessões de vultosos empréstimos a corporações próximas do poder e de isenções fiscais como forma de estimular o consumismo individual (em detrimento do incremento dos serviços para a coletividade); no aspecto moral, pela tolerância ou envolvimento direto com o maior caso de corrupção da história brasileira, o Petrolão.


Segundo, a ministra explicita o quanto um discurso de moralismo na política – uma das características distintivas daquele PT aguerrido pré-2002 - foi, seguida e repetidamente, não apenas abandonado, mas desmentido por escândalos sucessivos de corrupção envolvendo o partido e vários de seus membros – por duas vezes de maneira sistêmica, tal como reconhecido pela Justiça (por um STF cuja ampla maioria dos ministros fora nomeada por presidentes petistas, convém registrar).


O PT vive uma derrocada moral. Primeiro, o “Mensalão”; depois, o escândalo da Petrobras. Anteontem, numa página incrivelmente vergonhosa de sua história, o apoio a Eduardo Cunha, uma das mais nocivas figuras a ocupar uma posição de protagonismo na política institucional brasileira, em larga medida graças ao próprio PT, que, em aliança amoral e arrivista com a matilha do PMDB fluminense, o apoiou quando era um entre tantos malandros em busca de um mandato no Rio, e agora evita sua queda, receoso de que ela venha a significar o impeachment de Dilma.


Agora, ante um senador e líder de governo preso por ordem judicial, o petismo dá vazão a uma reação duplamente covarde: ora, num espetáculo de corporativismo e flacidez moral, tentando anular sua prisão no Senado; ora tentando ligá-lo ao PSDB e a Serra, embora ele tenha sido eleito pelo partido de Lula, do qual era lider no Senado, ao qual está filiado desde 2002 e pelo qual concorreu a senador e a governador do Mato Grosso do Sul.


Tanta conivência com a corrupção e tamanha e repetida traição ao que fora aos eleitores prometido já é de conhecimento do povo, a quem nas últimas eleições a candidata petista jurou defender e, em um caso explícito de estelionato eleitoral, traiu com um ajuste fiscal que ora os desemprega e pauperiza.


E a reação certamente virá, a volta do chicote no lombo de quem mandou dar, e há de se manifestar em breve, talvez já no próximo outubro. Então não haverá discurso de "golpismo" capaz de enganar os traídos.


domingo, 22 de novembro de 2015

A imprensa e a catástrofe ambiental da Samarco

A cobertura que os três grandes jornais do país dedicaram ao crime ambiental da Samarco, cuja devastação teve início em um distrito de Mariana e alastrou-se por centenas de quilômetros de Minas e do Espírito Santo, assassinando o Rio Doce, marca um dos pontos mais baixos da história da imprensa brasileira.

A performance dos diários, de início meramente protocolar, com informações insuficientes, em larga medida obtidas de fontes governamentais ou privadas com interesse direto na minimação do ecocídio e em sua não-caracterização como crime ambiental, só a partir do terceiro ou quarto dia passou a ser menos relapsa (mas ainda longe do aceitável).



Nome aos bois
Além disso, prolongou-se, na imprensa em geral, a insistência em denominar o caso referindo-se a Mariana, cidade histórica onde o rompimento da barragem se deu, e não a Samarco, a empresa mineradora cujo misto de negligência, incompetência e ganância o provocou, distorção de evidentes consequências ideológicas que só recentemente o Estadão abandonou.

A TV Globo protagonizou o mais explícito caso de violação da ética jornalística na cobertura do caso, ao ter um de seus cinegrafistas flagrado desligando a câmera quando um morador de Mariana passava a elencar dados sobre a culpabilidade da Samarco. Além disso, a revista Época, publicada pelo grupo Globo, trocou no último momento a capa que daria sobre o caso da Samarco por outra sobre os atentados em Paris – decisão que suscita polêmica, mas que sem dúvida revela ser falsa a alegação das principais revistas semanais de que, na semana anterior, não destacaram em capa a devastação ambiental que assolava Minas porque não teria havido tempo hábil entre sua deflagração e o tempo necessário à produção de capas.



Protagonismo das redes
Paradoxalmente, o jornal O Globo foi o menos pior dos grandes “jornalões”, capaz de ao menos levantar alguns aspectos relevantes em relação ao evento, enquanto o Estadão e, mais ainda, a Folha de S. Paulo praticaram um antijornalismo, que mal disfarçava o interesse em esconder o tamanho dos danos e a culpabilidade da empresa, temas que desde os primeiros momentos eram dimensionados e repercutidos com intensidade nas redes sociais.

Estas, aliás, tornaram-se o principal meio de informação e análise embasada sobre a catástrofe, dando de goleada na na mídia. No Facebook, sobretudo, cientistas anteciparam, com alto grau de acerto, a abrangência do desastre e seus efeitos sobre a população; advogados e procuradores desvelaram com precisão tanto a estratégia de minimação de danos dos advogados da empresa quanto o teor e o timing da ação do Ministério Público; ambientalistas predisseram o processo de “cimentação” do leito do Rio Doce e a mortandade de sua biosfera; biólogos marinhos forneceram projeções baseadas em modelos científicos acerca dos danos que a lama tóxica deverá causar ao chegar ao mar (afetando por décadas nutrientes da cadeia alimentar de 10.00km2 do Atlântico Sul e de três unidades de conservação marinha).



Tentativa de controle da informação
Também a inacreditável defesa prévia que o governador Fernando Pimentel (PT/MG) fez da mineradora Samarco e o fato de se dirigir à população do interior das instalações da empresa - onde funcionou, longe das vistas de moradores e da mídia, o Centro de Operações e Buscas responsável pelo socorro - tiveram a gravidade de sua significação analisadas com rigor, verve e com uma contundência que a imprensa ficou devendo ao leitor.

Ainda mais importante, merece ser destacado que, nas redes sociais, o drama da destruição de vidas humanas, animais e ecossistemas foi retratado direto da fonte, com expressão de subjetividade, protesto e indignação (e não com a dramaticidade direcionada e lacrimosa da cobertura à la TV Globo, em que o sofrimento das vítimas serve ao sentimentalismo piedoso, e não ao questionamento de culpados e modos de compensação).



Para além da crise
É evidente que, em meio a tal produção, difundiu-se muita boataria – e algumas bolas foras - mas, por um lado, nas redes sociais, há de se adotar critérios para selecionar perfis de especialistas e pessoas criteriosas (reconhecê-las é mais fácil do que se pensa); e, por outro, de se utilizar os meios que a própria internet oferece para checar suas informações. O saldo, no caso em questão, foi amplamente positivo.

Há de se reconhecer, porém, que a imprensa não tem – nem deve ter - a mesma velocidade ou o mesmo direito à proporção de erros das redes sociais. Por outro lado, isso não pode servir de desculpa para uma cobertura preguiçosa, omissa e não raro tendenciosa como a que, com raríssimas exceções – como a coluna de Míriam Leitão, um oásis de informação especializada –, fez do maior desastre ambiental da história do país.



Sem desculpas
Sobretudo porque, mesmo com as redações reduzidas e em plena crise do setor - e respeitado o tempo de produção do jornalismo diário - os jornais ainda têm recursos materiais, tecnológicos e humanos para produzir matérias e análises informadas e diversificadas - inclusive com o auxílio das novas tecnologias -, ainda mais sobre um evento que acontece na própria região Sudeste.

Ao falhar de forma flagrante em fornecer aos leitores um retrato condizente de um crime ambiental de grandes proporções, que afeta diretamente dois estados e centenas de milhares de pessoas, o jornalismo não deixa apenas de corresponder, uma vez mais, ao dístico de inspiração iluminista que clama para si, mas deixa a impressão – justa ou não - de que sua dependência comercial do grande capital, representado no caso pela joint venture internacional Vale/BHP Billion, fala mais alto do que o compromisso cívico que, com seu estímulo, alguns teimam em lhe atribuir.



Fatores principais
Por seu lado, embora a internet seja frequentemente acusada de ser um meio permeado pelo radicalismo e pelo acirrado maniqueísmo político, as redes sociais conseguiram – de uma maneira que a imprensa foi incapaz - estabelecer, além da culpabilidade da Samarco,  alguns aspectos importantes e contraditórios que ensejaram e tiveram papel determinante para a tragédia da Samarco. Tais como:

      1. As ligações da Vale e da Samarco com políticos de quase todos os partidos, para cujas campanhas deram volumosas contribuições, e o grau de indistinção entre público e privado que marca uma série de empreendimentos envolvendo as empresas, nos âmbitos estadual e federal;
      1. Os efeitos deletérios que a afoita privatização da Vale, em um cenário de desmonte do Estado e de ineficiência regulatória, legou ao processo, debitados na conta da presidência de Fernando Henrique Cardoso (PSDB/SP);
      1. O agravamento de tais deficiências em um modelo que, sem abrir mão da privatização, a combina contraditoriamente a uma política arcaica de desenvolvimento, em que as licenças ambientais não passam de empecilhos a ser “desenrolados” com a maior rapidez possível, características distintivas da administração petista que há 13 longos governa o Brasil – período mais do que suficiente para atenuar, ou mesmo reverter, o que rotula como “herança maldita” do governo anterior;
      1. A leniência na concessão de licenças ambientais e nas atividades de fiscalização e controle em âmbito estadual, irresponsabilidades divididas entre o tucano Aécio Neves (PSDB/MG) e o citado Pimentel.
A tudo isso soma-se a atuação deplorável da presidente Dilma Russeff (PT/RS) ante a tragédia, seu discurso titubeante, sua omissão no envio de ajuda material e humana, sua inacreditavelmente desrespeitosa demora de uma semana em visitar a região atingida, conduta que foi retratada e analisada nas redes sociais com a devida indignação – a qual a mídia, embora frequentemente acusada de “golpista”, preferiu atenuar ou mesmo ignorar.



Arcaísmos
O sofrível desempenho da imprensa na cobertura da tragédia de Mariana preocupa e constrange, mas não surpreende. Assim como acontece com editorias como Saúde ou Ciência, o tratamento da temática ambiental tem sido marcado, há tempos, por deficiência e omissão.

Trata-se de uma lacuna e um anacronismo cuja gravidade cresce em proporção à importância que o ambientalismo recebe – ou deveria receber – nas sociedades contemporâneas, numa dinâmica que determina se será dificultada ou facilitada a ocorrência de tragédias ambientais perfeitamente evitáveis - como a perpetrada pela Samarco.



(Imagem retirada daqui)

sábado, 14 de novembro de 2015

Eleições argentinas: entre o medo e o humor

Quando eu era criança, nos anos 80, havia um comercial de vodca em que a qualidade do produto era ressaltada por alegadamente não causar ressaca: - “Eu sou você amanhã”, explicava um bem-disposto sósia de um sujeito sentado à mesa de um bar, antes de pedir ao garçom que substituísse o pedido que este acabara de fazer por uma dose da marca anunciada [assista aqui].

O slogan pegou e foi apropriado pelo jornalismo político em forma de um conceito (“efeito Orloff”) que se tornou corrente para fazer prognósticos e traçar analogias entre o Brasil e a Argentina: hiperinflação, escândalos de corrupção, a gangorra do dólar, planos econômicos mirabolantes – ao menos até a importação do receituário neoliberal, com Collor aqui e Menem lá, no início dos anos 90, ora um, ora outro, o que primeiro acontecia em um país acabava, de alguma maneira e guardadas as devidas proporções, por se reproduzir no outro.



Reversão de expectativas
A lembrança dessa anedota avivou-se por conta da repercussão, na imprensa argentina, do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, entre o até então favorito Daniel Scioli, da “Frente para a vitória”, apoiada pelo governo de Cristina Kirchner, e Mauricio Macri, herdeiro do menemismo e até há pouco prefeito de Buenos Aires, da aliança conservadora “Mudemos”.

Até as proximidades das eleições, a expectativa era de que Scioli seria eleito já no primeiro turno ou, na pior das hipóteses, iria com folga para o segundo. Após um atraso de horas na divulgação do resultado (não justificável apenas pela votação ainda ser feita na base de papel e caneta), que intrigou parte da mídia mundial e gerou boatos na internet, anunciou-se a vitória apertada do candidato governista: 36,86% versus 34,33% de Macri. Sendo que as pesquisas agora colocam o candidato da “Mudemos” como favorito.

Além da reviravolta na eleição presidencial, o peronismo perdeu dois de seus mais tradicionais feudos: as províncias (o equivalente a estados) de Jujuy e, pela primeira vez em 32 anos, de Buenos Aires, a mais industrializada e povoada do país, até recentemente governada por Scioli.

O jornalismo político falhou em antecipar o tamanho do prejuízo para o kirchneirismo.



Em busca de explicações
Passada a surpresa e, como de praxe, sem redimir-se de sua pontaria, os analistas começaram a produzir explicações para o fenômeno. No cada vez mais governista Página 12, em um artigo significativamente intitulado “A vingança dos portenhos”, o colunista Luis Bruschtein formulou uma tese que se tornaria corrente entre os partidários de Scioli:

Uma força política de portenhos de classe alta se impôs ao peronismo de trabalhadores e classe média baixa na província de Buenos Aires e conseguiu uma marca invejável em nível nacional. (...)

Houve nesta eleição um voto conservador que proveio de setores populares que ganharam em qualidade de vida durante esses anos, [voto] que também saiu de minorias sexuais ou de gênero que foram beneficiados por este governo, um voto que seduziu a grande quantidade de comerciantes e empresários que prosperaram de forma considerável nestes doze anos. Camadas médias que foram resgatadas da extinção por esse governo se voltaram para esse discurso que esconde as velhas politicas que as levaram à beira do precipício. Há um gesto de autoflagelação nesses setores seduzidos por um flautista de Hamelin que disse na campanha que estava de acordo com todas as medidas que votou contra.”

Como Bruschtein não explica por que razões a classe trabalhadora e as camadas médias se deixariam conduzir pela elite portenha, fica, além da concepção destas como politicamente acéfalas, incapazes de pensar e decidir por si próprias - e, portanto, à mercê do cabresto dos poderosos -, a impressão de que a explicação não passa de wishful thinking do jornalista. Agrava tal sensação a atenção nula que ele presta à hipótese, mais provável e passível de ser comprovada em dados oficiais, de que o agravamento da crise econômica durante o segundo governo de Cristina Kirchner teria afetado sobremaneira tais estratos sociais, corroendo, ao menos em parte, as melhorias que o próprio kirchnerismo anteriormente lhes proporcionara.



Fantasmas do passado
Na batalha entre as duas campanhas, ora intensa, chama a atenção, na estratégia do candidato do governo, o misto de artificialismo da polarização e ausência de relativização temporal: por um lado, fazendo uso de um “esquecimento do presente”, procura-se abstrair tanto a crise do país sob o kirchenirsmo, eternizado como benéfico e provedor, quanto o perfil intelectualmente deficitário e consideravelmente conservador de Scioli (candidato que, como reconhece o mais midiático dos historiadores argentinos, o kirchnerista Felipe Pigna, “está mais para a centro-direita dentro do peronismo”).

Por outro, a estratégia que vem sendo aplicada para criticar o candidato conservador não deixa de mostrar-se problemática: “Macri é a cara remoçada do menemismo”, define a crítica literária Adriana Persico, aludindo à combinação de insensibilidade social neoliberal e corrupção desmedida que caracterizou o período em que Carlos Saúl Menem habitou a Casa Rosada (1989-1999). “Cada cidadão tem a obrigação e a enorme responsabilidade de colocar sua memória a funcionar e decidir se quer voltar a esses terríveis velhos tempos”, prossegue ela.

Não obstante a justeza do alerta, a evocação dos fantasmas do passado, numa campanha conflagrada ao extremo, tem com frequência caracterizado Macri como uma retomada ipsis litteris do menemismo, Menem redivivo. Nesse sentido, Pigna é taxativo: para ele, o candidato representa “uma volta aos anos 90”, ideia que vem sendo martelada à exaustão pela campanha governista, sem qualquer ponderação ou relativização. Soa, assim, como se tal força política se tivesse mantido intacta por 16 anos, sem modificações ou nuances; a Argentina e o mundo dos anos 90 fossem idênticos aos de hoje, e a eleição do candidato da “Mudemos” significasse tão somente um resgate das políticas que Menem adotou durante seus dois mandatos, legando aos argentinos anos de caos econômico e debacle social.



Profetas do caos
Configura-se, desse modo, um cenário radicalizado, que o jornalista Juan Pablo Csipka, após elencar graves problemas tanto da administração Macri quanto do governo Scioli, declarar voto em branco e criticar a “demonização total e absoluta” contra Macri, assim resume:

Por um lado, a extrema idealização, se não de Scioli, ao menos do kirchnerismo. Por outro, uma vertente, vamos chamá-la de nacional e popular, de certo gosto amargo característico dos anos de fúria do menemismo (por exemplo, a campanha de 1995): “Somos nós ou o caos”. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: nem Scioli nem o kirchnerismo são, a esta altura, alternativas antagônicas ao que pode fazer Macri [no poder]."
Ao final trata-se, em um e outro caso, de “Disseminar medo massivo porque oh, existe a possibilidade de alternância de poder”, ironiza, no Facebook, a escritora argentina Pola Olixarac, autora do celebrado “As teorias selvagens” (Benvirá, 2011).



Déja vu
Nós, brasileiros, já vimos esse filme. A referida tentativa de tornar indistinguíveis Macri e Menem, por exemplo, guarda evidente similaridade com os esforços do marketing governista para tornar indistintos Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, como se, 20 anos depois, o primeiro fosse reeditar o mesmíssimo governo do segundo – e com a mesma tragédia social resultante. A candidatura Dilma, por sua vez, à semelhança do que hoje a campanha de Scioli faz em relação ao kirchnerismo, dissimulou a crise que os economistas já então diagnosticavam encarnando uma versão idealizada do petismo no poder - reforçada por comerciais que vendiam um país paradisíaco, de comercial de margarina -, valendo-se assim, como no caso argentino, de um discurso do tipo “nós ou o caos”. Tática que serviu tanto para reverter a ascensão de Marina Silva e – ao bradar que ela tiraria comida da mesa do trabalhador para aumentar os lucros do Itaú - tirá-la do primeiro turno, quanto para fixar a ideia de que o candidato tucano promoveria um ajuste fiscal de inspiração neoliberal.

Dilma vitoriosa, o resultado, é forçoso notar, é que o tal ajuste ortodoxo, agora a cargo de Levy, tem imposto cortes profundos no Orçamento do país, com graves consequências para Educação e Saúde; e que o Itaú (assim como o Bradesco do conselheiro Trabuco) tem anunciado recordes sucessivos de lucro enquanto o desemprego atinge mais de um milhão de trabalhadores desde o início do ano. Pesquisas indicam que essa distância entre o prometido e o cumprido – que alguns chamam de estelionato eleitoral - está no cerne da perda de confiança popular no governo Dilma, expressada nos 70% que, segundo o Ibope, hoje consideram seu governo ruim ou péssimo. Se o efeito Orloff ainda vigora, fica o alerta aos candidatos argentinos.


Tática do espantalho
Tudo somado, tanto o desencanto popular com o governo Dilma quanto a reviravolta nas eleições argentinas parecem apontar para “a falência de um modelo de campanha eleitoral, extensamente usado pelo governismo brasileiro também: a política do "boogeyman" , do "cuco", como dizemos em espanhol ou, em bom português, a política do espantalho”, aponta Idelber Avelar, professor do Stone Center for Latin American Studies da Tulane University (EUA). “É a política limitada à demonização do adversário”, critica, arriscando um prognóstico: “Deu certo por pouco, muito pouco no Brasil 2014, graças à campanha mais suja da História. Não deu certo no primeiro turno argentino de 2015 e, pelo jeito, não dará certo no segundo. Não dará certo no Brasil-2018”.
 
Um grande diferencial em relação às tensas eleições brasileiras de 2014 está sendo o uso inovador do humor, através da "Campaña Bú - Con miedo votas mejor". Nela, a candidatura de oposição se reapropria do discurso kirchnerista que apregoa o caos se Macri vier a vencer, exagerando-o: ""Se Macri ganha, a mãe de McFly se casa com Biff"; "Se Macri ganha, Roberto Carlos não vai querer ter um milhão de amigos".



Vazio programático
Seja como for - e ressalvadas as notórias diferenças entre os governos Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, muito menos contemporizador -, não apenas salta aos olhos a similaridade entre as práticas político-eleitorais nos dois países, mas entre a atitude, a estratégia e a argumentação dos setores midiáticos governistas brasileiros e argentinos em relação às respectivas eleições. A leitura, por exemplo, da cobertura que o outrora modelar Página 12 faz do pleito – escamoteando os graves defeitos do atual governo enquanto supervaloriza o tendenciosismo e a força da mídia e demoniza a classe média – parece demais, a um tempo, um déja vu e uma antecipação, respectivamente, dos diagnósticos e desculpas que os blogs e publicações petistas vêm fabulando sobre a presente crise do governo Dilma, e do tipo de argumentação a que certamente viriam a recorrer numa eventual derrota da candidatura Lula em 2018.

Trinta anos depois daquele icônico comercial de vodca, Argentina e Brasil bisam a dinâmica do “Eu sou você amanhã” através da substituição da autocrítica, do debate franco e da apresentação de programas e propostas de ação, em prol do marketing político mais cosmético e da mera desqualificação do opositor, transformado em inimigo – e os eleitores deste em acéfalos e ingratos. Evidência de que, se os dois países evoluíram ao superar o jugo ditatorial, ainda estão muito aquém do nível de práticas, propostas e comprometimento que a verdadeira evolução democrática demanda.


Versão ampliada de texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa.
(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Samarco: crônica de uma tragédia anunciada

Neste momento, a lama tóxica do rompimento da barragem da Samarco arrasa com a vida de seres humanos, animais, rios e ecossistemas, em dois estados.

A empresa - cuja primeira atitude foi convocar jornalistas e advogados, para depois chamar o socorro - vai alegar inocência e culpar a natureza, contando para isso com a cumplicidade dos governantes (temerosos de perderem doações eleitorais e recursos milionários) e da mídia (cuja cobertura apelativa, sentimental, oculta as razões comerciais de seu desinteresse investigativo). Uma estratégia de encobertamento, dissimulação e vitimação que Vinicius Duarte disseca com agudeza.

Mas tal reação não oculta o fato de que se o ambientalismo fosse respeitado no país, o desastre simplesmente não teria acontecido. Pois uma barragem operava no limite, e outra a 10% deste. É a visão de que  licenças ambientais são frescura, uma mera burocracia a ser "desenrolada"  com a máxima rapidez, que leva a desastres como o de Mariana, evitáveis  se um laudo sério orientasse o licenciamento – obtido, no caso em questão, sabe-se lá como.

Porém, infelizmente, primeiro o conservadorismo tornou a ecologia um tema de chatos, e depois o petismo - Dilma à frente - o tratou como um empecilho mesquinho a atrapalhar o progresso. O resultado aí está.

Esta é uma tragédia com múltiplos autores: Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tem a culpa pela privatização irresponsável da Vale; Aécio (PSDB) pela forma leviana como seu governo concedeu licenças ambientais; Fernando PImentel (PT), o atual governador, por continuar emitindo licenças descriteriosas e por assumir a defesa da Samarco antes de qualquer investigação; e Dilma (PT) porque foi omissa em enviar ajuda, mesmo porque preferiu usar recursos para constituir uma Força Nacional para espancar jovens que exercem seu direito constitucional à manifestação pública, em vez de constituir e enviar forças para socorrer grandes desastres.

Não há, portanto, inocentes nessa história: ela confirma, uma vez mais, que PSDB e PT são farinha do mesmo saco.

Talvez a maior lição do desastre de Mariana, a bottomline, seja que o Estado sucumbiu de vez à inciativa privada, que a privatização criou - e as relações incestuosas com políticos dos mais diversos partidos deram um poder descomunal a - megaempresas capazes de coagir governos e mídia. Esta ainda disfarça, com uma cobertura de apelo sentimental, mas no fundo pouco interessada em questionar a razão do choro dos afetados, o que demandaria investigação séria sobre as culpas e responsabilidades pela tragédia.

Já a indistinção entre interesses públicos e privados é ainda mais patente. Torna-se cristalina na inacreditável atuação de Fernando Pimentel em defesa da Samarco, um governador que tem o desplante de se dirigir ao público, em pronunciamento oficial, de dentro da sede da empresa - onde fica localizado, aliás, longe da vista da população e da imprensa, o Centro de Operação e Buscas.

O certo é que a lama tóxica de Mariana, que ora se alastra pelo Espírito Santo, é, muito provavelmente, o primeiro dos grandes desastres que a fúria desenvolvimentista e o desleixo para com a regulamentação ambiental legarão ao país. 

E que tendem a se repetir enquanto a ecologia e o ambientalismo forem considerados excentricidades e empecilhos, e não a única garantia de desenvolvimento sustentável, de continuidade da vida de pessoas, animais, rios e ecossistemas.

 

(Imagem retirada daqui)