quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Lei "antiterrorismo" ameaça manifestações populares

O Senado acaba de aprovar, sob o pretexto de combater o terrorismo, uma lei que, na prática, servirá para criminalizar manifestações e protestos populares – inclusive e principalmente aqueles que vierem a pedir o impeachment de Dilma, o que fatalmente acontecerá se a crise, que já produziu 1.250.000 desempregados desde janeiro, continuar no atual ritmo e se transformar em tragédia social.

Com a precisão costumeira, o poeta e artista multimídia Andre Valiias radiografa o absurdo: “a presidente é autora da lei que será usada para criminalizar os manifestantes que irão às ruas contra sua deposição”. Mais maquiavelismo do que isso, impossível. E ainda tem gente que acredita que o PT é de esquerda...

De acordo com o projeto, que agora volta à Câmara (onde ja fora aprovado em agosto), as penas podem chegar a até 30 anos. 
Estamos, portanto, não apenas em meio a um gigantesco retrocesso econômico e social – promovido por um governo que se elegeu vendendo um pais de comercial de margarina e prometendo preservar empregos -, mas a um aumento do poder repressivo do Estado contra o direito constitucional à manifestação.

Trata-se do maior ataque à liberdade de ação política desde a ditadura.

Caracteriza-se, ainda, como uma reação última e tardia às Jornadas de junho, em 2013, momento traumático para o petismo, choque de realidade que desconstruiu a narrativa de prosperidade geral e evidenciou a insatisfação de amplos setores, notadamente os jovens.

A derrocada do petismo no poder começa ali, ao fingir não entender o sentido dos protestos, ao preferir propostas cosméticas, ao reprimir brutalmente enquanto preparava o endurecimento da legislação.

Ante o pesadelo que tem sido o segundo mandato de Dilma, muitos, atualmente, perguntam: até quando as pessoas aguentarão? Por que o povo ainda não promoveu protestos massivos?

A resposta certamente passa pela memória ainda viva da brutalidade da repressão a 2013, da violência policial desmedida, dos jovens manifestantes que amargaram meses de cadeia.
E inclui fatores que talvez estejam funcionando como elementos de dispersão, nublando uma percepção mais clara da gravidade do cenário político, tais como:

1) A premissa de que a mídia esteja contra Dilma (então como expllicar o apoio entusiasmado ao ajuste fiscal, ou a parca cobertura dos protestos de ontem contra a presidente); 

2) A alegada dicotomia entre governo progressista e Congresso conservador (“como se esse não fosse o Congresso eleito pelo esquema corrupto de governabilidade montado pelo PT”, como aponta o profesor Giuseppe Cocco);

3) O próprio fla-flu político, acirrado pela a atuação irresponsável de uma oposição sem propostas para o país, interessada tão somente na deposição da presidente.
Tudo isso é agravado pela ação de uma militância em grave estado de negação, que finge não ver o estelionato eleitoral, a repressão incompatível com democracia, o neoliberalismo como orientador da política econômica. Assim como passou anos tapando o nariz para a degradação ética da política inerente a alianças antiéticas com tipos como Maluf e Collor.,

Uma militância que, se Aécio, Marina ou qualquer outro candidato tivesse sido eleito e tomasse as mesmas medidas que Dilma vem tomando desde janeiro, estaria nas ruas a exigir a deposição do presidente.

Mas não, anestesiada, aceita passivamente a – e torna-se, portanto, cúmplice da –  criminalização das manifestações públicas. A história há de lhes cobrar o preço pelo fanatismo cego.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O escândalo do Enem

Se alguém ainda tinha dúvidas de que o Brasil e um país machista, as reações nas redes sociais e no Parlamento ante a escolha do tema "Violência contra a mulher" para a redação do Enem 2015 as dirimiram.

Tão logo a escolha do tema se tornou pública, figuras tragicômicas do conservadorismo brasileiro, como Bolsonaro e Feliciano acusaram o exame de “doutrinação” e de “marxismo do PT”, voltando suas baterias, ainda, a uma questão baseada no clássico feminista O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Para além da contradição irônica de um militar e um pastor reclamarem de catequização ideológica, trata-se de uma tripla bobagem.



Confusão deliberada
Primeiro, porque a violência contra a mulher é um tema que não se enquadra na divisão político-ideológica convencional entre direita e esquerda, pertencendo ao âmbito dos Direitos Humanos - que, como tais, ao menos na letra da lei, transcendem partidarismos.

Segundo, porque o PT nunca foi marxista, o que dizer após sua conversão a um modelo capitalista de desenvolvimento baseado no consumismo.

Terceiro, porque uma das mais recorrentes críticas a Marx é justamente de negligência para com as questões de gênero.




Analfabetismo político
Mas tal reação teve um aspecto pedagógico: a repercussão de tais criticas nas redes sociais, barulhenta e volumosa, forneceu uma amostra do quanto se encontra disseminado, sobretudo entre jovens, um conservadorismo preconceituoso e ignorante (embora se acredite ilustrado), neles instilado por velhas figuras paternais travestidas de intelectuais e ideologos.

Presos a uma visão política binária e excludente, com baixíssima formação cultural e política, são aliciados para um autoritarismo que “opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenadas que se organizam ao modo de uma grande falácia, ao modo de um imperativo de alto impacto performativo: o outro não existe e, se existe, deve ser eliminado”, como descreve a filósofa Márcia Tiburi em artigo na revista Cult. Para ela, esse neoconservadorismo, que se quer uma elite intelectual e se crê aideológico enquanto critica o que entende por ideologia (esquerdista) alheia, caracteriza-se por “autoafirmação de ignorância, assinatura de estupidez”.




Fahrenheit 451
O jornalista Mário Magalhães foi didático a tal respeito, ao apontar, em seu blog, que “O problema maior são as veleidades de censor, a proposta, escancarada ou envergonhada, de eliminar da história Simone de Beauvoir, seu pensamento e suas ações”.

Seja como for, em termos políticos é temeroso pensar o que esses jovens eleitores virão a fazer, nos próximos anos, com os seus votos.



Orgulho sem razão
O petismo, por sua vez, no estado extremo de carência em que se encontra, aproveitou o acerto na escolha do tema da redação como evidência, a um tempo, de seu esquerdismo e de que administra bem a Educação. Trata-se de uma dupla falácia, pois área educacional é a que mais sofre com o ajuste fiscal de inspiração neoliberal, com cortes na casa das dezenas de bilhões de reais.

Pior: no que diz respeito ao próprio tema da violência doméstica, embora o partido tenha o grande mérito de ter participado da elaboração e ajudado a aprovar no Congresso a “Lei Maria da Penha”, sancionada pelo presidente Lula, o governo Dilma, ao vetar a lei que determinava a igualdade de salários entre homens e mulheres, colaborou de maneira decisiva para perpetuar a assimetria econômica entre os sexos - que, por sua vez, está no cerne das relações de dependência financeira que dificultam tanto a denúncia da violência
quanto a obtenção de autonomia por parte de mulheres agredidas, muitas das quais acabam presas a uma relação abusiva.
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Feminicidio e violência
Nunca é demais apontar que a violência contra a mulher é uma questão social urgente. Segundo dados oficiais, quase 50 mil brasileiras foram assassinadas entre 2001 e 2011, a maioria entre 15 e 24 anos. Foram feitas mais de 50.000 denúncias em 2014, sendo que 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência são agredidas ao menos uma vez por semana, 48% delas em sua própria casa. Sendo que se teme que esses números sejam apenas a face visível de uma violência que muitas vezes sequer é registrada.

Portanto, carimbar tal tema de propaganda esquerdista revela um misto de ignorância e má-fé, pois faz todo o sentido (cívico, educacional, preventivo) instigar jovens vestibulandos a sobre ele refletirem. A escolha dos examinadores foi mais do que acertada.




Jogo de aparências
Mas, levando em consideração o todo da prova, isso não anula algumas das críticas que são feitas ao Enem (não obstante o avanço que este representa em relação ao vestibular convencional). Dentre elas destacam-se o desprezo pelas diferentes realidades educacionais regionais, a não-explicitação dos propósitos e da competência de área de cada questão, e um modelo de prova que, se inova na escolha das questões, tratando temas sociais atuais, não deixa de repetir uma fórmula esquemática de exame que favorece as escolas cujo planejamento de aulas se dá com vistas ao exame (à maneira dos antigos cursinhos), prejudicando aquelas que cobrem o currículo sem direcioná-lo para tal.

Tais vícios têm tido como distorção mais palpável a hegemonia nacional, nos cursos mais disputados, de estudantes advindos das escolas de elite do Sudeste, os quais, além da ampla supremacia em sua própria região, têm ocupado muitas das vagas no restante do país, notadamente no Nordeste. Para um exame que foi anunciado como um substituto democratizante e socialmente includente ao velho modelo de seleção, trata-se de um problema gravíssimo.



Sem cura
Ainda mais grave é o fato de que, publicizado como uma falsa panaceia includente, o Enem, na verdade, nada altera em termos da qualidade do ensino oferecido. Como resume com propriedade Alcides Villaça:

Em vez de uma educação pública de bom nível, elaborar a cada ano uma cada vez melhor prova de avaliação do ensino deficitário. Um estranho termômetro, planejado para dissimular a febre”.




Mais de uma década de paliativos
Nesse sentido, o Enem repete o que se tornou um padrão nos 13 anos de petismo no poder: a opção por medidas de baixo ou nenhum custo, vendidas como panaceias, no lugar de ações planejadas e estruturadas de melhoria da Saúde e da Educação - como, respectivamente, o Mais Médicos, em vez de uma reestruturação da saúde pública no país; e a adoção de (bem-vindas) cotas, mas desacompanhadas de uma reforma educacional que estimulasse, em parceria com os estados, um salto qualitativo na área.

Destarte, aliviam-se alguns problemas e corrigem-se algumas distorções, mas sem mexer na estrutura que os causa.




A questão do contraditório
Tampouco se pode negar que, apesar da louvável escolha do tema, a correção da redação trará armadilhas potenciais. Pois, por um lado, parecem consideráveis as chances de que vestibulandos machistas e que foram previamente orientados a fazer ponderações e atentar ao contraditório em suas redações venham com argumentações do tipo "a mulher tem de se preservar", que indiretamente a culpam pela violência sofrida, chancelando-a.

Se, como tem sido nos últimos anos, a correção da redação der prioridade a estrutura, correção gramatical e construção de sentido, em detrimento da coesão ideológica, aumentam as chances de que redações tais como as descritas no parágrafo anterior venham a obter notas altas – quiçá máximas.



Escândalos
Por outro lado, se a correção se ativer com o devido rigor aos preceitos éticos e só der notas altas a redações que condenem sem subterfúgios a violência contra a mulher, isso pode vir a ser interpretado como um endosso à crítica (que não veio só do conservadorismo) de que, apesar de sua inegável importância, o tema, tal como proposto, não comporta o contraditório e impõe, na prática, uma – e apenas uma - posição ideológica ao vestibulando.

De um modo ou de outro, a tendência é que a questão da escolha do tema volte a produzir escândalos na mídia tão logo a correção e as notas das redações sejam divulgadas.


(Imagem da Mafalda de Quino retirada daqui

 

 

domingo, 25 de outubro de 2015

Mídia golpista? O mito do PIG em questão


No decorrer da era petista, o modo recorrente como o jornalismo midiático desviou-se de suas funções, incorrendo em demarcado partidarismo, consolidou, em setores do público, a imagem de uma pronunciada oposição entre mídia e governo.



Além de corroborada pela presidente da Associação Nacional de jornais, Maria Judith Brito –para quem os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país” -, tal oposição foi ratificada, entre tantos outros feitos notáveis da mídia brasileira, pela transformação editorial da revista Veja em porta-voz do neoconservadorismo a la Fox News; pela adoção, pelos principais órgãos escritos e televisivos, de um mesmo e restrito time de comentaristas políticos raivosamente antipetistas; pela repetida transgressão de princípios basilares da ética jornalistica, culminando com a publicação, na capa de uma edição dominical da Folha de S. Paulo, da ficha policial falsa da então candidata Dilma Rousseff.



A animosidade de grande parte da mídia para com o petismo é, portanto, sobejamente conhecida (mas isso não impediu que o PT elegesse quatro presidentes em seguida e, de quebra, o prefeito da maior cidade do país, o que muito nos diz sobre o real poder da mídia).







Reação irônica

Tal comportamento, inserido em um quadro geral no qual o setor de comunicação reflete as assimetrias socioeconômicas do país, excessivamente concentrado numa plutocracia familiar e eivado de vícios clientelistas, acirrou ainda mais os ânimos. Por sua vez, os meios petistas de comunicação, concentrados na internet, reagiram elegendo a mídia corporativa como inimigo preferencial, a ela referindo-se com o uso de uma sigla tão sarcástica quanto pregnante: "PIG" [Partido da Imprensa Golpista].



A principio uma reação bem-humorada e denunciadora dos desvios de função do jornalismo midiático, tal estratégia, entretanto, ao tornar-se a norma repetida ad eternum, foi perdendo o seu poder de choque e, ao fornecer um sempre mesmo diagnóstico negativo a priori, anteposto ao exame analítico do objeto caso a caso, acabou relativizando ou mesmo anulando a própria crítica que intenta perfazer.







Omissão e apoio

Ainda mais porque o exame cotidiano e criterioso da mídia nacional, sobretudo a partir da ascensão de Dilma Rousseff ao poder, tende a revelar padrões não binários e muito menos maniqueístas do que a generalização peremptória que o rótulo “PIG” implica.



Se não vejamos: visto a partir da esquerda, um dos maiores erros estratégicos do petismo foi não construir sua própria narrativa, deixando-se aprisionar por um sistema de valores ditado justamente pela mídia e pelo mercado. Enquanto a economia "ia bem" (segundo tal quadro valorativo) funcionou, e os militantes e entusiastas petistas vibravam como torcidas de futebol a cada divulgação de índice econômico, a cada afago de porta-vozes do mercado, a fossem estes agências de classificação de riscos, colunistas da imprensa ou a The Economist - entes hoje execrados.



E como se comportou, de maneira geral, a mídia ante as sucessivas privatizações - “concessões”, na novilíngua petista – de aeroportos, rodovias e do Pré-Sal levadas a cabo pelo atual governo? Qual abordagem predominou ante o recente corte de direitos trabalhistas e previdenciários efetuados por um governo que, na campanha eleitoral, comprometeu-se a não alterar tais direitos “nem que a vaca tussa”? Por quantas vezes noticiou e expressou sua desaprovação ao genocídio indígena e à inação do governo? Como tem reagido ao fato de que os índices de reforma agrária do governo Dilma são menores do que os de FHC? Com que frequência e destaque tem retratado o processo de sucateamento do Ensino Superior ora em curso, que se expande quantitativamente mas sem a correspondente evolução qualitativa em relação a salários, plano de carreira e condições de trabalho de professores e de funcionários, além de laboratórios, salas de aula e bibliotecas insuficientes e por vezes improvisadas?





Por novos modelos

A resposta a estas questões denota, de forma clara, que a ação midiática não se dá exclusivamente nos moldes da reatividade negativa, como quer o governismo. Quando lhe convém, adota posturas que variam da omissão cúmplice ao endosso de medidas governamentais, mesmo quando elas tendem ser prejudiciais ao interesse da maioria do povo. Evidencia-se, assim, a impropriedade de se utilizar um mote totalitário e generalista para carimbá-la de antemão como instituição golpista. Mais sentido faria um modelo analítico que fosse além do binarismo mídia-governo e atentasse para as relações entre a notícia e os interesses classistas, econômicos e ideológicos da mídia.



O rótulo “PIG”vem há tempos servindo como desculpa multiuso e cortina de fumaça a justificar e impedir a análise dos erros das administrações petistas, o que acabou gerando um alto custo ao pais, por impedir ou retardar a perpcepção da crise em gestação e de sua gravidade. Em última análise – e ao contrário do que o petismo apregoa – se, durante a campanha elitoral, a mídia tivesse cumprido o seu papel com um mínimo de rigor, denunciando a real situação da economia brasileira país, Dilma Rousseff jamais teria se reelegido. A mídia que o governismo denuncia como golpista foi, nas verdade, gravemente omissa – e para benefício do próprio petismo.







O caso das agências de rating

Mas, para além do atípico período de campanha eleitoral, poucos episódios políticos recentes têm ilustrado com tanta propriedade a falsidade da dicotomia mídia versus governo do que a cobertura que vem sendo dispensada ao ajuste fiscal. A atuação midiática, que já se mostrava há tempos longe do estereótipo projetado pelo governismo, passou a deste distoar ainda mais com o anúncio do rebaixamento da nota do Brasil, primeiro pela agência de risco Standard & Poor's, depois pela Moody's, com a decorrente perda do grau de investimento.



O que se assistiu no noticiário, de forma geral, não foi, de modo algum, a algo que se assemelhasse a uma reação revanchista, de criticismo desmedido ou raivosa – pelo contrário, grande parte da imprensa e da mídia televisiva do país pareceu desde então engajada em uma espécie de “campanha cívica” pelo ajuste fiscal. A qual dá mostras de incluir um esforço extra para popularizar e “tornar simpático” o reservado Joaquim Levy e para transformar o aumento de impostos em um leve esforço individual pelo bem do país. Que ”PIG” bonzinho...







Levy na Globo

O deslanche de tal campanha se deu na mesma quarta-feira em que a nota do Brasil fora rebaixada pela primeira vez, com uma entrevista ao vivo do ministro ao Jornal da Globo, logo após o futebol. Precedida por uma daquelas simplificações que envergonham o jornalismo econômico – com os apresentadores afirmando que o rebaixamento da nota do país corresponderia, para o cidadão, a ficar com o “nome sujo” na praça – a entrevista serviu, sobretudo, para o ministro vender o seu peixe.



Aludiu à dificuldade de fazer cortes na Saúde e na Educação, omitindo que este ano já os fizera, e de forma significativa (são as duas áreas mais recortadas por sua famosa tesoura) e chegou a cometer platitudes como “a baixa popularidade nos dá uma oportunidade para aumentá-la”, sem ser questionado pelos entrevistadores.



Uma comparação da entrevista de Levy com aquelas feitas com candidatos à Presidência a cada eleição pelo mesmo Jornal da Globo dá a ideia precisa do comportamento de um atipicamente cordato e pouco incisivo Waack e de uma protocolar Christiane Pelajo como inquisidores: nenhuma interrupção, nenhuma insistência, nenhuma contestação às afirmações e supostos dados apresentados - apenas um repertório de perguntas para que o entrevistado dissertasse à vontade. Contraposto, por exemplo, ao bombardeio verbal de Ana Paula Padrão e Franklin Martins contra Anthony Garotinho, foi um passeio no parque.







Campanha “cívica”

No dia seguinte ficou claro que não se tratava de um ato isolado: excetuada a maioria dos colunistas de opinião, o que se leu e viu, na imprensa e no restante da mídia, foi uma verdadeira operação de marketing governista. E com Levy onipresente, com sua fala mansa e pontuada de diminutivos repetida nas manchetes e programas, como um mantra de convencimento coletivo, expressando a “certeza de que todo mundo está disposto” a pagar “um pouquinho mais de imposto para o Brasil ser reconhecido como um país forte”.



Não é este o espaço apropriado para o debate acerca da atual questão dos impostos no Brasil [já o esbocei em outra ocasião], tampouco de desenvolver análises sobre a irônica contradição de um economista formado na Escola de Chicago e tido como neoliberal ortodoxo tornar-se publicamente conhecido por defender aumento de impostos. No âmbito deste artigo, importa, em primeiro lugar, assinalar que tais dados denotam o quanto, no caso em questão, o comportamento da mídia em relação a Levy - e ao governo que ele representa - contradiz frontalmente a oposição binária e automática entre este e aquela que as hordas governistas vivem a bradar e o emprego generalizado do termo “PIG” presume.







Razões do alinhamento

Em segundo lugar, faz-se necessário examinar as as razões pelas quais a a mídia, neste caso, contraria uma alegada ojeriza ao governo Dilma e se torna sua parceira em uma espécie de movimento em prol da colaboração de todos para o ajuste fiscal. Uma hipótese provável é que, ao endossar o aumento generalizado de impostos preconizado por Levy, os grupos de mídia estariam expressando, uma vez mais, a posição dos setores da elite que repelem medidas como a taxação efetiva de fortunas ou de transações que afetem o rentismo.



Desta forma, o jornalismo, que historicamente alardeia para si o dever iluminista de informar ao povo, prefere cometer um grave desvio de função e associa-se ao governo petista numa operação cuja própria natureza classista é dissimulada e que visa promover a transferência do ônus da crise para os cidadãos. Assim se explica o quase unânime endosso midiático ao pragmatismo de Levy, cujo discurso coletivista aparentemente simples oculta uma engenhosa fórmula para manter os lucros do mercado financeiro e das classes mais abastadas ao abrigo da crise, ao passo que faz a população arcar não só com o ônus cotidiano desta, mas com o cumprimento das metas que o mercado impôs para superá-la.







Questões em aberto

Tudo somado, resta a pergunta: como acusar de golpista uma mídia empenhada em uma operação para convencer a população a se sacrificar ainda mais, pagando impostos ainda maiores, para que o governo Dilma Rousseff - o qual alegadamente odeia – tente cobrir o rombo de R$50 bilhões que, pela própria incompetência, legou ao país?



Ou, posto de outra forma: quando será que aqueles que acreditam no mito do “PIG” vão demorar para se aperceber de que não há porque a mídia ser golpista contra um governo que, em plena crise, pune trabalhadores e aposentados enquanto preserva o mercado financeiro e as grandes fortunas?






Segunda versão de artigo publicado originalmente no Observatório daImprensa.

(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O pior dos mundos

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do fim da gratuidade obrigatória nos cursos de pos-graduação das instituições estatais representa a mais grave ameaça, até hoje, à universidade pública gratuita, autônoma e republicana.

Constitui, assim, mais um exemplo cabal do grau de ameaça a conquistas sociais de longa data que a crise do petismo no poder ora suscita, com uma presidente enfraquecida e acuada, disposta a tudo ceder para não ser destituída.

As pós-graduações federais já haviam sofrido um duro golpe com o corte de 75% das bolsas de estudo, que se seguiu ao anúncio das medidas fiscalistas da política econômica de Dilma, a cargo do tesoureiro Levy. Corte que, em efeito cascata, serve agora de pretexto para Alckmin suprimir R$13 milhões das pós-graduações paulistas (USP, Unesp e Unicamp), no que será certamente seguido por outros governadores.



Exclusão educacional
A diminuição no volume de bolsas, agora agravada pela possibilidade de cobrança dos cursos, tem efeito social nocivo, pois impede que estudantes oriundos das classes baixa e média se mantenham financeiramente durante os seis ou sete anos necessários para obtenção do mestrado e doutorado (titulos que hoje são imprescindíveis, por exemplo, para o ingresso no magistério público superior).

Trata-se de uma ameaça concreta a um sistema que vinha funcionando bem há décadas, e que tinha a vantagem adicional de fornecer um meio de subsistência – mesmo precário –, o qual permitia a um contingente expressivo de recém-formados trocar as fileiras dos desempregados pela oportunidade de se qualificar enquanto faziam – ou se preparavam para fazer - a transição do âmbito da universidade para o do mercado do trabalho

Nem Fernando Henrique Cardoso foi tão longe a ponto de instaurar tal dispositivo elitista e de exclusão social, que na prática bloqueia o acesso dos não-ricos às pós-graduações. Apesar de todas as dificuldades impostas na era tucana, as bolsas foram mantidas e, ao contrário do que hoje acontece, havia verbas para viagens e congressos.



Ameaça concreta
Além da ameaça per se à pesquisa inerente aos cortes de verbas, ao elitismo e exclusão social que traz à pós-graduação, e ao agravamento do já alto desemprego de recém-formados, a aprovação do fim da gratuidade constitui um passo concreto em direção à privatização da universidade pública, velho sonho do conservadorismo brasileiro.

A intensificação do sucateamento das graduações, a extensão do fim da gratuidade para tal faixa de ensino e a flexibilização de contratos de trabalho de professores são os próximos passos. Até que desapareça a divisão entre universidades públicas e privadas, o nível de ensino se nivele por baixo – como hoje ocorre no setor privado - e aos professores sejam oferecidos salários (ainda mais) humilhantes (como os R$500 mensais que as corporações de ensino superior hoje pagam a iniciantes).



Jogo duplo
O petismo e seus porta-vozes irão, como de praxe, tentar colocar a culpa por mais esse retrocesso no conservadorismo do atual Congresso – como se tal tendência fosse a antítese do partido e não, em larga medida, um fruto da realpolitik lulista e da busca deliberada de hegemonia à direita empreendida por Dilma em seu primeiro mandato, com suas alianças aprogramáticas, ditadas únicamente por interesses e sua subserviência ao conservadorismo religioso, que hoje cobra um preço tão alto.

Mas os fatos estão documentados: enquanto PSOL, Rede e PCdoB votaram contra o projeto, o PT liberou bancada, mantendo a estratégia de não contrariar as demandas dos partidos conservadores, pois precisará de seus votos na votação do impeachment. Depois com a desfaçatez costumeira,vem posar de defensor da universidade pública - e tem gente que ainda cai nessa.



Prioridade à Educação?
Pior: um governo que se vale do slogan “Pátria Educadora” e cuja mandatária foi eleita jurando priorizar a Educação não mexeu uma palha para se contrapor ao projeto do deputado Alex Canzani (PTB/PR), cuja “justificação” para o fim da gratuidade na pós-graduação chega a ser ofensiva de tão mal informada:

"Embora sejam, em última instância, atividades de ensino, geralmente se dirigem a públicos restritos, quase sempre profissionais e empregados de grandes empresas, constituindo importante fonte de receita própria das instituições oficiais". [aqui, a íntegra da PEC 395.]

Como um projeto com uma visão tão tacanha do que seja a pós-graduação pôde transitar e ser aprovado na Câmara? Cadê os quadros qualificados do MEC para explicarem a esses senhores o papel da pós-graduação nas sociedades contemporâneas, e a exclusão social e educacional que tal medida significa em um país em desenvolvimento como o Brasil? A última – e ínfima - esperança reside agora na reação dos senadores ao projeto.



O coletivo pelo pessoal
O absoluto desinteresse do governo tem, como já apontado, uma razão de ser, ainda que esta diga respeito exclusivamente à manutenção do poder presidencial, não importa a que custo em termos de ameaça às conquistas sociais. Em nome de tal meta pessoal-partidária, Dilma sacrifica direitos trabalhistas, boicota desempregados, desterritoraliza os indios, patrocina o retrocesso na pauta biopolítica – e agora tira a pós-graduação do alcance dos estratos baixos e medianos. E o resultado de tanto conservadorismo tem sido nulo.

Restam a Dilma três alternativas: uma guinada à esquerda, renegando a insensibilidade social neoliberal e comprometendo-se, de fato, com as demandas populares, o impeachment ou a renúncia.



Sinuca de bico
A primeira alternativa é uma impossibilidade, por conta do grau de comprometimento do petismo com alianças espúrias e com um modelo de desenvolvimento tão arcaico quanto perverso, ora em plena crise (a não ser para o Bradesco e o Itaú, que continuam batendo recordes de lucro).

A segunda parece cada vez mais distante, não só como resultado do comércio de balcão do governo com seus algozes, mas por efetivamente não haver, até o momento, prova de crime de responsabilidade cometido no presente mandato (como já tive oportunidade de assinalar em outra ocasião, incompetência e mesmo estelionato eleitoral depõem contra Dilma, mas não justificam legalmente o seu impeachment).

Por fim, a terceira não passa de uma quimera, pois demanda uma estadista, que se interesse mais pelo futuro do povo e do país do que pela manutenção apenas nominal, cosmética, do próprio poder.



O país aguentará?
Assim sendo, restará ao país continuar a sangrando por mais três anos, dois meses e nove dias, com Dilma dando seus dedos aos conservadores - muitos dos quais, como o hoje vilão Eduardo Cunha, cresceram à sombra das alianças aéticas do petismo -, desde que lhe deixem os aneis.

Enquanto isso a crise se adensa, o número de desempregados se multiplica, os estabelecimentos fechados se proliferam ao longo dos quarteirões, os salários compram cada vez menos, os relatos sobre o sucateamento da saúde e da Educação se avolumam, e mais índios são mortos ou se suicidam enquanto suas terras são invadidas por ruralistas, sob o olhar complacente da primeira-amiga Kátia Abreu.

E a ansiedade e a estupefação ante a deteriorização do país do futuro assombram cada vez mais cidadãos e cidadãs, que se perguntam: “- Até quando?”.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dia do Professor: comemorar o quê?

Professor, no Brasil, só é reconhecido no 15 de outubro, assim como Educação só é prioridade em campanhas eleitorais e no delirante e mentiroso slogan "Pátria Educadora".



A universidade pública brasileira está sendo sucateada novamente, duas décadas após a tentativa de desmante empreendida por Fernando Henrique Cardoso, e agora a um ritmo ainda mais rápido do que antes. As condições de trabalho se deterioram cada vez mais, seja pela burocracia imbecilizante, por falta de segurança, defasagem tecnológica e precariedade de bibliotecas e material de apoio.



Os salários dos professores, que há 30 anos se equiparavam ao de juízes ou promotores, foram corroídos a um nível tal que ora são um terço do daqueles profissionais, embora as exigências para ser professor tenham crescido enormemente, e impliquem, hoje, em seis a oito anos a mais de estudo para obtenção de mestrado e doutorado.



Para completar, os concursos para ingresso na universidade pública são, no mais das vezes, cartas marcadas, com conluios entre professores reproduzindo a corrupção endêmica do país e manchando um processo que deveria primar por isenção e merecimento. Há departamentos em que mais de 90% dos professores são egressos da própria instituição.



Por fim, o corte brutal dos recursos para Educação, realizado pelo mesmo governo que se autoproclama “Pátria Educadora", lança os campi a uma situação de penúria – na UFRGS não há nem papel higiênico; várias federais não têm verba sequer para a conta de energia elétrica. Além disso, ao podar 75% das bolsas de pós-graduação, o atual governo coloca o futuro da pesquisa acadêmica sob séria e real ameaça. Concomitantemente, com o país em plena crise orçamentária, os bancos  - Itaú à frente - batem recordes sucessivos de lucros, o que deixa claro quais são as verdadeiras prioridades da administração Dilma Rousseff.



Enquanto isso, no estado mais rico da Nação, o governador, sob o pretexto da economia imposta ela crise, decide, de forma arbitrária e sem nenhuma discussão com a sociedade, fechar escolas, medida que é uma metáfora perfeita para o real valor que se atribui à Educação no país.



Não há o que comemorar.



(Imagem retirada daqui)