quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A farsa petista na Comissão de Direitos Humanos

A possibilidade de um petista ser eleito para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados foi, em um primeiro momento, saudada nas redes sociais, até mesmo pela oposição à esquerda. Isso se deu pela nomeação supostamente significar a retomada da comissão para o campo progressista, após um mandato sob o comando do pastor Marco Feliciano (PSC/SP), que fez dela palco para o proselitismo religioso, o ataque contra gays e minorias e o retrocesso na pauta dos Direitos Humanos.

No entanto, o alívio pela eleição de Assis do Couto (PT/PR) logo cedeu lugar a frustração e raiva, à medida que se evidenciava o perfil do deputado: um especialista em agricultura familiar, conservador, contrário ao aborto e sem conhecimento ou experiência mínima no campo dos Direitos Humanos.



Baixa política
Sua nomeação é fruto direto do desleixo e do descaso petista para com os DHs: Couto já estava assegurado para a presidência da Comissão de Agricultura, a preferida do PT, disposto a abrir mão, uma vez mais, da Comissão de Direitos Humanos. Porém a forte reação contrária nas redes sociais e entre setores da militância, inconformados ante a possibilidade de que os DHs permanecessem mais um mandato nas mãos do conservadorismo religioso, obrigou o partido a recuar.

Esse recuo, no entanto, foi meramente cosmético. Sem renegociar, sem sequer empenhar-se em nomear um quadro com histórico de lutas pelos DHs - os nomes mais cotados eram os de Nilmário Miranda (MG) e Erika Kokay (DF) –, o PT, uma vez mais, privilegiou a pequena política e seus obscuros acordos paroquiais, em detrimento de uma ação republicana, consistente e socialmente responsável.



Prêmio de consolação
Ao encarar a presidência da CDHM como um "prêmio de consolação", uma troca desvantajosa imposta pela forte reação contrária, o partido deu vazão a um comportamento que sequer dissimula sua má vontade e seu caráter pirracento, pouco consequente.

Em decorrência, ao optar por preterir quadros reconhecidamente capazes no campo dos DHs e nomear um agricultor familiar, inexperiente no tema e ligado à "Frente Mista Em Defesa da Vida – Contra o Aborto" (que reúne evangélicos e católicos, como ele), o partido se omite e, uma vez mais, deixa explícita a pouca importância que atribui aos Direitos Humanos.



Os DHs sob ataque
Tal omissão é particularmente grave neste momento histórico do país, em que os índios são vítimas de um novo genocídio, em nome de um modelo arcaico de desenvolvimento e sob o silêncio cúmplice da mídia.

Em que gays são rotineiramente agredidos e assassinados, seja no Baixo Augusta ou nos arrabaldes de cidadezinhas perdidas no tempo.

Em que, a despeito do esforço civilizante e da Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres se mantém em níveis endêmicos.

Em que cresce impunemente a ação de linchadores contra pequenos delinquentes, amarrados a postes como figuras de Debret, numa reatualização muito além de iconográfica do legado da escravidão.

Em que à violência policial como repressão periférica soma-se – e se torna rotineira - a brutalidade da PM contra os que exercem o direito constitucional à manifestação pública.



Truculência recorrente
Não que chegue a causar estranhamento essa postura do petismo. A falta de dialogo com o sindicalismo, com as organizações públicas e com a sociedade em geral é um traço distintivo desses três anos e pouco de governo Dilma. Renato Janine Ribeiro relata a estupefação de um grupo de grandes empresários com o imperscrutável comportamento presidencial: -"Ela não ouve. Nem fala".

Ainda mais explícitos em seus intentos autoritários são o endosso do governo a uma legislação draconiana de combate ao terrorismo – AI-13? -, supérflua ante o Código Penal e desautorizada por juristas de gabarito e democratas de juízo; a aposta de Cardozo na repressão e a facilidade com que oferece a Força Nacional para reprimir os "vândalos baderneiros"; e, entre outras tantas manifestações de truculência antidemocrática, o entusiasmo de Fernando Haddad ante a "Tropa Ninja" da PM paulista, que ajudou a brutalizar as últimas e até então pacíficas manifestações em São Paulo.

E sendo que tudo se dá num contexto no qual o Ministério dos Direitos Humanos, sob a complacente Maria do Rosário, mantém os olhos cerrados para toda a violência oficial, fingindo ser um órgão destinado tão somente a defender cidadãos fardados.


Pingos nos is
A eleição de Assis do Couto insere-se, portanto, em um contexto maior, a partir do qual sua intencionalidade se explica (mas não se justifica). Ela vem fornecer mais um exemplo cabal do quanto o PT negligencia os Direitos Humanos.

Tornou-se corrente, entre as hostes governistas, atribuir tal percepção negativa ora à má vontade da mídia, ora a uma alegada falha de comunicação do próprio governo. Mas claramente não é este o caso no que concerne à atuação do partido no episódio, fruto de uma política deliberada, um cala-boca improvisado e desdenhoso contra a gritaria dos que ousaram protestar.

Tudo somado, a nomeação, pelo PT, de Assis Couto para a CDHM deve ser entendida como o que é: um acinte e um deboche.


(Cartum de Latuff retirado daqui)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A "nova" Secom e a blogosfera

A posse de Thomas Traumann como ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), ocupando o lugar que fora de Helena Chagas desde o início do governo Dilma Rousseff, acena para uma reformulação na política de distribuição de verbas publicitárias federais, com a chance de uma incorporação mais substancial de sites independentes e blogs políticos em detrimento do benefício virtualmente exclusivo à mídia corporativa até então vigente.



Trata-se de uma possibilidade altamente salutar e de uma medida há tempos acalentada pela blogosfera não corporativa. No entanto, por razões que serão elencadas ao longo do artigo, o sucesso de sua implementação depende da capacidade de levar em conta a trajetória e a atual conformação do campo político na web, as quais examinaremos a seguir.







A mídia na mira

A consolidação de uma arena política na internet brasileira está diretamente ligada ao exercício da crítica à mídia, que se dissemina de forma expressiva nos blogs a partir do início do terceiro milênio, no bojo do advento da web 2.0, mais interativa e veloz, e da consolidação, nas redes sociais, de uma militância engajada na primeira eleição presidencial vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.



Antes disso já era exercida amiúde por um punhado de atores virtuais e, desde 1996, a razão de ser do Observatório da Imprensa, capitaneado pelo decano Alberto Dines e o modelo para uma série de iniciativas semelhantes, na academia e fora dela. Se em tais projetos o exercício do media criticism, pluralista, primava pela busca (nem sempre bem-sucedida) por equilíbrio analítico e equidistância político-partidária, nos blogs e redes sociais viria, ao contrário, a assumir a piori suas inclinações: tratava-se, sobretudo, de combater e denunciar as falsidades da mídia corporativa como estratégia de contrainformação que desmontasse eventuais factoides a favor da oposição ao petismo – notadamente, os tucanos - e de dar visibilidade a políticas lulistas que alegadamente a mídia boicotava.







Conquistas e limitações

Tal reação virtual contra a mídia, em um primeiro momento caracteristicamente voluntária, amadora e sem uma coordenação central, obteve conquistas importantes. No atacado, acabou por chamar a atenção de um número significativo e crescente de pessoas para as manipulações, a teia de interesses implícitos com o grande capital e o baixo grau de confiabilidade da mídia corporativa em nosso país. No varejo, destacou-se em uma série de episódios políticos relevantes: provou tratar-se de uma mera bolinha de papel um alegado bólido de aço atirado contra o cocuruto do candidato José Serra; reagiu em peso contra a tentativa da Folha de S. Paulo de abrandar o período militar, solidarizando-se ainda com os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides contra as grosserias do publisher Octávio Frias; por diversas vezes desconstruiu, em questão de horas, manchetes da Veja intentadas para repercutir durante a semana toda; não raro contrapôs dados e conhecimentos técnicos à mera verborragia ideológica, entre tantos outros eventos cuja atuação desmistificadora contra a mídia foi digna de nota. Talvez não seja exagero afirmar que outros teriam sidos os rumos das três últimas eleições presidenciais sem a ação da blogosfera e da atividade política nas redes sociais – o que dá uma medida de sua importância e de sua atualidade.



Não obstante a efetividade de tais conquistas e o fato de constituírem um indiscutível avanço no âmbito de uma esfera comunicacional que há décadas mantém-se altamente concentrada e controlada, uma análise criteriosa do fenômeno exige que se tenham claros seus limites de alcance e reais dimensões. Pois se, por um lado, tais novos atores políticos/comunicacionais abriram os olhos de parcelas da população com acesso à internet - para as quais constituíram-se, a um tempo, alternativa à mídia corporativa e polo de contrainformação -, por outro seu raio de alcance, em relação ao conjunto da população brasileira, segue sendo bem inferior ao que o "efeito bolha" dos que convivem diuturnamente nas redes sociais e blogs quer fazer crer. Quem convive em ambientes não virtuais diversificados em termos etários, educacionais e socioeconômicos constata com facilidade que um número enorme de pessoas não leva em conta, mal ouviu falar ou sequer teve algum contato com a blogosfera e os debates políticos nas redes sociais, os quais estão longe de constituírem suas fontes recorrentes de informação ou de exercer alguma influência direta na formação de seu raciocínio político ou decisões eleitorais.







Duplo paradoxo

Além desse problema – que, reflexo da própria relação de parcelas da população com a política, é de cunho socioeducativo, transcendendo o âmbito da comunicação política na internet -, uma análise mais detida evidencia que esta não tem sido uma atividade desprovida de percalços. No I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em 2010 - quando ainda havia um sentimento de união entre diversos desses atores virtuais, hoje inexistente -, Luiz Carlos Azenha, do site Vi o Mundo, apontou para os limites da crítica diária à mídia tal como exercida nos blogs e redes sociais, e para a necessidade de que, como forma de se firmarem como alternativa real à mídia corporativa, fosse produzido, de forma regular, material jornalístico original.



Com raríssimas e fugazes exceções, muito pouco se avançou, em tal sentido, nos quatro anos que separam a observação de Azenha do presente, o que torna a blogosfera política presa de um paradoxo: o fato, por um lado, de a critica à mídia continuar sendo sua atividade precípua e mais frequente e, por outro, de ainda depender em larga escala da reprodução de material pela mídia publicado para assegurar uma postagem diária substanciosa, faz com que a blogosfera se mantenha presa a uma situação de dupla dependência em relação à mídia. Basta consultar as postagens dos principais blogs do país ou atentar para a origem dos tópicos que alimentam as principais discussões de cunho político correntes nas redes sociais para se certificar de tal impasse, que fere a autonomia dos blogs e suscita questões relativas a copyrights. Há a esperança de que tal questão tenda a ser melhor equacionada à medida que se obtenham formas de financiar a atividade em bases profissionais.









Desqualificações e descritérios

Uma segunda e grave distorção característica desse meio tem sido a forma inapelável e genericamente pejorativa como a mídia passou a ser tratada. A sigla PIG [Partido da Imprensa Golpista] difundiu-se e se tornou de uso corrente nos ambientes virtuais, generalizando a priori uma grave acusação sem uma respectiva e necessária análise caso a caso que a corroborasse – e sem claros critérios metodológicos que a embasassem.



O maniqueísmo e a falta de critérios que marcam a relação com a mídia apontam para contradições essenciais da blogosfera política brasileira, hoje. Um exemplo pedagógico desse processo é que os principais jornais, como O Globo e Folha de S. Paulo, considerados "PIG" por definição, se tornam automaticamente fonte de informação confiável – ou mesmo inquestionável - quando dão notícias a favor do governo, republicadas com fervor pela blogosfera governista.



Tal incongruência tem alcance internacional: quando a The Economist colocou o Brasil na capa como uma economia fulgurante (simbolizada pela estilização da imagem do Cristo Redentor como um foguete), grande parte da blogosfera exultou. Porém, alguns meses depois, quando a mesma publicação aludiu ao baixo desempenho de nossa economia (com o Redentor/foguete caindo, após um "voo de galinha"), muitos dos mesmos blogueiros falaram em "PIG" internacional e na imaginosa influência de um ex-ministro de FHC sobre o periódico.







Partidarismo

Numa blogosfera amplamente dominada pelo petismo – sobretudo no que tange aos blogs de grande audiência -, tais contradições e maniqueísmo dão a medida do caráter tendencioso de um amplo conjunto de atores políticos virtuais. São capitaneados pelos "blogs progressistas" e por uma brigada de agentes de mídia social – multiplicada neste período pré-eleitoral -, pouquíssimos com explicitada filiação profissional/partidária, mas tão benevolentes para com medidas governamentais quanto implacáveis contra seus diletos inimigos, dos quais Joaquim Barbosa e a mídia ora se destacam.



Esse cerrado partidarismo que marca as ações de tais atores, os ataques desqualificadores a dissidentes ou críticos nas redes sociais e a recusa dos blogs "progressistas" de grande audiência em, malgrado a alegação de pluralistas, publicarem textos que critiquem frontalmente o petismo (ainda que à esquerda) sugerem que hoje repetem amiúde, em sentido inverso, o tendenciosismo, as distorções e omissões que sempre atribuíram exclusivamente a mídia. Tais vicissitudes fizeram com que lhes fosse atribuído o duplamente mordaz apelido de "PIG do B", numa indicação de que não apenas emulam procedimentos e lassidez ética da mídia, mas o fazem a favor de uma determinada força política, muitas vezes sem admiti-lo de forma explícita, repetido um procedimento que sempre criticaram nos meios de comunicação corporativos.



Piora ainda mais esse quadro a indistinção entre a participação espontânea e voluntária de indivíduos nas redes sociais e a ação de agentes de mídia remunerados pelos partidos, indistinção diretamente relacionada à recusa antidemocrática destes em admitir e tornar pública a própria condição profissional, numa conduta que, paradoxalmente, aposta no obscurantismo e no falseamento como estratégia de ganhar respeitabilidade e conquistar apoio político e votos. Para complementar a farsa, tornaram o tema um tabu e reagem agressivamente contra quem quer que ouse questionar tal omissão e questionar seu caráter farisaico, que fere a ética pública e acrescenta mais um elemento de falseamento ao jogo político.









Dilemas éticos

A combinação, por um tempo considerável, de falta de critérios objetivos, paixões partidárias exacerbadas e baixa porcentagem de produção de material original não analítico (lacuna esta que tende a levar à repetição e ao agravamento tanto do efeito de manada açulado pelas redes sociais quanto da dependência em relação ao jornalismo corporativo enquanto fonte primária) tem feito com que a blogosfera – notadamente a mal chamada "blogosfera progressista", cujo comprometimento com o projeto de poder petista é atávico - se defronte atualmente com sérios dilemas de validação da veracidade de suas publicações e de capacidade de comunicar-se e interagir com audiências que não comunguem de suas paixões político-partidárias.



Mais grave: episódios recentes, como a delação de manifestantes à PMERJ via redes sociais ou a difusão, por um dos principais "blogueiros progressistas", de uma foto digitalmente alterada de um protesto popular, em que, por artes do Photoshop, uma suástica nazista substituiu o que era na verdade o símbolo do anarquismo, agravam ainda mais a situação e demonstram que, além de nem sempre a blogosfera aplicar a si mesma o rigor ético que cobra da mídia corporativa, eventualmente incorre ela própria em graves deslizes deontológicos – e sem reconhecê-los publicamente ou por eles se desculpar.







Mudanças à vista

A questão da mídia no Brasil, desnecessário dizer, continua sendo um assunto de máxima urgência. Oligopolizada, classista, concentrada na mão de poucas famílias com interesses políticos em comum, usada como moeda política. Nesse ambiente, a relação da blogosfera e de muitos dos atores políticos virtuais com a mídia, eivada das contradições e do maniqueísmo acima apontados, se deu, até agora, sob a égide de uma contradição essencial: quem, em larga medida, vem sustentando financeiramente as corporações midiáticas – muitas em situação pré-falimentar - é o próprio governo Dilma, através da insistência de Helena Chagas em seguir à risca o tal "critério técnico" na divisão de verbas oficiais.



A possibilidade de que o novo ministro da Secom diversifique as verbas publicitárias governamentais para além das corporações midiáticas até agora beneficiadas é, como já dito, alvissareira e tem potencial de colaborar para o avanço do debate democrático no país. É natural que a blogosfera política receba parte desses insumos, mas isso deve ser feito com critérios claros, transparência e pluralidade e em troca da obediência a pressupostos éticos republicanos. Do contrário, corre-se o risco de que o dinheiro público venha a servir tão somente para alimentar a correia de transmissão do partido governista de turno – o que, à revelia de quem estiver no poder, seria um desserviço à democracia.


(Imagem retirada daqui)

Segunda versão de artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Violência nas manifestações e o show de oportunismo


Há de se lamentar a morte de um ser humano, ainda mais se pacificamente exercendo o seu ofício, e em condições perigosas. Manifestar solidariedade com a interrupção abrupta de uma vida aos 49 anos, e com a dor dos familiares e amigos de Santiago Andrade, é, portanto, prioritário neste momento. Mas a solidariedade e o respeito ao luto são uma coisa; o sensacionalismo e a exploração da dor alheia para fins políticos, outra.

Talvez a maior parte das pessoas que leem este texto nunca tenha ido a uma manifestação pública do tipo das que vêm acontecendo no Brasil desde junho do ano passado. São eventos tensos, perpassados pela possibilidade iminente de violência, onde o risco à integridade física é real e imprevisível. Por isso mesmo, os profissionais de imprensa que os cobrem fazem uso de um equipamento de segurança que inclui capacete e colete à prova de balas. Infelizmente – e por mais desagradável, neste momento, que seja apontar essa lacuna –, Santiago não gozava de tais proteções, alegadamente porque a emissora não as forneceu. Porém, com uma ou outra exceção, na cobertura midiática e nos tantos artigos plenos de corporativismo que os analistas têm produzido após a morte do cinegrafista, tal omissão criminosa tem recebido pouquíssima atenção, talvez por esta estar quase exclusivamente direcionada ao revanchismo contra os manifestantes apontados como responsáveis pela tragédia.



Violência disseminada
O caráter violento das manifestações, derivado em grande parte do despreparo e abuso das forças policiais e de estas serem instruídas por seus superiores a reprimir - e não meramente a acompanhar - tal exercício constitucional do direito ao protesto, não se evidenciou a partir da morte de Santiago Andrade. Muito pelo contrário: há dezenas de jovens feridos com gravidade – inclusive casos de cegueira por bala de borracha - e flagrantes filmados de violência policial que incluem espancamentos diversos, uso abusivo de bombas, spray e gases, além do atropelamento intencional de uma jovem recém-torturada. Mais revelador: no mesmo dia em que o cinegrafista da Band foi atingido, outra morte ocorreu em decorrência dos protestos, mas como não se tratava de um profissional de uma grande corporação midiática - e sim de um velho jornaleiro, de nome Tasman Amaral Accioly -, a mídia não se ocupou em lastimá-la.

Essa indignação seletiva eivada de corporativismo acabou por reunir um arco inusitado de vozes do espectro politico-midiático, de Mário Magalhães a Reinaldo Azevedo, passando pelos mais fanáticos blogueiros governistas e pelos mais famosos apresentadores de telejornais, numa catarse que mais evidencia do que disfarça o intuito de criminalizar as manifestações populares, cuja independência e imprevisibilidade incomoda tanto setores da velha esquerda – desde órfãos do "partidão" a renitentes petistas - quanto o conservadorismo, além de atentar contra o "complexo de Tirébias" e o cerrado corporativismo dos jornalistas, cuja reação histérica ante a morte de "um dos seus" contrasta com a passividade resignada com que aceitam as milhares de mortes de jovens negros e pobres que a repressão periférica institucionalizada - esta sim, autenticamente fascista – promove com regularidade diária.



Pesos e medidas
A comparação com o pouco caso para com tanta violência pregressa - e até para com outra morte em contexto de manifestações populares - evidencia que a reação midiática, inflamada a partir do anúncio do óbito do cinegrafista, jamais foi a expressão de uma genuína indignação, cívica ou moral, mas o aproveitamento oportunista de uma tragédia que, ao contrário das várias anteriores, reúne quatro características únicas: permite culpabilizar os manifestantes (e não as forças policiais); está documentada, em registros videográficos diversos, do início ao fim (não possibilitando justificar-se como emprego necessário da força, como de ordinário as forças policiais o fazem); devido ao fato de registrar um profissional de mídia no exercício de suas atividades, facilita tanto a mobilização corporativista – de ordinário enorme entre jornalistas - quanto, de modo geral, a identificação do homem comum com o falecido (não por acaso, editoriais e colunas deram repetida ênfase à descrição "trabalhador morto no cumprimento do dever").

Deflagrado o show midiático, o que seria uma justificada comoção pela morte de um valoroso ser humano começou a dar lugar a um show de oportunismo e manipulação da boa fé da audiência. A aparente comoção dos apresentadores de telejornal foi tão somente a face mais visível de uma batalha pela opinião pública, com os atores políticos disputando um pedaço do cadáver para fazer avançar a própria agenda política, pois logo ficou claro que aquela era a oportunidade esperada tanto pelo governismo quanto pela mídia para criminalizar os protestos, simular a urgência da instauração de uma legislação antiterrorismo e impor o vigilantismo na internet via aprovação do projeto do Marco Civil. Já no dia seguinte, o governo Dilma comandava, a toque de caixa, tais votações. [Graças aos partidos de esquerda e a um rasgo de sensatez de parte da bancada petista, a votação do projeto foi adiada em duas semanas, mas continua na pauta de votações do Senado.]



O mundo ao avesso
Referindo-se a esse atual conluio fúnebre entre mídia e "blogueiros e comentadores de 'esquerda'", Bruno Cava vai ao ponto nodal da operação discursiva posta em prática:

"Invertendo a relação de causa e efeito, atribuem a responsabilidade sobre a violência para o lado dos manifestantes (é exceção e raridade machucarem alguém), e não na polícia (é regra e modus operandi machucarem muitos, sob ordens superiores). Nesse raciocínio invertido, os não-violentos deveriam cessar a violência para que os violentos de sempre não possam ter mais um pretexto para ser violentos."
Corroborando a descrição de Cava, a violência aparece nos relatos indignados que hoje infestam páginas e bites como uma tática voluntariosa e gratuita dos manifestantes, e não como o que de fato tem sido: uma medida reativa à violência desproporcionalmente maior, institucional e ilegal - pois violadora do direito constitucional à manifestação pública – sofrida.



Fatos negligenciados
Além disso, a atmosfera de turba, em que à justificada revolta por uma morte em tais circunstâncias somam-se sentimentos corporativos, interesses políticos inconfessos e o desejo de maior liberdade de repressão por parte do Poder, parece ter impedido que se atentasse para dois fatos de suma importância:

O primeiro é que não se tratou, a rigor, de uma tentativa intencional de assassinato, mas de uma fatalidade. Certamente foi uma imprudência deixar o rojão aceso no chão – e quem o fez deve arcar com as consequências legais – mas daí a se falar em homicídio doloso ou a comparar a irresponsabilidade do ato com o sadismo dos que deliberadamente prenderam um rapaz nu a um poste - como fez uma comentadora a quem muito respeito mas de quem neste caso discordo frontalmente - vai uma distância considerável, que passa pelo contexto violento inerente ao protesto em questão, pela imprevisibilidade da trajetória do rojão, pelo caráter aleatório da ação e, sobretudo, pela ausência de intencionalidade assassina.

O segundo fato que tem sido negligenciado é que se tratou, alegadamente, da ação isolada de dois indivíduos – cujo direito à presunção de inocência tem sido amplamente negligenciado, como observa o professor Pablo Ortellado. Portanto, sua tipificação como uma ação criminosa dos Black Blocs não passa de uma generalização, uma projeção injustificada que, num misto de wishful thinking e oportunismo, se quer impor aos fatos, à revelia destes. Achar que os manifestantes vão deixar de reagir violentamente à violência que sofrem tão somente por exercerem seu direito ao protesto é ingenuidade, assim como atribuir toda e qualquer reação a Black Blocs é generalização improcedente.



Bode expiatório
Mesmo assim, como seria despropositado culpar, de forma genérica, os manifestantes pela morte do cinegrafista, a mídia e o governismo na internet aproveitam a oportunidade para atribuí-la, embora sem prova alguma, aos Black Blocs, aos quais devotam um ódio figadal tanto por terem infundido coragem e determinação a muitos manifestantes quanto pelo caráter errático e agressivamente anticapitalista de sua ação. Muito se tem escrito sobre esse fenômeno, infelizmente por gente que não os conhece, não os entende, nunca os estudou e sequer sabe que denominam tanto um coletivo eventual de manifestantes quanto uma tática urbana.

Essa ignorância pode vir a provocar mais violência futura, pois os Black Blocs são o sintoma e não a doença, a reação do organismo a uma violência periférica cotidiana, a um brutalismo que transcende o âmbito da fisicalidade e impregna o inconsciente coletivo. Daí a identificação que desfrutam em amplos setores da juventude e o ódio que despertam em quem tem banzo por protestos bem comportados, como o Poder determina. Não é com a desqualificação a priori , com o incremento da já inaceitável violência policial ou com a eventual adoção de eventuais leis de exceção que se vai detê-los. Afinal, presume-se que estamos numa democracia.


Mudanças essenciais
A não ser que se aposte em um banho de sangue, a diminuição da violência nos protestos populares não virá nem através de leis draconianas nem com a criminalização dos manifestantes, sejam os dois bodes expiatórios da vez, um punhado de Black Blocs ou milhares de protestantes. Pois ela passa, em primeiro lugar, pelo diálogo aberto entre população e governos, item básico das democracias contemporâneas, mas que tem sido amplamente negligenciado no Brasil. Demanda, obrigatoriamente, a extinção da polícia militar e sua substituição por uma força policial profissional treinada, bem remunerada e orientada a respeitar a Constituição, inclusive no que tange ao direito à manifestação pública. Por fim, passa pela equação dos pornográficos índices de violência brasileiros, cuja reverberação nas passeatas é um pálido reflexo, mas cuja presença cotidiana na vida da juventude tende a ser introjetada e reproduzida. Paz sem voz é medo.