quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Aos 50 anos, sonho de Martin Luther King permanece


No dia de hoje o mais famoso discurso do movimento negro mundial completa 50 anos. Ponto culminante da Marcha sobre Washington, que reuniu ao menos 250 mil pessoas vindas dos mais diversos cantos dos Estados Unidos, incertas quanto ao grau de violência racial ou mesmo oficial que poderiam enfrentar, para protestar contra a segregação racial e demandar liberdade e justiça social.

"I have a dream" ("Eu tenho um sonho"), o mote repetido diversas vezes ao longo dos pouco mais de seis minutos de pungente discurso, mais que um emblema da luta pelos direitos civis em uma sociedade em que o racismo era institucionalizado, tornou-se um mantra pop político, à maneira do "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás" de Che Guevara. Alguns anos depois, John Lennon nele se inspiraria para compor o clássico "Imagine".


Discurso de mestre
Ao proferir o discurso, Martin Luther King, que já era o mais respeitado líder do movimento pelas liberdades civis – o Dr. King, como o reverenciavam seus seguidores - soube aproveitar-se de um momento de alta exposição midiática para lançar uma mensagem que, enfatizando o pacifismo e projetando para as tensas relações raciais os princípios cristãos da comunhão e do perdão, foi capaz de, no clima favorável do nascedouro da contracultura, angariar apoio entre setores hesitantes da juventude e da classe média brancas, convencendo-as a fiar-se à possibilidade de "transformar as estridentes discórdias de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade".

Como se pode ver no vídeo legendado em português ao final do post, King, com raro senso de estratégia, substitui as costumeiras mensagens dirigidas aos próprios afro-americanos no sentido de instigá-los a se orgulharem de suas origens (na linha "say I'm black and I'm proud" ["diga: sou negro e me orgulho disso"]) por uma fala para todos, que não distingue público. E profere o discurso com um profundo domínio da técnica, em um crescendo contínuo feito de exaltações eventuais, culminando com o grand finale, e com um misto de confissão e exortação que, se não disfarçam sua formação como pastor e advogado, vêm imbuídos de um tal grau de verdade e comprometimento que acabam por se impor afetivamente.


Persistência e vitória
Nutro desde sempre uma profunda admiração pela figura de Martin Luther King e pela luta pelas liberdades civis, deflagrada em um país que, ao contrário de hoje em dia, ainda não havia se conspurcado com o sangue de tantas guerras injustas sob motivos vis. Assim, a luta contra o racismo afigurou-se uma luta épica e necessária, em oposição a um passado cruel – do qual Strange Fruit, com a interpretação sublime de Billie Holiday descrevendo as "frutas estranhas que pendem das árvores do Sul, sangue nas folhas e sangue nas raízes" é o retrato torturado - e ante um sem-número de batalhas, muitas das quais fragorosamente perdidas para o racismo institucional, antes que a tenacidade e a resilência dos afro-americanos vencesse.

Décadas depois desse período heroico, tive oportunidade de vivenciar in loco a persistência e a força remanescente dos símbolos da luta pelos direitos civis. Eu estava nos EUA, cursando pós-graduação, quando Rosa Parks (foto) morreu, e para mim foi uma experiência muito emocionante acompanhar de perto o respeito – ou mesmo devoção - que pessoas de todas as idades e "raças" demonstravam ter por essa ex-costureira do Alabama que, em 1955, ao se recusar a se levantar do assento de um ônibus para que um branco se sentasse lançou, a partir do boicote aos ônibus de Montgomery, Alabama, a fagulha que acendeu a chama de um movimento que mudaria a história do país, com repercussões em boa parte do mundo (em última análise, não teríamos política de cotas no Brasil hoje não fossem os processos decorridos desses gestos iniciais).


Exemplo atual
A luta pelo direitos civis nos EUA, para além de seus méritos (e, problemas e contradições) intrínsecos, constitui, ainda hoje, um exemplo a ser estudado pelas esquerdas, sobretudo por tratar-se, na maior parte do tempo, de uma luta essencialmente reformista, vencida após sucessivas batalhas no interior dos sistemas políticos e jurídicos de uma democracia liberal. Num mundo como o atual, em que a perspectiva revolucionária strictu sensu, rarefeita, encontra-se em profunda crise, afigura-se essencial a compreensão de como lutar e vencer batalhas nos interstícios do próprio sistema democrático. Que tal sucesso tenha se dado sob forte oposição, sob uma ordenação jurídica e institucional desfavorável e eivada de vícios, e através de alianças táticas que efetivamente resultaram em ganhos para ambas as partes é uma constatação das mais relevantes para as atuais batalhas por hegemonia particularmente no que concerne a temas ligados à biopolítica – tais como aborto, direitos matrimoniais dos gays, legalização da maconha -, que têm sido negociado com o conservadorismo na bacia das almas pelo ultrapragmatismo de nossa autointitulada centro-esquerda.

Neste momento de acirramento dos ódios classistas e de reavaliação compulsória do mito segundo o qual o Brasil não seria um país racista, a luta pelos direitos civis comandada por King deveria, ainda, servir de exemplo e de inspiração tanto para os ativistas do movimento negro em particular como, de forma geral, para aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e sem discriminação racial. 


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vergonhosa agressão aos médicos cubanos


O colunista Janio de Freitas fez mais uma vez jus ao papel de decano e foi premonitório. Em coluna escrita ontem (26/08), prognosticou:

Dos argumentos polêmicos contra a vinda de médicos do exterior, dirigentes corporativos da classe médica brasileira passaram a um histerismo gaiato e primário e já estão em atitudes fronteiriças de crimes, com a incitação aos médicos a "não socorrerem erros" que, imaginam, os estrangeiros cometerão.

As reações corporativas dos médicos, se a princípio compreensíveis ou mesmo eventualmente justificadas, logo adotaram uma agressividade acima do tom, aproximaram-se da insensibilidade social, e agora, com o ódio de classe à flor da pele e o racismo indisfarçado, situam-se perigosamente para algo entre o grotesco e o ilegal.

Pois o que se viu nas últimas 24 horas, no aeroporto de Fortaleza e nas redes sociais, foi uma escalada de falta de bom senso e de civilidade, com a insanidade e o descontrole dando vazão a ódios de classe e de raça, dirigidos de forma equivocada a alvos inocentes, em um episódio constrangedor para a imagem do país e que certamente envergonharia a maioria dos brasileiros.

Quem acompanha este blog sabe das críticas que faço ao modo como o governo Dilma implementou o programa Mais Médicos, não só valendo-se da costumeira ausência de diálogo, mas de despistes, recuos e desmentidos de última hora – enfim, com procedimentos pouco transparentes que estão longe de ser o que se espera de uma coalizão de centro-esquerda em uma democracia que se quer consolidada. Portanto – e na contramão da maior parte dos blogueiros e colunistas - tenho claro que parte do ônus pelo clima bélico que se seguiu à chegada dos médicos cubanos deve ser atribuída ao governo federal. Isso posto, nada justifica a agressão direta e preconceituosa contra profissionais estrangeiros que vêm ao nosso país exercer seu nobre métier. Os médicos brasileiros justa ou injustamente indignados têm todo o direito de protestar, mas na Justiça, nas mobilizações pacíficas e nas urnas, jamais com um violento ataque à honra pessoal e coletiva de seus pares cubanos, como visto no lamentável episódio cearense [foto] e na página pessoal no Facebook de uma jornalista preconceituosa, que não acredita que gente, segundo ela, "com cara de empregada" possa exercer a medicina.

Com os protestantes tachando os cubanos de "escravos" e declarando não acreditar que eles, "com cara de empregada doméstica", sejam capaz de exercer a medicina, cai por terra, uma vez mais, o mito do pais cordial e sem racismo – e antes que venham falar que isso se deve a uma manifestação restrita a uma elite, lamento informar que as elites também são parte do país.

Para Renato Rovai, colunista e editor da Fórum, o episódio do ataque aos médicos cubanos em Fortaleza transcende o seu sentido imediato e insere no âmbito de uma discussão maior. Referind0-se à mesma foto que encima este post e lembando que os médicos que protestam e suas associações não são apenas contra a vinda dos médicos cubanos, mas contra a criação de novos cursos superiores de medicina, ele observa:

Ou seja, a foto que está ilustrando este post é significativa para pensar o país que queremos. Se queremos um Brasil da inclusão, onde seja algo normal ser atendido por médicos negros que não sejam cubanos. Se queremos um Brasil onde estrangeiros sejam recebidos com respeito. Se queremos um Brasil onde saúde seja um direito de todos. Ou se preferimos viver num país de brancos de jalecos brancos que exigem ser chamado de doutores exatamente porque se acham acima daqueles que deveriam tratar com respeito e dignidade.

Seja como for, após esses lamentáveis episódios com tonalidades racistas e classistas, a razão que eventualmente a categoria dos médicos poderia ter vai para segundo plano, ante os danos irremediáveis que tais episódios causam para sua imagem pública. No xadrez do marketing público, o jogo mudou: ou os médicos e suas associações vêm a público condenar tais agressões e desautorizá-las, desvencilhando-as de suas táticas e lutas e atribuindo a uma iniciativa isolada, ou será praticamente impossível livrarem-se da pecha de classistas e racistas que já lhes vinha sido atribuída e que os ataques aos médicos cubanos corroboram.

Se, ao contrário, o clima mantiver a fervura e as agressões persistirem, é quase certo que o caso exacerbará os limites dos embates públicos e adentrará na seara policial, o que seria um preocupante indício da falta de preparo para o exercício da democracia, mesmo no seio de uma classe profissional supostamente bem educada.


(Foto retirada daqui e editada)

domingo, 25 de agosto de 2013

A chegada dos médicos cubanos

As primeiras levas de médicos cubanos desembarcam no Brasil e o ritual de sua chegada, saudada com bandeiras dos dois países, pequeno mas entusiasmado comitê de recepção e discurso em portunhol não deixa de resultar emocionante. Em primeiro lugar, por deixar claro que, meio século depois, a mística revolucionária cubana ainda toca os corações esquerdistas, não obstante patrocinada por um investimento milionário e em condições trabalhistas no mínimo questionáveis.

Em segundo lugar, a recepção comove por demonstrar que, a despeito da guerra fratricida que precedeu a vinda dos médicos, prevaleceu o bom senso e nenhum deles foi pessoalmente destratado: podemos continuar alimentando nossa orgulhosa autoimagem de povo que a todos bem recebe.

Um terceiro motivo para a emoção – neste caso, negativa – deriva da constatação (óbvia para quem ouviu às declarações dos médicos, em que uma das doutoras, muito simpática, prometeu atender bem ao "puoblo brasileño") de que, ao contrário do que divulgou o Ministério da Saúde, os médicos cubanos que aqui aportarão não têm domínio do idioma português. Não que isso vá ser um impeditivo: certamente a comunicação se estabelecerá. Mas o que interessa reter aqui é o fato de que, ao menos nesse quesito, o governo mentiu.



Insegurança jurídica
A despeito dessa constatação tão rotineira em se tratando de políticos (e de Brasil), resta-nos desejar que a missão "humanitário-comercial" cubana obtenha sucesso e melhore a saúde de uma parte da população há séculos desassistida. Porém, como sabemos, esse sucesso depende, em primeiro lugar, de um encaminhamento satisfatório das intrincadas questões jurídicas que envolvem o caso, as quais derivam do afobamento e improvisação que são características distintivas da administração Dilma Rousseff, onde as decisões invariavelmente saem "prontas" do gabinete presidencial, sem terem sido previamente debatidas com a sociedade ou amadurecidas em seus aspectos técnicos, operacionais, logísticos e legais.

No presente momento, o imbroglio é o seguinte: a Medida Provisória que instituiu o Programa Mais Médicos prevê que, como os profissionais cubanos não revalidarão o diploma, caberá ao Conselho Regional de Medicina conceder-lhes uma permissão temporária para trabalhar. Essa entidade, porém, se recusa a fazê-lo sem avaliá-los previamente (no que está correta, pois é esta a sua função institucional). O Procurador-Geral do Trabalho insiste que o CRM terá de emitir tal documento, mas disputa-se se ele tem autoridade para exigir que este seja autorizativo ou se tal exigência feriria a autonomia do CRM, que poderia se valer de uma justificativa oficial para não conceder autorização ao exercício da medicina.



Estratégias de desqualificação
Tal confusão jurídica poderia perfeitamente ter sido evitada, bem como o clima de batalha campal que se instalou na arena pública, se o governo Dilma obedecesse aos ritos democráticos, fosse mais transparente e se dispusesse a debater com a sociedade as medidas que pretende tomar, ao invés de lançá-las direto dos gabinetes para as manchetes, como um fato consumado e uma panaceia incontestável. Poucos casos comprovam de forma mais clara tais defeitos do governo Dilma do que tudo o que até agora envolveu o Programa Mais Médicos.

Após um desastroso lançamento nos moldes acima descritos vieram reações corporativas até certo ponto compreensíveis, mas que logo degringolaram para manifestações de um elitismo atroz, além de contrárias à própria deontologia da profissão. O governo, ao invés de efetivamente negociar, passou então a praticar o mesmo jogo duplo que armara por ocasião da greve dos professores federais, em 2012, jogando para a plateia em público e atiçando fogo contra as corporações médicas nos bastidores. O resultado é um clima de agressão mútua que, açulado pela natureza belicosa das redes sociais, permanece até hoje, virtualmente impede o debate e onde as duas partes se digladiam com acusações preconceituosas ou desinformadas, que não levam a nada.

Assim, fica difícil decidir o que é mais patético: se os direitosos mais delirantes ressuscitando o perigo de uma revolução comunista na qual os médicos plantariam a semente ideológica para a revolta, ou o governismo, desta feita com forte adesão de partes da esquerda, que generaliza chamando os médicos de "coxinha de jaleco" e, como uma torcida organizada, agride em turbas quem quer que ouse criticar o que ingenuamente veem como a panaceia para a Saúde no país.



Direitos trabalhistas
Essa Fla-Flu histérico, maniqueísta e eivado de preconceitos, impede que se debata com clareza algumas questões graves associadas à importação dos médicos cubanos. A mais grave delas, a meu ver, diz respeito ao absoluto desprezo pelas leis trabalhistas do país e pela perigosa prerrogativa que isso abre para o futuro. Pois, em um momento de extrema flexibilização e desregulamentação das relações trabalhistas e de agravamento da questão do emprego como um problema global, esperava-se da esquerda que se unisse em oposição a medidas que claramente se caracterizam como terceirizantes, fora do âmbito da CLT e do sindicalismo – para não citar sua leniência com um heterodoxo sistema de exploração de mão-de-obra de um país socialista há décadas oprimido por um criminoso boicote econômico.

É preciso muita cegueira ideológica para não se aperceber, neste momento, da grave ameaça ao mercado trabalhista brasileiro inerente à brecha aberta pelo petismo, através da implementação do Mais Médicos. Com que argumentos essa dita "esquerda" reagirá na eventualidade de importação maciça de operários sul-americanos por um governo conservador futuro como forma de desmobilizar uma greve ou impedir movimentos de reivindicação salarial?

Imagine a reação dessa mesma pseudoesquerda se um ministro de um governo conservador justificasse juridicamente os termos da importação de operários dos EUA alegando que eles obedecem à legislação norte-americana, como respondeu o ministro Alexandre Padilha ao afirmar que a contratação dos médicos cubanos segue a legislação de Cuba. Seria linchado.



O fator eleitoral
Aliás, o desempenho de Padilha neste episódio, se talvez venha a lhe render mais exposição e introduza a novos eleitores sua figura articulada e inteligente, por diversas vezes resvalou num populismo raso, na aposta na ignorância jurídica da população (da qual fingir presumir que basta o contrato atender à legislação cubana é o exemplo cabal) e num antagonismo aberto contra os que se opõem ao programa que se assimilou, em forma e conteúdo, ao passado ditatorial do país. Sua declaração assegurando ter "segurança jurídica" sobre o programa e "autorizando" a crítica desde que "não venham ameaçar a saúde da população que não tem médico" é exemplar de tudo isso.

Trata-se de uma meia verdade, ou melhor, de algo que ora se transformou em verdade factual, mas só graças à inação que a precedeu. Pois essa população a qual o ministro Padilha se refere já não tinha médico quando o PT assumiu o governo, há longínquos 10 anos e oito meses - tempo mais do que suficiente para estudar o problema, debatê-lo e, na forma acordada e civilizada que caracteriza as sociedades democráticas, implementá-lo. Mas não: o governo passou mais de uma década tratando a Saúde como questão secundária, com paliativos, ora ensaiando ampliar o SUS, ora flertando com a privatização generalizada, além de sempre tratando os planos de saúde privados com extrema leniência.

Foi o choque trazido pela queda de popularidade que derivou das manifestações de junho, somada à proximidade das eleições, que fez com que a administração petista subitamente "descobrisse" que a Saúde é uma questão prioritária e que há milhões de brasileiros sem acesso a assistência alguma. E que priorizá-la permitiria ainda aumentar o cacife de um de seus ministros mais bem avaliados, "grande esperança branca" petista das próximas eleições. É este o contexto da declaração no espírito "Ame-o ou deixe-o" do ministro da Saúde, não por acaso o mais provável candidato a governador de São Paulo pelo PT.



Paliativo
Porém, em meio aos debates políticos do momento, não se deve perder de vista que se o governo tivesse priorizado a Saúde, como seus candidatos presidenciais haviam prometido nas campanhas eleitorais, e cumprisse, ano a ano, ao longo da última década, metas preestabelecidas para a área, outra seria sua situação, e não só em relação à alegada carência de médicos, mas em medidas imprescindíveis à saúde pública (embora não rendam muitos votos), como saneamento básico, atendimento ambulatorial, medicina familiar/itinerante, entre outras. (A propósito, se o governo quer tanto levar médicos às áreas carentes, porque pouquíssimas das novas universidades federais oferecem cursos de Medicina?)

Seja como for, a opção pelos médicos cubanos é um paliativo, que não resolve estruturalmente a questão ou sequer a encaminha. A solidariedade humana pede que torcemos para que resulte efetiva e melhore a saúde da população sob seus cuidados. Mas isso não significa, de forma alguma, que tenhamos de fechar os olhos ou ser leniente para com seu caráter transitório e precário, as ameaças potenciais que traz em relação aos direitos trabalhistas e sindicais e o oportunismo político-eleitoral que embute.


(Foto de Luna Larkman/G1 flagrando recepção aos médicos cubanos em Recife retirada daqui)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mídia Ninja e o jornalismo anacrônico

O Roda Viva que entrevistou Pablo Capilé e Bruno Torturra, do Mídia Ninja, pode ser visto como uma espécie de documentário sobre o grau de anacronismo e de elitismo do jornalismo corporativo brasileiro em sua versão corrente.

Nele, uma bancada de experimentados jornalistas, cujos problemas de autoimagem se evidenciam ao longo do programa, demonstra incapacidade não apenas de compreender, mas de dialogar e reconhecer como válido um modo de fazer jornalismo que difere sobremaneira das práticas instituídas nas corporações midiáticas.


Medo do novo
Acostumados a reportagens televisivas editadas a posteriori e que obedecem a lógicas narrativas maniqueístas pré-moldadas, os entrevistadores demonstraram incapacidade de assimilar e aceitar a dinâmica fragmentária e instantânea, sem edição ex machina, instaurada pelo jornalismo ninja, embedded, com seus celulares intermitentes e o eventual contraponto feito in loco, em perguntas diretas ao interlocutor (no caso dos protestos, frequentemente o policial em atitude de agressão).

Por não reconhecerem nessa dinâmica o respeito ao preceito sagrado de sempre ouvir o outro lado – preceito este que parecem acreditar ser fielmente cumprido pelo jornalismo convencional tal como feito no Brasil -, colocam-se numa posição de superioridade ética, num processo que, além de contrariar a visão que o jornalismo hoje usufrui junto ao público, mostra-se pouco atento não só à obediência efetiva ao "ouvir o outro lado" na corporações, mas, na eventualidade de isto ocorrer, ao modo como a edição e os elementos estruturantes da notícia manipulam - e mesmo revertem - o sentido de tal contraponto.


O mito da isenção
Levando em conta tais fatores, e no contexto das relações entre mídia e politica na última década, soou no mínimo pueril a cobrança por posicionamento político-partidário que parte da bancada fez aos entrevistados, e cínica a contraposição entre o que descreveram como o ativismo engajado destes e a postura apartidária dos jornalistas-entrevistadores em seus veículos de atuação profissional.

Assim, assumindo uma injustificada postura de superioridade ética, a bancada, com a única exceção de Alberto Dines - uma alma jovem aos 81 anos de idade -, acabou por revelar-se a um tempo agressiva e temerosa. Pois, por um lado, evidenciou que tais profissionais corroboram a crença nos ditames iluministas que o jornalismo historicamente clama para si como evidência do caráter redentor de sua missão – e que as práticas, em sua maioria de origem norte-americana, ora instituídas nas corporações efetivamente constituem a forma correta de como tal efetivá-la.


Má vontade e empáfia
Porém, por outro lado, a virulência algo gratuita, o descaso ostensivo para com o novo, somado à crença risível de superioridade ética de quando em quando ostentada, mal disfarçou o despeito, a insegurança e o medo de perder o lugar no Olimpo ao qual tais jornalistas "consagrados" creem – ou fingem crer – pertencer, sabe-se lá porquê. Mesmo porque, como testemunhas e protagonistas da maior crise da história da imprensa corporativa, seja no âmbito econômico ou de credibilidade, não têm razões para justificar tanta empáfia. Ao final, soaram anacrônicos.

Há de se lamentar, pois muito haveria a ser debatido com Capilé e Torturra, particularmente no que concerne a formas e formatos do fazer jornalístico (em detrimento das intermináveis querelas sobre conteúdo) e à relação entre jornalismo, política e as movimentações populares que fizeram a fama da Mídia Ninja. 

Afinal, se o Movimento Passe Livre merece ser reconhecido como o grande deflagrador das manifestações populares, à Mídia Ninja a cidadania e os Direitos Humanos devem o registro do abuso de poder e da violência desmedida empregada pela PM carioca - a qual, não fosse a corajosa ação, in loco, desses repórteres munidos tão-somente de seus celulares, certamente teria imposto à opinião pública uma versão fabricada dos acontecimentos.


Passado e futuro
Em relação ao desempenho da dupla de entrevistados, não obstante prejudicado pelos preconceitos e anacronismos da bancada, Capilé conseguiu fazer uma crítica contundente à hipocrisia reinante na Folha de S. Paulo e ambos morderam o calcanhar do Roda Viva ao comentar a demissão do ex-âncora Herótodo Barbeiro por motivos puramente políticos.

O futuro do programa, aliás, está sob risco, já que Augusto Nunes, que passou os últimos anos brincando de blogueiro pitbull da Veja, deve ser o novo apresentador do programa, numa clara operação de aparelhamento da estatal pelo PSDB, a 14 meses das eleições.


(Foto retirada daqui)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Mais Médicos: o governo recua

O governo Dilma anuncia, enfim, que recuou da decisão de obrigar os futuros alunos de medicina a dois anos a mais de curso, servidos no sistema público de saúde – o que, a despeito das negativas oficiais, configuraria serviço civil obrigatório. Ao invés disso, a residência hospitalar, de igual duração, passará a ser obrigatória, com o governo se comprometendo a assegurar condições para que ela seja cumprida no SUS.

Trata-se de um lapso de sensatez em uma questão marcada, por um lado, pelo autoritarismo e falta de diálogo; e, por outro, por um corporativismo caricato com tinturas de elitismo. No anúncio do Programa Mais Médicos, o governo Dilma Rousseff, ante o impacto das manifestações que tomavam as ruas do país, agiu de uma forma que vem se tornando usual: afoita, recendendo a improvisação, autoritária – pois sem nenhum debate prévio com a sociedade, os profissionais e setores envolvidos. No momento traumático da eclosão dos protestos nas ruas, tratava-se de criar um factoide que denotasse ação.

Os médicos, evidentemente, reagiram. Não estaríamos em uma democracia se não o fizessem, ante a truculência do anúncio e o disparate de parte do conteúdo do programa. No entanto, tal reação não se restringiu ao protesto fundamentado ou mesmo a uma reação corporativa questionável mas compreensível: incluiu ataques pessoais grosseiros contra a atual e o ex-presidente da República e gritos de guerra moralmente maniqueístas e comicamente elitistas, como "Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos".

Para completar, enquanto o país assistia a esse triste espetáculo, foram vindo à tona reportagens documentando que médicos do setor público, nos diversos níveis federativos e em várias localidades do país, assinam o ponto mas não trabalham – em um atentado contra o erário e contra a saúde da população, o qual desautoriza a empáfia corporativista dos manifestantes de jaleco que só veem a corrupção alheia.

Ante a reação dos médicos, o governo, ao invés de acalmar os ânimos e buscar uma solução negociada para o problema – como se espera em uma democracia, ainda mais se comandada por quem se autointitula de centro-esquerda -, não teve escrúpulos em incitar a população contra os médicos: a exemplo do que fizera com os professores universitários na greve de 2012, lançou uma agressiva campanha de marketing visando desqualificar os doutores, explorando a imagem pública desgastada de parte da categoria, para o que contou com a colaboração intensa da matilha de blogueiros e simpatizantes na rede, particularmente hidrófobos após o despencar da presidente nas pesquisas.



O fator eleições
Dilma preferiu, assim, com a birra costumeira, alimentar por semanas um desgaste político perfeitamente evitável, envolvendo uma área essencial para o desenvolvimento social do país e profissionais cuja formação requer muita dedicação, para um mercado profissional que está longe de ser o mar de rosas caricaturalmente descrito pela campanha desqualificadora petista. Mas, ao final, como prevíamos, veio o recuo, com sua admissão implícita de improvisação e equívoco, a suscitar a pergunta: justifica-se, uma vez mais, por parte do governo, essa falta de planejamento e esse excesso de malabarismo ?

Afinal, é forçoso observar que a aliança comandada pelo PT não é uma novata no poder federal, pelo contrário: está a cargo do país há mais de 10 anos e meio – tempo mais do que suficiente para elaborar um diagnóstico detalhado dos problemas de uma área social que, como as pesquisas mostram, a própria população considera prioritária. E para debater com os médicos, os pacientes, a universidade, os administradores públicos e privados, os especialistas e, aí sim, elaborar e instituir democraticamente um plano alicerçado para a questão da Saúde no Brasil.

Pois não é com alegadas panaceias de última hora, que mal disfarçam seu caráter eleitoreiro e, eivadas de autoritarismo, jogam a população contra os médicos e estes contra o governo, que se irá encaminhar soluções para a gravíssima questão da Saúde em nosso país.

Não se trata de ser contra ou favor do PT ou de qualquer outro partido que venha a estar no poder. O que o presente caso evidencia transcende o jogo eleitoral e as paixões partidárias: chama a atenção para a necessidade de se aprimorar os mecanismos democráticos do país para que os candidatos a cargos executivos sejam instados a apresentar um programa efetivo, detalhado em termos de objetivos, prioridades, fontes de recursos e cronograma, para áreas essenciais como Saúde e Educação – e, após a posse, assegurar que os cidadãos e a Justiça Eleitoral tenham meios de monitorar e cobrar seu cumprimento.

Do contrário, estaremos sempre sujeitados a governos que, apesar de mais de uma década no poder, só aparentam despertar para a urgência da questão da Saúde com o povo nas ruas, os índices de aprovação despencando e, com eles, a ameaça aos planos de eleger seu ministro da Saúde governador do mais rico estado do país.

A necessidade urgente de reformar a Saúde no país, para se tornar efetiva e perdurar, obrigatoriamente tem de transcender tais interesses imediatos.


(Imagem retirada daqui)