sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A capa da Forbes

A presidente Dilma Rousseff está na capa da revista Forbes, como “terceira mulher mais poderosa do mundo”.

A Forbes é uma publicação única. Mal comparando, um cruzamento de Exame com a revista Caras – mas “de primeiro mundo”, como gostam de dizer os brasileiros colonizados. Vem sendo, há décadas, uma das principais porta-vozes editoriais do neoliberalismo, sempre defendendo o mercado financeiro contra as demandas sociais.

Mas também tem seu lado silly, mundano: como Umberto Eco e os reles mortais, gosta de fazer suas listinhas: das mais ricas, dos mais milionários, das mais poderosas e por aí vai.

Dilma ocupa a capa da Forbes justamente por representar uma relativa novidade no topo do  do ranking, mas, note-se bem, ela é “só” a terceira mais poderosa do mundo. A primeirona é a chanceler alemã Angela Merkel e a vice a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Diga-me com quem anda e eu te direi quem és”, diz o ditado.

Merkel, apelidada de “a nova dama de ferro”, impõe neste momento, de forma implacável, um receituário neoliberal a países da zona do Euro em aguda crise econômica e social, deteriorando ainda mais seu quadro social ao empanturrar o doente de um remédio que está a lhe matar. O resultado é mais crise e inquietação social, com desemprego em massa em diversos países – o que tem levado, nos últimos dias, espanhóis e gregos ao desespero e ao suicídio.

Já madame Clinton conduz a política externa do país mais belicoso do mundo, que permite a tortura por afogamento como método de investigação, mantém em Guantánamo uma prisão fora dos limites da Justiça e atua atualmente em várias frentes de guerra, além de manter a Síria e o Irã no topo da agenda. Empenha-se, neste momento, em perseguir Julian Assange, por ousar divulgar fatos públicos que os meios de comunicação corporativos, sempre a soldo do poder, escondem.

Comparativamente, as realizações de Dilma, na ótica da Forbes, são bem mais modestas: permitir que os bancos que atuam no Brasil tenham os maiores lucros do mundo e que as multinacionais – inclusive as teles, que prestam um serviço de quinta - continuem a remeter bilhões de dólares ao exterior; tratar os professores e os servidores públicos na base da humilhação, da intransigência e do gás lacrimogêneo; submeter o respeito aos Direitos Humanos à pauta do desenvolvimentismo a qualquer preço - além, é claro, de promover a privatização (ops, a concessão durante décadas) de estradas, aeroportos e portos, para deleite das megacorporações "transnacionais" e dos arautos do neoliberalismo.

Muitos festejam Dilma na capa da Forbes. Inclusive aqueles que se dizem identificados com a esquerda, e que, há pouco tempo, se indignariam, com razão, se FHC (ou Sarney, ou Collor, ou Itamar ou Marina Silva) protagonizasse capas de publicações ou fosse homenageado em eventos representativos do mercado financeiro internacional – afinal, aquela seria mais uma prova de seu conservadorismo e de sua subserviência ao grande capital.

Estamos, felizmente, numa democracia, e cada um comemora o que lhe aprouver. Eu, como brasileiro e de esquerda, lamento profundamente que a presidente em quem votei perfile ao lado de tais figuras públicas, responsáveis por tanto sofrimento em diferentes partes do globo, e que ilustre uma publicação que saúda tão somente o capital e o poder – e me dou o direito de achar ridículo que pessoas que se dizem esquerdistas vibrem com uma presidente advinda de tal campo na capa da bíblia do mercado financeiro.

De minha parte, preferia uma presidente menos poderosa, mas que lutasse para fortalecer modelos alternativos ao neoliberalismo e que dispensasse a atenção prometida a Educação, Saúde, Segurança Pública e Direitos Humanos.


(Desenho de autoria de Diogo Salles copiado daqui)

domingo, 19 de agosto de 2012

Privatizações e a guinada conservadora de Dilma

A oportunidade histórica de se apresentar como uma liderança capaz de oferecer uma alternativa de centro-esquerda à hegemonia do receituário neoliberal – panaceia que ora destrói a economia europeia - foi desperdiçada por Dilma Rousseff. Seu governo acaba de acentuar ainda mais, e de forma irreversível, uma guinada conservadora.

Enquanto Lula herdara de Fernando Henrique um país aos cacos, à beira da insolvência, com índices pornográficos de desemprego e baixa atividade econômica, Dilma recebeu um Brasil renovado, recém reestruturado socioeconomicamente - através da diminuição expressiva dos índices de miséria e de pobreza e da ascensão de uma nova classe média – e com uma economia interna vibrante, marcada por inclusão e aumento no consumo e por recordes de baixo desemprego, a qual permitira que a crise mundial fosse aqui sentida (quase) como “uma marolinha”.

Eleita, em tais condições, presidenta de um grande país emergente, potência regional e um dos principais incentivadores do diálogo Sul-Sul, muitos acreditavam que a nova mandatária, livre da “herança maldita” tucana, estava fadada a aprimorar e expandir o legado de Lula, seja - como prometera no discurso de posse - priorizando o muito que se há de fazer na Saúde e na Educação, seja expurgando de vez as políticas de orientação neoliberal que, voltadas à satisfação desse ente caprichoso chamado mercado, tanto mal já causaram ao povo e à economia brasileiros. “Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luis Inácio Lula da Silva”, anunciava a candidata.


Decepção inicial
Já a partir do segundo mês de governo, com a imposição de um duríssimo choque anticíclico – que o futuro confirmaria não apenas desnecessário, mas deletério à saúde econômica do país – tais alvissareiras possibilidades foram dando lugar a um retorno à primazia, no interior da administração, do economicismo mais tacanho, de planilha. Este tem, desde então - e de forma ainda mais intensa nos últimos meses - mantido o governo permanentemente apavorado ante a iminência do agravamento da crise econômica internacional, gerando o que Paulo Kliass, em imperdível artigo na Carta Maior, chama de “síndrome da perda de popularidade”, a qual estaria levando Dilma a agir da forma apressada e improvisada que temos verificado.

Em seu texto, Kliass observa, em relação às pífias consequências advindas do aperto macroeconômico acima referido: “Quando a maioria esperava justamente uma mudança de rota a partir de tais resultados colhidos ao longo do primeiro ano de seu mandato em termos da economia, eis que Dilma inicia 2012 com a mesma lenga-lenga da ortodoxia conservadora: esforço fiscal para geração de superávit primário e contenção de despesas orçamentárias essenciais (…) Apesar de ela ter revelado uma atuação importante no sentido de provocar a reversão da taxa oficial de juros (SELIC), isso só começou a ocorrer muito tarde, a partir de 1 de setembro de 2011” (e, acrescento eu, não conseguiu até agora que tal medida significasse uma redução realmente expressiva do spread que os grandes bancos, com exceção dos estatais, cobram do cidadão comum, notadamente no que concerne a cartão de crédito e cheque especial).

Como decorrência de tal contexto, no lugar do avanço esperado, o que se observa nas áreas sociais desde o início do governo - ressalvados os programas de renda mínima -, além do agravamento das condições de alguns campi das novas federais, do sucateamento das Defensorias Públicas e da adoção de um programa de ajustes na Saúde (que, levando dezenas de médicos a pedirem demissão, prejudicou sobremaneira o funcionamento do SUS), é o absoluto desprezo pelos servidores em geral e pelos professores universitários em particular, cuja greve já supera inacreditáveis três meses, sob a intransigência irresponsável do governo.


Direita, volver!
Porém, o ponto culminante da guinada conservadora do governo Dilma, o qual enterra de vez as esperanças de que pudesse contribuir para a constituição de uma alternativa ao neoliberalismo - obstáculo principal aos avanços sociais e à efetivação de uma agenda politicamente avançada - deu-se na semana que passou, com o anúncio de um megaprograma privatista para obras de infraestrutura (rodovias, portos e aeroportos), pelo qual o governo desembolsa, só na primeira fase, referente a estradas, R$133 bilhões à iniciativa privada.

Como observa Kliass, “Se os recursos existem e estão disponíveis, não há razão para oferecê-los graciosamente ao setor privado. O Estado brasileiro teria todas as condições de iniciar os projetos necessários, bastando para isso a sinalização da vontade política por parte da Presidenta”. O governo Dilma prefere, no entanto, ignorar as graves implicações político-ideológicas de tal decisão e se coloca mais uma vez contra o Estado (e seus servidores) enquanto protagonista da economia nacional, apostando, como forma de aprimorar a infraestrutura - mas talvez ainda mais de criar empregos e fermentar a economia – numa espécie de aggiornamento neoliberal do New Deal de Roosevelt, o que é, por si, uma contradição em termos.


Diferenças mínimas
Deve-se reconhecer , para o bem do debate, que, como argumentam muitos defensores do governo, as privatizações (ao estilo FHC) e as concessões (à moda Dilma) não constituem exatamente a mesma coisa, já que as primeiras são para sempre, enquanto as últimas duram várias décadas. Mas, excetuada essa diferença de duração, não há como negar que se trata, nos dois casos, de uma operação privatizante, que segue uma lógica caracteristicamente privatista, ao transferir do Estado para a iniciativa privada a tarefa de executar grandes obras de infraestrutura – e de auferir, para sempre em um caso, durante um longuíssimo período em outro, lucros com isso.

Convém apontar, ainda, que tanto privatizações tucanas quanto “concessões” petistas têm em comum uma original contribuição ao receituário neoliberal à brasileira, na constatação de que grande parte do capital demandado por tais obras advém de dinheiro público – ou seja, o povo paga para construir e pagará para usufruir, mas o lucro ficará com a iniciativa privada. Trata-se do “governo pagar pra capitalista administrar mal, cobrar caro e lucrar sobre um bem que é do povo brasileiro”, como resume “na lata” a blogueira Maria Frô.

Tão importante quanto assinalar essas coincidências, digamos, operacionais entre privatizações tucanas e “concessões” petistas, é atentar para o fato de que a lógica política que orienta ambas é muito similar e, obediente aos preceitos do Consenso de Washington, deriva da mesma ideologia neoliberal que apregoa o protagonismo do mercado como agente econômico e que, se tanto, tolera a limitação do Estado à função reguladora. O retrocesso que um governo dito de centro-esquerda promove ao sucumbir a tal ideologia orientadora de políticas oficiais – a mesma que a oposição à direita que nas urnas derrotou cultivava – é imensurável. Mas não quero me estender neste tema. Tudo o que eu tinha a dizer sobre a agenda privatista do governo Dilma e suas diferenças – ou ausência delas – em relação às privatizações tucanas já o fiz em outro post (link).


Traição eleitoral
Dilma fez toda uma campanha eleitoral condenando as privatizações e os políticos que as promoveram, ao mesmo tempo em que reiterava o compromisso com um Estado atuante e promotor do desenvolvimento do país. Eram críticas fortes, contundentes, que não deixavam margem à dúvida: transferir ao setor privado a administração de áreas estruturais do país, e ainda por cima fazê-lo com dinheiro público, era uma prática condenável do passado, que sua administração não cometeria. Não há, nos discursos de campanha, nenhuma referência à possibilidade de que viesse a adotar um modelo temporário de privatização, que a novilíngua petista prefere chamar de concessão mas que, como já aludido acima, significa, na prática o retorno de um modelo privatista, e com duração assegurada por longas décadas.

Portanto agora, ao recorrer, com dinheiro público, a uma política privatista de longo prazo, Dilma Rousseff trai os seus compromissos de campanha e a confiança de muitos daqueles que acreditaram em sua palavra. O desprezo que demonstra pelos aspectos político-ideológicos de suas medidas, além de permitir a seus adversários tucanos se refastelarem em gozações e provocações, coloca, com sua guinada rumo ao conservadorismo, a centro-esquerda e seu programa político em uma situação extremamente desconfortável. Cría cuervos...


(Fotomontagem de Dilma copiada daqui)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Greve: governo ameaça processar reitores

O governo Dilma aprofunda seu caráter autoritário com o anúncio, pelo Advogado-Geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, de que os reitores das universidades federais que não descontarem os salários dos professores grevistas serão processados por improbidade administrativa.

Trata-se de uma truculência inédita na história da democracia brasileira, que nem o ultraliberal Fernando Henrique Cardoso, em sua cruzada para destruir a universidade pública ousou, ante situação muito semelhante a que agora enfrenta o governo federal (greve longa, sem negociações dignas do nome, com determinação do corte de ponto desobedecida pelos reitores). 

Se a oposição vem valendo-se da Justiça para manipular o jogo político, a situação associa-se à representação legal do Estado para reprimir movimentos sociais. Ambas são operações em conflito com os plenos ditames democráticos e de consequências futuras potencialmente danosas para as intituições do país.


Ataque ao direito de greve
É natural que um governo reaja a greves e use dos meios de que disponha para evitá-las ou, se deflagradas, abreviá-las. Há de se agir, no entanto, por meio de táticas dissuasórias e de negociações, mesmo se firmes. Se isso é um princípio que vale para qualquer governo democrático, com muito mais rezão deveria orientar as ações de uma administração que se elegeu com um discurso de centro-esquerda e comandada por um partido dito dos trabalhadores, o qual tem laços históricos com os servidores públicos, uma de suas principais bases eleitorais.

No entanto, a intransigência, a demora extrema em apresentar propostas, o caráter evidentemente ardiloso destas e uma sequência de medidas de cunho autoritário - que vão da determinação de corte de ponto, passam pela publicação de decreto estabelecendo que servidores estaduais e municipais substituam os grevistas e atinge o auge com a ameaça de abertura de processo contra os reitores - demonstram, de forma clara, que o governo Dilma tem pouco apreço não apenas pelos funcionários do Estado que por ora governa – e, no caso dos professores, por seus salários, que durante a campanha eleitoral reconheceu baixos e prometeu aumentar - , mas pelo instituto da greve como forma legítima e constitucional de reivindicação trabalhista.

O grevista não é um inimigo do governo, como a administração Dilma e a mídia - neste e em cada vez mais casos atuando em profunda sintonia - parecem querer fazer crer, mas, como representante da força de trabalho do Estado, um dos entes que disputam, como o fazem lobbies variados, a atenção e os benefícios do Estado. O que essencialmente o diferencia dos, digamos, ruralistas ou industriais do setor bélico, é que não luta por benesses que multipliquem ainda mais sua fortuna, mas por direitos universalmente reconhecidos, relacionados a dignas condições de trabalho e de vida, as quais acabarão por reverter, em algum grau, para a própria sociedade a qual serve.


Agenda conservadora
Mas, a despeito dos compromissos assumidos durante o período eleitoral, é outra a agenda de uma administração durante a qual os bancos batem recordes de lucro, o agronegócio dá as cartas e ignora acordos na base parlamentar e as teles prestam um serviço de quinta categoria mas seguem remetendo bilhões de dólares ao exterior.

Tais constatações, somadas à reação passivo-agressiva do governo ante a atual greve de professores universitários – que completará três meses no próximo dia 17 – e em relação à paralisação de outras 30 categorias de servidores públicos, têm evidenciado, para muitos, o profundo conservadorismo do governo Dilma Rousseff.

Sem um partido de massas a pressioná-la, como o PT fazia em relação ao governo FHC; sem ter de reagir a uma grave crise política, artificial mas efetiva, com a oposição conservadora fungando no cangote pelo impeachment, como ocorrera com Lula durante o escândalo do “mensalão”, a gestão Dilma vem, cada vez mais, negligenciando a agenda progressista e procurando agradar a mídia e o conservadorismo. Não é à toa que, como demonstram as pesquisas, goza de aprovação entre setores historicamente refratários à esquerda e ao PT e acaba de ganhar, pela segunda vez, capa elogiosa na mais retrógrada das publicações da imprensa brasileira.


Inocência útil
Enquanto isso, como se nada disso estivesse acontecendo, entusiastas, militantes e petistas acríticos - que pouco se importam se o governo avança politicamente ou se se torna cada vez mais presa de interesses do grande capital e do conservadorismo - seguem se autocongratulando nas redes sociais, pondo a culpa de tudo que há de mal no mundo no "PIG" d dando vivas ao governo Dilma, que apos rescindir o direito à aposentadoria integlral dos servidores e promulgar um decreto que na prática viola o direito de greve, agora retrocede a um ponto em que nem a ditadura bem a insensibilidade social do neoliberalismo da era FHC atreveram ousar.

A propósito da fé cega no governo Dilma, à revelia dos fatos e das evidências, convém lembrar que “o fanatismo consiste em intensificar os nossos esforços depois de termos esquecido o nosso alvo”, como sugeriu George Santayana. O Planalto está preparando, neste exato momento, mais e potencialmente graves retrocessos, com a anunciada "reforma trabalhista" para desonerar a produção - o que, por princípio e por experiência histórica não passa de um sofisma para ferrar ainda mais o trabalhador e beneficiar o capital.

De qualquer forma, o direito à auto-ilusão é sagrado - embora costume cobrar um preço politico alto. Fica o alerta.


(Fotograma de O Processo, de Kafka, (Orson Welles, Alemanha-França-Itália, 1962) copiado daqui)

domingo, 5 de agosto de 2012

A mídia e os mensalões


A lisura no trato da coisa pública é uma aspiração legítima da sociedade brasileira, e o fato de o conservadorismo, em conluio com a mídia, manipular politicamente tal demanda não a torna menos genuína. A esquerda não pode igualar-se à direita e se utilizar de dois pesos e duas medidas para relativizar a corrupção e dissimular suas próprias violações éticas, sob pena de comprometer não apenas sua imagem, mas a legitimidade de seu projeto político.

Por outro lado, a parcialidade, a distorção deliberada e a assimetria de tratamento que a mídia dispensa à corrupção quando praticada por conservadores ou progressistas constitui, em si, não apenas uma grave negligência das funções públicas que os meios de comunicação – mesmo se privados - deveriam exercer, mas, assim, uma forma perversa de violação da ordem democrática.

Que tal violação, embora evidente e de longo prazo, permaneça impune – para o que muito contribui a extinção da Lei de Imprensa pelo mais midiático e politicamente tendencioso ministro da história do STF – constitui, em si, um atestado do precário estágio do ordenamento institucional jurídico do país e dos desequilíbrios entre os pesos e contrapesos que lhe deveriam assegurar a plena democracia.


Parcialidade e omissão
O protagonismo do “escândalo do mensalão” e a presunção de que seria o maior caso de corrupção da história do país derivam diretamente desse estado de coisas. Tanto o volume de movimentação financeira envolvido quanto a gravidade das práticas alegadamente identificadas, não obstante merecedoras de investigação e de apreciação pela Justiça, estão aquém dos níveis alcançados por diversos casos pregressos e atuais patrocinados pelos setores conservadores, como o esquema identificado pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal, protagonizado por Carlinhos Cachoeira, políticos do DEM e ao menos um órgão de imprensa, e as denúncias documentadas envolvendo José Serra e o processo de privatização da era FHC apresentadas no livro A Privataria Tucana, do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr.

O fato de a mídia dar relativamente pouco destaque às descobertas gravíssimas da Operação Monte Carlo – que sugerem um poder paralelo que dominaria o estado de Goiás, com ramificações nacionais e grande poder de manipulação midiática –, e não dar uma linha sequer sobre as denúncias envolvendo as privatizações tucanas, em comparação com o estardalhaço que fez, faz e continuará fazendo com o mensalão, constitui uma clara violação do princípio da imparcialidade jornalística.


Às favas os princípios
Ainda que constitua, na prática, um preceito inatingível em sua plenitude, o esforço para se manter fiel a ele seria fundamental para assegurar um processamento criterioso e equânime à notícia, o qual desse um tratamento em bases similares aos acusados e fornecesse os elementos para o leitor julgar por si mesmo os fatos retratados, sem induzi-lo ou manipulá-lo a favor desta ideologia ou daquele partido.

Desnecessário observar que a mídia brasileira, embora erija para si um discurso fundado no direito público à informação, ignora solenemente tal princípio e, na verdade, pratica o inverso do que ele preceitua, como fica evidente quando se analisa os casos acima citados e na diferença de tratamento entre o quase desconhecido “mensalão” do PSDB e o megadifundido “mensalão” petista. O primeiro, embora cronologicamente anterior, milionário, protagonizado pelo mesmo Marcos Valério e com processo criminal aberto no STF contra o ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB/MG), só é referenciado como “mensalão mineiro”, truque retórico que troca a origem partidária pela regional como forma de blindar os tucanos.


A cobertura do “mensalão”
Seria ingenuidade esperar que, com tal retrospecto, a mídia fosse oferecer uma cobertura minimamente equilibrada do trâmite, no STF, da Ação Penal 470, vulgo “julgamento do mensalão” - afinal, trata-se de uma rara chance de, em pleno período eleitoral, dar uma força ao carcomido demotucanismo.

O primeiro dia, que foi dedicado a examinar – e a negar - o pedido da defesa pelo desmembramento do processo - para que permanecessem apenas os réus com direito à foro privilegiado no STF e os demais fossem submetidos à primeira instância, como ocorrera com o “mensalão mineiro” - acabou, inadvertidamente e numa ironia do destino, por levar ao conhecimento do público a existência de um “mensalão” do PSDB, citado pela maioria dos ministros.


Premissas questionáveis
Mas a mídia reagiria ao lapso já no dia seguinte. E de forma virulenta: só o partidarismo mais tacanho, somado ao pouco apreço pelo Estado de Direito e ao desprezo intelectual que nutre por seus leitores e telespectadores – os quais Willian Bonner compara a Homer Simpson -, pode explicar a ginástica verbal que ela, no intuito de tirar o máximo proveito eleitoral do “mensalão”, tem feito desde então para legitimar como incriminadora a peça acusatória apresentada por Roberto Gurgel, procurador-geral da República, contra o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu.

O procurador parte de uma premissa genérica que, não obstante potencialmente perigosa, beira a comicidade: a de que a não-aparição do nome do acusado na, em suas palavras, “execução do esquema” é indício de que ele seria o “chefão”. Uau, isso permitiria acusar virtualmente qualquer um. Seria o caso de recomendar aos chefões do crime, de agora em diante, que, para se preservar, cuidem de sempre colocar seu nome no expediente de suas quadrilhas...

A explanação de Gurgel pecou não apenas por partir de tal premissa, mas por se valer unicamente de relatos de terceiros – em sua maioria, acusados ou inimigos políticos do réu – e de trechos selecionados de matérias produzidas por nossa mais do que tendenciosa imprensa. Soa como uma base para acusação extremamente frágil.


Provas, para quê?
Nenhum indício material - um extrato de banco, uma assinatura em um documento -; nenhuma evidência física - uma gravação, uma foto, um vídeo -; nenhuma prova digital – um comprovante de transferência, um log de movimentação financeira ou epistolar, um SMS, uma chamada telefônica.

Na era do positivismo científico, da tecnologia forense, do DNA, da vigilância eletrônica e digital não seria demais esperar que o ilustre procurador apresentasse indícios concretos e provas factíveis, passíveis de comprovação, ao invés de uma interminável e monocórdia arenga baseada numa premissa pra lá de questionável e no “ouvi dizer” de testemunhas de índole questionável, além de no material produzido por uma mídia comprometida até o pescoço com a condenação de Dirceu.

Talvez tivesse sido mais honesto se o procurador abrisse mão da benevolência midiática e de seus holofotes e admitisse que o Ministério Público Federal não foi capaz de achar provas contra o acusado.


Punam-se os culpados, mas todos
A falta de provas contra Dirceu talvez seja uma exceção. Há, sim, um forte indício de irregularidades cometidas, se não por todos, por alguns dos réus do julgamento. É bem provável que pelo menos a utilização de “caixa dois” seja caracterizada no decorrer do julgamento. Se isso vier a acontecer, os responsáveis devem ser punidos, e com o rigor cabível.

Ocorre, porém, que utilização de “caixa dois” é um expediente amplamente disseminado entre virtualmente todos os partidos políticos do país e pau que bate em Chico bate em Francisco - ou seja, se o partido A for justamente punido por recorrer a uma prática ilegal, a justiça e o bom funcionamento da democracia demandam que os partidos B, C, D e E também o sejam. E que a mídia cubra com igual voracidade. De outro modo, não se estará fazendo justiça, mas, ao dispensar diferentes tratamentos a práticas idênticas, promovendo o contrário disto.


(Imagem copiada daqui)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O caso Karina e a politização do sexo


O caso de Karina Bolaños, vice-ministra da Juventude e Cultura de Costa Rica demitida após um vídeo íntimo “vazar” na internet, não obstante estar sendo tratado nas redes sociais como mera anedota, suscita importantes questões sobre as relações entre poder, ética e sexualidade, em um contexto de diluição das fronteiras entre o pessoal e o público.

No vídeo caseiro, Karina adentra o quadro pela lateral, de lingerie, deita-se de bruços sobre a cama de casal, perpendicularmente à câmera e, com o rosto em primeiro plano, olhando diretamente ao espectador, faz calientes declarações de amor ao que se evidencia ser alguém com quem já se relacionara anteriormente.

Não há absolutamente nada de pornográfico e, embora a CNN, ao transmiti-lo, tenha borrado digitalmente parte da imagem (para evitar que fossem vistas as bordas das auréolas em volta dos mamilos), trata-se de material que, se parte de uma trama ficcional, poderia tranquilamente ser exibido numa telenovela brasileira.


Fora dos padrões
A ênfase cômica com que o vídeo tem sido difundido nas redes sociais é compreensível, mas empobrecedora. Sendo a circulação de fait divers de apelo humorístico uma das modalidades principais da internet, o vídeo de Karina, além de saciar o voyeurismo que caracteriza as sociedades contemporâneas e explica o sucesso de reality-shows e congêneres, parece ter se tornado atraente para os aficionados justamente por seu conteúdo desviar-se dos padrões estético-comportamentais impostos pela indústria cultural.

O que o tornaria engraçado é o fato de ser protagonizado não por uma Paris “Barbie” Hilton de corpo sarado transando para as câmeras que, como parte do esforço de autopromoção, finge desconhecer, mas por uma mulher comum, nem muito feia nem muito bonita, nos seus quarenta anos, com um corpo alguns quilos acima do que a ditadura da beleza manda, e cujos impulsos sedutores incluem gravar em vídeo derramadas promessas de êxtase a quem ama. 

Economia sexual
Pergunto: o que há, de fato, de tão engraçado no vídeo? Por que provocou tanto frenesi e estupefação? A imposição de padrões quase inalcançáveis de beleza estaria de tal modo instituída que teria tacitamente proibido aos que neles não se encaixam ousarem manifestar sua sexualidade e o fazerem sem o crivo do deboche? Ou é a própria concepção de romantismo que se mostraria de tal forma sobrepujada por uma visão programaticamente mensurada, cronometrada e atlética do universo afetivo-sexual que torna anacrônico o que recenda a romantismo e derramamento?

Creio que uma das possíveis respostas a esta pergunta é que Karina, com seu físico fora dos padrões e o tom confessional de seu romântico erotismo, é uma penetra numa festa à qual não foi convidada, numa arena virtual reservada àqueles que obedecem os preceitos ditados pelo biopoder capitalista em seu atual estágio, que propulsiona, através do culto fetichizado do corpo perfeito e da hiperestimulação de uma sexualidade definida em bases clínicas, um processo de insatisfação permanente do ego, o qual, por sua vez, retroalimenta continuadamente o consumismo.

E um dos traços distintivos de tal economia política – e uma das bases para sua manutenção - tem sido, justamente, a criação de um discurso de exclusão que quer fazer crer que o acesso a uma sexualidade prazerosa limita-se aos que se adequam a tais demandas. Ao contradizer tal mito, o caso Karina também escandaliza porque acaba por furar o bloqueio e aludir ao fato de que, por mais surpreendente que a alguns possa parecer, a grande maioria de mulheres com estrias e celulite, gordinhas, gordas ou obesas, bem, como os homens barrigudos e carecas, também têm vida afetiva e sexual, muitas vezes intensa. A sexualidade restrita aos seres de corpo perfeito é um fetiche da era da virtualização do sexo, um fenômeno com menos de 20 anos.


Injustiça e sofrimento
Desde o início, embora goste de dar risadas com coisas tolas, não consegui ver nada de engraçado no vídeo de Karina. Talvez eu tenha uma prevenção contra esse voyeurismo que se tornou corrente, manifestada numa ojeriza ao vazio intelectual e existencial de Big Brother e congêneres, mas o fato é que o que vi no vídeo foi uma mulher, um ser humano, tendo sua intimidade brutalmente devassada, contra sua vontade e em nome de uma voyeurismo humorístico gratuito. O sentimento predominante, para mim, foi a certeza de que a experiência de ser assim exposta deveria estar sendo avassaladora para ela.

De fato, a história por trás do vídeo nada tem de engraçada. Além de ter custado o emprego de sua protagonista, sua divulgação se deve, segundo relato de uma devastada Karina à CNN em espanhol, a um malfadado processo de extorsão da qual ela e seu marido - que é deputado e era o destinatário do polêmico vídeo - seriam, há meses, vítimas.

Na entrevista, que pode ser vista no vídeo abaixo, embora o seu abatimento emocional fique evidente e confirme, infelizmente, o sentimento que tive ao assistir ao vídeo, Karina tem a lucidez de reivindicar o caráter privado do vídeo, o direito de exercer sua sexualidade e de protestar contra sua demissão.


A reação patriarcal
É de fato lamentável - e significativo - que o universo da política, tão tolerante quando se trata da relativização de programas de governo, da constituição de alianças espúrias e da malversação de verbas públicas, se mostre implacável ante a sexualidade feminina, ainda que manifestada em um contexto privado cuja publicização, a rigor, em nada afetaria o desempenho profissional de sua protagonista.

Acho uma pena que o caso Karina tenha recebido tão pouca atenção das feministas brasileiras. Para ficar só em dois tópicos de evidente interesse, a demissão da vice-ministra é um exemplo didático do recurso ao moralismo como instrumento patriarcal de repressão e, como já acima sugerido, a reação ao vídeo vazado evoca uma série de questões relevantes concernentes a corpo, sexualidade e padrões de beleza impostos às mulheres. Merecia ser levado seriamente e mais debatido.


(Imagem copiada daqui)