terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Dilma em Cuba

A visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba, embora oficialmente priorize o incremento das relações comerciais entre os dois países, traz consigo uma forte e incontornável carga simbólica, a qual a mídia trata de manipular de acordo com seus próprios interesses político-ideológicos.

Dentre tantos exemplos possíveis, uma demonstração cabal de como se dá tal processo foi dada na abertura do Jornal das 10 - principal programa noticioso da mais ideologicamente carregado dos veículos jornalísticos da TV brasileira, a Globo News.

Na edição de ontem, logo após anunciar a viagem de Dilma a Cuba e o alegado objetivo comercial da empreitada, Eduardo Grillo, o âncora do telejornal, sublinhou: “mas as atenções estão voltadas para como Dilma tratará os direitos humanos na ilha” (cito de memória: as palavras talvez não tenham sido exatamente estas, mas o sentido era esse).


Fala a Anistia Internacional
Do jornalismo espera-se fidelidade aos fatos, e não culto às mitologias. E o fato, como notado pelo notável jornalista que é Lúcio de Castro, é que a Anistia Internacional, “que de forma alguma pode ser apontada como conivente com Cuba, (muito pelo contrário)”, atesta, em parece emitido em abril de 2011 e divulgado em três idiomas em seu site, que “no continente americano, o país que menos viola os direitos humanos ou que melhor os respeita é Cuba”.

Isso não que dizer, evidentemente, que as violações dos direitos humanos na ilha, por serem, segundo a Anistia Internacional, menores do que na grande maioria dos países da região, devam ser toleradas. Evidencia, no entanto, que a imagem de Cuba como a violadora-mór de tais direitos é falsa e expressa, em última análise, o ódio dos que não se conformam com a perpetuação de um enclave socialista no quintal dos EUA e num mundo bovinamente regido pelas regras ditadas pelo grande capital.

Tem mais: “o mesmo informe dá conta de que 23 dos 27 países que votaram por sanções contra Cuba por violações dos direitos humanos são apontados pela própria Anistia como violadores muito maiores do que Cuba nos direitos humanos”.  Acrescente-se que, ao contrário do que ocorre em Cuba, há crianças de rua nesses países e a educação e a saúde são, em geral, historicamente precárias. Sem falar no fato que o socialmente cruel boicote a Cuba – este sim uma violação flagrante de direitos humanos – foi convocado e praticamente imposto pelo mais belicoso dos países.


Fatos para quê?
Ocorre porém que o jornalismo que as corporações comunicacionais ora praticam no Brasil não está nem aí para os fatos.  Se com estes se ocupasse, se empenharia em exigir declarações sobre direitos humanos dos mandatários brasileiros em viagens aos EUA de Abu Ghraib, dos voos secretos, das prisões e torturas terceirizadas, dos genocídios no Oriente Médio, de Guantánamo (o monumento aos direitos humanos que o presidente Obama ia fechar e cuja foto ilustra este post).

Ou, para ficar em um exemplo bem mais próximo: se tivesse um pingo da ética e do “padrão Globo de qualidade” que vive a alardear, a Globo News não só teria fornecido uma cobertura condizente das gravíssimas violações de direitos humanos praticadas pela PM paulista, em Pinheirinho, sob as ordens de Geraldo Alckimin, como a esta dissimulada figura pública estaria dirigindo suas questões acerca de direitos humanos.

(Como sabemos, o que tem acontecido no canal é exatamente o contrário, da cobertura omissa da brutalidade da polícia e do Estado contra civis à tentativa antidemocrática e antijornalística de Mônica Waldvogel de calar as vozes que as denunciam.)


Tiro pela culatra
O esforço da mídia brasileira para pautar a viagem oficial de Dilma foi enorme (como pode-se facilmente conferir pesquisando as  tags “Dilma Cuba Direitos Humanos” no Google), mas acabou virando-se contra o feiticeiro. As declarações feitas hoje pela presidente na ilha equivalem, no âmbito da política externa, aos irrespondíveis jabs verbais que desferiu contra o senador Agripino Maia (DEM-RN), quando este a acusou de mentir sob tortura.

Após, através da menção a Guantánamo, aludir às violações dos EUA aos direitos humanos, Dilma fez a seguinte declaração sobre o tema: 
- Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Nós, no Brasil, temos o nosso. Então, eu concordo em falar de direitos humanos dentro de uma perspctiva multilateral. Não podemos achar que direitos humanos é uma pedra que você joga só de um lado para o outro. Ela serve para nós também.
Alguns vão achar, com razão, que falar não basta. Mas é preciso reconhecer que as palavras da presidente puseram a nu a falácia e o descritério dos direitos humanos seletivos comumente adotados pela mídia no Brasil.


(Foto de Guantánamo retirada daqui)

domingo, 29 de janeiro de 2012

A democracia segundo o Estadão

À medida em que as eleições deste ano se aproximam, vai se tornando evidente que a mídia corporativa tende não apenas a continuar sua campanha em prol do demotucanato, mas a atuar efetivamente como oposição, seja através da abordagem editorializada dos fatos políticos, seja por meio das opiniões e análises que emite.

Editorial publicado hoje pelo Estadão é exemplar desse processo em que busca influenciar o eleitor e se credenciar como fornecedora de suporte ideológico das forças políticas que apoia. Até agora o mais incisivo artigo opinativo sobre as eleições na capital paulista (e sua relação com os cenários municipal e estadual), o texto transcende os limites da opinião jornalística para transformar-se numa verdadeira chamada à ação da oposição ao petismo.

Já o título do artigo ("Hoje a capital, amanhã o estado") traz implícita a referência a um indesejável acontecimento  potencial, a uma ambição futura - em uma palavra, a uma ameça. Em suas linhas finais, tendo ficado explícita que tal ameaça é a eventual vitória de Fernando Haddad (PT/SP) no pleito paulistano, o Estadão deixa qualquer escrúpulo de lado e convoca os demotucanos à ação: "Se existe uma oposição no País, está na hora de seus líderes pensarem seriamente nisso. E agir".

E por que a escolha democrática do candidato petista pelos eleitores paulistanos se afigura tão temível para o Estadão? Após uma ginástica verbal das mais hercúleas, o editorialista do jornal, em um período que resumo todo o artigo, revela a lógica (sic) que justifica (sic) seus temores: "Um dos fundamentos do regime democrático é a possibilidade de alternância no poder no âmbito federal, que está ameaçado pela perspectiva de o lulopetismo estender seus domínios ao que de mais politicamente significativo ainda lhe falta: a cidade e o Estado de São Paulo".

Vamos por partes: em, primeiro lugar, é no mínimo curiosa (e no máximo desonesta intelectual e jornalisticamente) a operação que procura restringir ao âmbito federal o revezamento no poder como algo que seria imprescindível à democracia, deixando estados e municípios de fora. Desprovido de racionalidade ou lógica, tal estratagema traz à tona o casuísmo e o maniqueísmo torpe da premissa.

Estes se tornam ainda mais evidentes quando se leva em conta que, não por coincidência, o PSDB e o DEM - partidos com os quais a imprensa paulista de ordinário se alinha - estão no poder há duas décadas no estado e (com exceção da administração Marta Suplicy) no município. Por outro lado - e com o perdão pela obviedade - é também significativo que o inimigo que o jornalão quer combater - a aliança partidária federal capitaneada pelo PT - encontra-se, graças a livre escolha popular, pela terceira vez consecutiva a cargo da administração federal.

Para além do raso proselitismo partidário que, disfarçado de opinião bem-intencionada e fundamentada, perpassa o artigo, é a própria premissa central  do texto que não se sustenta. E por dois motivos: primeiro, porque não há, efetivamente (nem haveria, com a eventual vitória de Haddad em São Paulo), nenhum obstáculo à possibilidade de alternância do poder no âmbito federal. Pois havendo eleições, há tal possibilidade.

Segundo, porque o que interessa efetivamente ao jornal difundir - que tal alternância é um bem em si mesma, que é necessária pois constituiria prova de democracia sadia, e que estaria ameaçada por novas eleições que mantivessem (ou, nos âmbitos municipal e estadual, colocassem) o PT no poder - não passa de wishful thinking da plutocracia midiática paulista (e das forças políticas que apoia).

Pois, ao contrário do que afirma o editorial de hoje do Estadão, a ocorrência de revezamento no poder não é, necessariamente, uma qualidade da democracia. A ciência política contemporânea substituiu essa premissa factual, descontextualizada e restrita às cores partidárias dos mandatos políticos por critérios mais objetivos e ligados à concepção, estruturação e aos modos de exercício da democracia eleitoral. O que se deve observar é, segundo tal escola, se as eleições são limpas, se são disponibilizadas informações suficientes ao eleitor (no que se refere à atuação governamental e da oposição e ao funcionamento da própria eleição), se a Justiça Eleitoral funciona, se a mídia é pluralista, desconcentrada e mantém um bom grau de independência em relação ao poder político-econômico, se há livre fiscalização internacional dos pleitos, se os mecanismos de voto e de apuração são confiáveis e a vontade do eleitor é soberana, entre outros quesitos. Cumpridas tais exigências, é perfeitamente lícito e democrático que se decida por manter uma determinada força político-partidária no poder por quantas vezes os eleitores decidirem.

Porém, no afã de sacar do poder as forças contra as quais se coloca, a grande imprensa - numa postura que contraria a deontologia básica do jornalismo - não se limita a servir de linha auxiliar dos partidos que apoia, ecoando o denuncismo vazio que, na falta de um projeto para o país, vem praticando na última década. Em estágio pré-falimentar e contaminada pelo desespero serrista, a plutocracia midiática paulista vai mais além: ousa querer ditar regras e criar mitos que venham a condicionar a democracia brasileira, de modo a distorcê-la e, em decorrência, inibi-la. Não passarão!


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O retorno de Lula

Em uma semana em que a violenta ação da PM paulista no Pinheirinho concentrou a atenção - e a justa indignação - de tantos brasileiros que ainda preservam um sentido de honra cívica, passou relativamente despercebida a retomada da agenda pública por parte do ex-presidente Lula. Trata-se, porém, de um retorno repleto de significações.

A viagem a Brasília para a posse dos novos ministros da Educação (Aloizio Mercadante) e da Ciência e Tecnologia (Marco Antonio Raupp), para a qual o ex-presidente pediu autorização médica, se deu em pleno tratamento contra o câncer (do qual recebeu 16 das 33 sessões diárias de radioterapia previstas), o que não apenas demonstra seu empenho pessoal em participar do evento, mas evidencia uma certa urgência em fazê-lo.

O retorno voluntário de Lula cumpre uma tripla função: em primeiro lugar, ao corroborar as escolhas ministeriais de sua sucessora, ser por ela homenageado e, de novo visual, a seu lado fotografado, mina a estratégia da mídia corporativa de desvincular Dilma de seu antecessor e padrinho político - estratégia esta que atingiu o ápice na semana passada, com as pesquisas de aprovação popular de Dilma recebendo um tratamento altamente editorializado. Neste, dez entre dez matérias jornalísticas fingiam desconhecer que o bom resultado da atual presidenta em seu primeiro ano como mandatária correlaciona-se, em larga medida, à herança lulista, assim como o não tão bom resultado do primeiro ano da Presidência de Lula refletia a crise herdada da administração FHC.

A segunda - e principal - função da aparição pública de Lula é chamar a atenção pública para o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, prestigiando-o e saudando o seu legado. Como se sabe, Lula tem sido, mais do que um fiador, um lutador pela candidatura de Haddad à Prefeitura de São Paulo. Confia, certamente, em um legado administrativo marcado não apenas pela revalorização da educação e dos educadores e na expansão física e multiplicação de unidades universitárias e de ensino técnico, mas numa vultosa - e inédita - política de inclusão educacional que quebrou barreiras classistas e raciais. 

É fato que, numa perspectiva nacional, a excelência do legado de Haddad está, no atual governo, sendo maculada pela constatação de que Dilma não está efetivamente honrando o reiterado compromisso de priorizar a educação, com o contingenciamento excessivo de verbas adiando a contratação de professores qualificados para as universidades federais, cujas novas unidades (e no âmbito do ProUni) dependem hoje, em larga medida, de professores substitutos ou temporários, com qualificação inferior e aviltantes contratos de trabalhos. Porém é incerto que a mancha de tal retrocesso repercuta em âmbito municipal e respingue no candidato Haddad.


Como corrobora a visita que fez, no mesmo dia, ao ator Reynaldo Gianecchini (que também se encontrava em tratamento contra câncer no mesmo hospital), o terceiro objetivo de Lula parece ser justamente criar fatos que o permitam, não obstante a má vontade midiática, manter-se em evidência. Trata-se de uma ação calculada, pois a mídia corporativa, de forma geral, desde o fim do seu governo demonstra o pendor de relegar o ex-presidente a uma espécie de ostracismo jornalístico temperado de maniqueísmo - ou seja, destacando o negativo e relegando os aspectos positivos legados por sua administração. O recolhimento a que Lula se viu obrigado para tratar da saúde acabou facilitando tremendamente tal estratégia.

Mas o recreio chegou ao fim: Lula, um mestre da comunicação política, está de volta à ribalta. Em decorrência, a campanha eleitoral de 2012  - que se afigura de alta relevância para o xadrez presidencial de 2014 -, agora sim, indubitavelmente começou.


(Foto cabeçalho: Ailton de Freitas/Fonte. Foto com Gianecchini: Ricardo Stuckert/Fonte)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Violência mostra esgotamento do modelo policial


Em um intervalo de dois dias a polícia militar protagonizou cenas de brutal violência em três diferentes estados brasileiros: em Teresina (PI), a repressão aos jovens que protestam contra o aumento da passagem dos ônibus municipais reviveu cenas típicas de ditaduras, com a polícia do governador Wilson Martins (PSB) e do prefeito Elmano Férrer (PTB) demonstrando despreparo e sadismo, como pode-se constatar no vídeo abaixo.


O impasse, que completa uma semana, é grave e crescem os relatos de agressão gratuita por parte das forças oficiais (sendo que um policial declarou lamentar estar de folga justamente no dia em que seus companheiros de corporação “quebraram os estudantes”).

Os episódios de hoje prefiguram um massacre com mortes que certamente ocorrerá caso não se intervenha, com bom senso, na situação.

Na menos difundido dos episódios, Vitória (ES) foi palco hoje de mais violência oficial – de novo, contra manifestantes que protestavam contra aumento das tarifas dos coletivos. Trata-se da repetição - por enquanto em menor escala - do tipo de episódio violento que teve lugar há seis meses na capital capixaba, sem que o resto do país tenha se dando conta de tais abusos. Na ocasião, os estudantes reagiram à violência com uma bela e pacífica manifestação.

Há dois pontos em comum entre as manifestaçõess de Teresina e de Vitória:
  1. Demonstram que, ao menos para parcelas da população, os sucessivos aumentos de preços, que vêm disparando desde o final do governo Lula e tornam a inflação não-oficial (mas real) incomensuravelmente maior do que a oficial, tornaram-se insuportáveis – e a um ponto tal que há disposição para correr riscos físicos na luta para evitá-los
  1. Em ambos, a mídia corporativa dos dois estados faz vistas grossas à violência - chegando a omiti-la - e tanto apoia o aumento das passagens quanto procura legitimar a ação policial.
Por fim, há a São Paulo demotucana, onde a violência policial é tão rotineira quanto os congestionamentos e os altos índices de poluição do ar, e que, nesta semana, vem oferecendo tal triste espetáculo em dose dupla: na despropositada ação policial na USP (que propiciou mais uma evidência de racismo e despreparo da PM paulista) e na populista e agora oficialmente suspeita repressão à Cracolândia.



Repensar o modelo
Esses três graves episódios, em pontos diferentes do Brasil, evidenciam, uma vez mais, a necessidade de repensar o modelo de ação policial no país. As polícias militares que a ditadura legou à sociedade civil já deram mostras mais do que suficientes de que não combinam com uma moderna sociedade democrática, a qual o Brasil aspira ser.

É um fato que os policiais são mal pagos e mal treinados – e que se faz, com frequência, uso politico (e politiqueiro) das forças policiais. Mas tais constatações já não são suficientes para consubstanciar uma plataforma de mudanças sem que se altere o atual modelo, pois as PMs, por sua própria história e natureza corporativa, têm reincidindo no vício da truculência e do encobertamento. As pesquisas sobre a visão que a população tem das forças policiais corrobora que, aos olhos de quem deveria servir e proteger, é essa a denegrida imagem que hoje a PM desfruta.

Não se pode ficar preso eternamente a esse paradigma. As reformas, para um dia o Brasil ter forças policiais que combinem efetividade no combate ao crime com imagem positiva com a população, estabelecendo uma relação baseada na confiança e no trato civilizado, têm de ser, necessariamente, profundas.

A democracia, paradoxalmente, ao requerer a manutenção da violência nas mãos do Estado, impinge que as forças policiais não sejam privatizadas (o que, de resto, não seria minimamente desejável) e continuem sob o comando das autoridades eleitas. Isso não impede, no entanto, a sua urgente desmilitarização e profissionalização

É preciso, o quanto antes, planejar e executar meios para promover a transição entre as polícias militares e uma nova corporação profissional não-militar e com uma formação profissional que inclua não apenas o necessário preparo para as situações de confronto, mas uma formação humanística que assegure um comportamento de acordo com os tratados de direitos humanos dos quais o país é signatário.

Trata-se de uma tarefa de décadas, mas que o Brasil precisará executar se pretende realmente um dia ser, de fato, uma democracia avançada.


(Foto de Breno Cavalcanti retirada daqui)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A indiazinha e a blogosfera

Não há dúvidas de que a situação dos índios no Brasil - e, a bem da verdade, em boa parte do mundo - é periclitante. Objetos de um extermínio continuado, vítimas de preconceito, os povos que originalmente habitavam nossa terra, mesmo quando já na situação de isolamento e extinção em que ora se encontram, jamais puderam usufruir efetivamente dos direitos que as novas legislações lhes asseguram.

Suas terras são com frequência invadidas e saqueadas, e se tornaram rotineiros os casos de enfrentamento armado, emboscadas e assassinatos. Na briga surda entre progresso e natureza, entre o grande capital versus a preservação dos povos indígenas, a demarcação de suas reservas recua cada vez mais e a mortandade de suas crianças ostenta índices assustadores.

Embora o grosso da sociedade brasileira possivelmente desconheça essa realidade - e efetivamente não esteja nem aí para a questão indígena -, esse quadro de penúria tem despertado a atenção dos setores mais avançados, notadamente entre jovens, ecologistas e defensores dos direitos humanos.

Assim, causou naturalmente comoção a notícia de que uma criança de oito anos, da tribo dos awá, teria sido queimada viva por madeireiros, no Maranhão. A crueldade de tal ato, o sadismo, o sofrimento que teria sido impingido à vítima geraram uma reação em cadeia nas redes sociais e na blogosfera.

Não obstante tal fenômeno evidenciar uma saudável capacidade de se indignar e protestar, ele acabou dando margem a versões fantasiosas, sem bases em fatos, que chegaram a mencionar a identificação do corpo carbonizado e a descrever o prazer sádico dos madeireiros ao praticar tal ato.

Isso, por sua vez, deu margem a uma exploração maniqueísta do que era, até então, apenas um boato - exploração esta que, no mais das vezes, mal disfarçava sua intencionalidade política: jogar a bomba no colo do governo federal. Assim procedendo, sem nenhuma cautela jornalística, desprezando fatos, apurações e preferindo apostar no pior - tudo por interesses políticos - setores da blogosfera se igualaram à mídia corporativa que tanto criticam,

Ademais, criaram uma situação paradoxal: muitos daqueles que de maneira mais intensa se autoproclamavam defensores dos povos indígenas apostavam no brutal sofrimento de uma indiazinha de oito anos como forma de legitimar seus interesses político-ideológicos (e sua fome pelo brilho virtual efêmero).

Quem, como os blogueiros Luiz Carlos Azenha e  Maria Frô, ousou apontar a carência de fatos, a necessidade de mais evidências e o excesso de prognósticos baseados em ouvi-dizer, só faltou ser linchado nas redes sociais.

Pois bem. Hoje, a Funai divulga um relatório no qual conclui tratar-se de um boato e nega a existência de um corpo carbonizado. É suficiente para se descartar a possibilidade que o assassinato tenha ocorrido? É claro que não. Mas é mais um indício de que não havia - e não há - elementos que comprovem tratar-se de um fato. E, assim como fazemos com a mídia corporativa, seria recomendável que a blogosfera adotasse o pressuposto ético de não se deixar balizar por suposições e boatos, mas tão-somente por fatos.

De forma similar, assim como cobramos da mídia corporativa que admita publicamente seus erros, aguardamos que os setores da blogosfera que se precipitaram e divulgaram uma suposição como se de fato se tratasse - nela baseando seus ataques a outros blogueiros e a determinados entes políticos -, venham a público admitir que se precipitaram.

Isso não tornaria a situação dos índios menos graves nem tiraria o ônus dos poderes responsáveis, mas sublinharia as diferenças éticas entre a blogosfera e a mídia corporativa, que nesse caso por momentos se tornaram indistintas. A aposta no boato e no ouvi-dizer só colabora para o discurso midiático segundo o qual a internet seria um não confiável "território de ninguém" - o que, em decorrência, enfraquece a blogosfera enquanto ente comunicacional.


(Foto de Josefa retirada daqui)


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cracolândia, Estado e Barbárie

É legítimo que cidadãos cobrem do poder público o direito constitucional de ir e vir. A afirmação acaciana se justifica: no centro de São Paulo, no entorno da Cracolândia, tal direito esteve, na última década, permanentemente ameaçado pela ação de pequenos marginais e de viciados fora de si, capazes de fazer qualquer coisa para saciar a fissura por mais uma pedra de crack.

Não idealizemos, em nome de um pseudo-esquerdismo generoso em liberalidade mas curto em realismo, ora em voga, a figura do viciado em crack: ao contrário do usuário de maconha e mesmo do de cocaína - que consegue, em muitos casos, conciliar o uso mais ou menos frequente da droga e uma vida produtiva -, pesquisas diversas reiteram que o viciado em crack, devido à velocidade de desenvolvimento do vício e do alheamento que o efeito da droga provoca, tende a tornar-se, em pouco tempo, socialmente não funcional, com a capacidade produtiva e os bens materiais sacrificados em nome da busca pela próxima dose.

A formação da Cracolândia foi o reflexo coletivo desse processo individual: grupos cada vez maiores de viciados, sem lar, emprego ou assistência do Estado, juntando-se nas imediações da Estação da Luz e, posteriormente, nos arredores de Santa Efigênia, para comprar e fumar crack, dia e noite.

Os comerciantes e dos moradores da região os designam por "noiados", devido ao fato de que, finda as pedras de crack do dia, saem pelas ruas centrais em bandos, completamente chapados e fissurados por mais uma dose, aterrorizando e assaltando quem quer que se ponha em seu caminho. Quem, como este blogueiro, já vivenciou isso de perto - e não de ouvir falar - sabe que se trata de um deprimente e assustador espetáculo, que evidencia a urgência de se atacar o problema, seja para restituir a dignidade e a cidadania desses dependentes químicos, seja para reassegurar o direito de ir e vir e a integridade física dos demais cidadãos.

Há, ainda, um terceiro motivo para que se encaminhe uma solução aceitável para a questão da cracolândia: a recuperação do centro de São Paulo e sua reinserção no circuito cultural da cidade. Historicamente relevante, com relativamente poucos mas importantes atrativos arquitetônicos, etílico-gastronômicos e culturais - e, a despeito de sua deteriorização evidente, conservando ainda um certo charme -, a região tem um enorme potencial para ser revitalizada e, a exemplo do que aconteceu, em âmbito internacional, com o centro de outras grandes metrópoles, tornar-se atrativo para o público da própria cidade e para o turismo interno e externo.

Portanto, feitas tais constatações, delineiam-se dois pontos defendidos por este artigo: 1) é necessário agir para acabar com a Cracolândia; 2) É legítima aspiração a que a região central de São Paulo volte a ser segura, culturalmente relevante e frequentável inclusive à noite e aos finais de semana.

 Dor e sofrimento
A questão que se coloca é que ambos os processos teriam, necessariamente, de se dar de forma democrática, e com respeito aos anseios, necessidades e direitos todos os cidadãos, inclusive aqueles despossuídos e/ou viciados em drogas.

Não é, obviamente, o que se observa na truculenta ação repressiva desencadeada sob as ordens do governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP) do prefeito Gilberto Kassab (PSD/SP). A anunciada tática de impingir "dor e sofrimento" aos viciados, não os deixando sequer dormir ou mesmo descansar, como forma de forçá-los a procurar tratamento é uma flagrante violação dos direitos humanos, cuja gravidade certamente despertará reações internacionais.

Além da costumeira truculência e do menosprezo dos demotucanos pelos pobres e marginalizados, há, nessa estratégia, evidentes objetivos eleitoreiros. Como assinala o blogueiro Chico Bicudo, Kassab "abre o ano eleitoral jogando para a plateia conservadora (que, no caso de São Paulo, não é pequena), abrigada em suntuosos camarotes de luxo, e de onde "observa" a realidade (em geral com empáfia e egoísmo)". Basta uma espiada nas redes sociais para constatar o quanto certos estratos paulistas apoiam entusiasticamente a estratégia "esfola-e-mata" aplicada contra os “craqueiros”.

Mais: embora valendo-se tão-somente da repressão violenta, tal operação não só se adianta ao programa federal de assistência aos moradores de rua - o chamado Consultório de Rua, com equipes móveis -, cuja visibilidade quer apagar, como coloca a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direito Humanos da Presidência da República, em uma saia justa: se cumprir suas funções institucionais e reagir contra as violações praticadas pela operação "dor e sofrimento" ficará com o ônus de ter impedido o combate ao crack na cidade.

Há de se considerar, ainda, as denúncias - reiteradas por dezenas de comerciantes da região central - de que tanto a inação oficial quanto ao inchaço da Cracolândia nos últimos três anos quanto o súbito e brutal ímpeto em destruí-la atendem a interesses específicos que grandes corporações imobiliárias, muito próximas a Kassab, tem na região.

Assim, a ação policial desumana que ora muitos paulistas aplaudem – entusiasticamente ou com um silêncio cúmplice - não só oculta questionáveis estratégias eleitoreiras e suspeitos interesses comerciais, como afigura-se potencialmente ineficaz, dado que - como até policiais envolvidos na operação têm admitido – pode até manter o centro cosmeticamente higienizado, mas tende a espalhar o problema pelos bairros vizinhos, perpetuando-o.


(Foto de Adriano Vizoni, retirada daqui)