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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O livro e a CPI

Desde que as fartamente documentadas denúncias contidas no livro A Privataria Tucana foram difundidas, o clamor por uma CPI que investigasse as negociatas do demotucanato tornou-se intenso na blogosfera e nas redes sociais.

Enquanto o ex-delegado Protógenes Queirós (PC do B/SP) passa a coletar assinaturas para tal - e a despeito do número expressivo de parlamentares petistas que adere à proposta -, verifica-se, por parte de lideranças do partido e da própria presidente Dilma, uma postura que oscila entre o reticente e a desaprovação explícita.

Isso, por sua vez, provoca uma reação em cadeia nas redes sociais, com o atual governo e, sobretudo, o PT, apanhando mais que Judas em Sábado de Aleluia, a um ponto tal que se tem por vezes a impressão de que o foco volta-se mais ao alegado conservadorismo da atual gestão do que às graves denúncias do livro de Amaury.

É natural que indícios envolvendo malversação de R$25 bilhões de dinheiro público provoquem indignação e justo clamor cívico por justiça - e que o aparente corpo mole da aliança governista liderada pelo PT (mas composta também por outras relevantes forças políticas, algo que comumente é relegado) dê vazão a reações indignadas.

Porém estas não deixam de evidenciar uma fé cega na instalação de uma CPI como único meio de se fazer justiça. Cria-se, assim, através do processo acima descrito, uma falsa e perigosa dicotomia, segundo a qual aqueles que apoiam a criação de tal comissão seriam os democratas e os éticos, enquanto aos que a ela se opõem fica reservado o papel de conservadores e pelegos. Por caricata que pareça, é esta hoje a toada cantada nas redes sociais.

Este artigo procura, com o perdão pela pretensão, propor uma reflexão que supere esse cenário preto e branco e vá além desse imediatismo tão maniqueísta quanto ingênuo.


A deturpação das CPIs 
Antes, porém, é preciso explicitar a posição a partir da qual fala o autor do texto: tenho, há tempos, uma visão extremamente cética quanto ao estatuto das CPIs como meio investigativo; à efetividade que uma eventual CPI da “privataria tucana” possa vir a ter; e à prevalência dos ritos e critérios legais ante o poder de manipulação midiático.

As CPIs foram originalmente concebidas como um recurso excepcional para ser utilizado em situações institucionais urgentes, que demandassem, a um tempo, celeridade na investigação e obediência, ainda que sumária, a um rito jurídico, mesmo que no âmbito do Legislativo (e não do Judiciário).

O caso clássico é o exame de evidências que pudessem levar ao impeachment de um Presidente da República. Não por coincidência, é justamente após a CPI que ejetou Fernando Collor de Mello da cadeira presidencial, em 1992, que se torna recorrente o recurso a tal modalidade de investigação. Duas características básicas tipificam, desde então, as CPIs à moda brasileira, que se tornariam rotineiras:
1) Os tais sumários ritos jurídicos dão lugar a julgamentos eminentemente (sic) políticos, em que interesses muitas vezes espúrios e conchavos se sobrepõem às evidências. Isso não só banaliza as CPIs, transformando-as em palco de luta pelo poder, como as faz elemento central para a reprodução de um dos piores males da política brasileira: o moralismo neoudenista, quase sempre a serviço de um jogo de derruba-presidente;
2) A notoriedade e efetividade de uma CPI – e sua capacidade de despertar o interesse do grande público – estão intrinsecamente ligadas ao interesse da mídia, a qual, é evidente, tende a manipular a cobertura de acordo com seus interesses políticos e econômicos. Isso transforma as CPIs no que o professor Venício A. de Lima, parafraseando um teórico britânico, chama de “espetáculos político-midiáticos”.

Como é de conhecimento geral, a era das CPIs como espetáculo midiático atinge seu ápice por ocasião da “crise do mensalão”, em que o país praticamente para, durante várias semanas, para acompanhar uma pantomina política cujo objetivo último era o impeachment de Lula – só não alcançado graças à combinação única de carisma e sagacidade política desse líder popular, que lhe permitiram manter altos índices de apoio na base da população e utilizar-se dos sindicatos como elemento de pressão junto à elite empresarial.


Show midiático
De volta ao pré-2012: num momento midiático como o que ora o Brasil vive, em que as corporações de comunicação atuam deslavadamente como partido político – como o silêncio sobre o livro de Amaury Jr. ilustrou de forma inconteste -, só a ingenuidade mais poliana pode vir a conceber que, numa eventual "CPI da privatização tucana" a mídia daria atenção a qualquer denúncia que viesse a atingir o demotucanato, e que não utilizaria, na ocasião, de todo seu aparato manipulatório – de truques de edição a colunistas de bigode aparado, de dez entrevistas longas com Álvaro Dias, Roberto Freire e José Serra para alguns segundos de Mercadante (ou qualquer outro petista meio tucano) – para, ao final, malgrado os protestos e contraversões da blogosfera, dar um jeito de jogar o ônus e as culpas no colo de Dilma e do lulopetismo.

Dois outros fatores devem ser levados em conta em relação aos perigos potenciais da instalação de uma CPI: o endosso entusiasmado que recebe do PSOL - partido que tantas vezes se aliou à pior direita contra as principais propostas sociais do governo Lula - e a constatação evidente de que os debates - e a cobertura mídiatica – relativos à comissão se dariam em um momento econômico extremamente delicado, em que o Brasil luta para não se deixar levar pela derrocada da economia europeia. Pertence ao âmbito da ilusão a suposição de que, por ser a CPI alegadamente destinada a investigar um governo tucano, estes e seus prepostos na mídia deixariam de aproveitar o momento para gerar boatos diários visando desestabilizar o governo.


Alternativas mais eficazes
Isso significa então que, por conta de uma mídia corrompida, que se recusa a ao menos se esforçar por buscar a inalcançável imparcialidade, se deva abdicar de qualquer esperança de punição aos eventuais crimes de lesa-pátria do demotucanato – e de quem mais os tenha praticado - e resignar-se à impunidade? De forma alguma. Mas, pelos motivos acima elencados, e dado o caráter de espetáculo político-midiático que cerca as CPIs e o alto grau de concentração dos veículos de mídia no Brasil, afigura-se claro que não é através da instalação de uma comissão de tal tipo que as tarefas essenciais de difundir a um público cada vez mais amplo as denúncias do livro de Amaury e de buscar justa punição a quem as mereça têm mais chances de se efetivar.

Para tanto, urge, primeiro, que a sociedade civil organizada e os agentes do poder acionem e chamem à ação, nos âmbitos federal e estadual, o cada vez mais atuante Ministério Público, para que, ante a profusão de documentos reunidos em A Privataria Tucana, tomem as medidas cabíveis, as quais tendem a ser muito mais efetivas do que se delegadas ao Legislativo.

Em segundo lugar e por fim, faz-se necessário acirrar a batalha pela comunicação, não apenas com a ação cada vez mais efetiva na blogosfera e nas redes sociais, mas procurando ampliar alianças entre blogueiros, ativistas a diversos setores da sociedade - como as universidades, o setor cultural e o novo empresariado -, visando retomar a pressão por um PNBL efetivo e acessível, a instituição de uma legislação de responsabilidade midiática e, sobretudo, a pressão junto ao governo federal por medidas corajosas que efetivamente democratizem e pluralizem o ambiente comunicacional brasileiro.


(Foto do espetáculo OP1, da CIA PHila 7, retirado daqui)

domingo, 11 de dezembro de 2011

A Privataria Tucana e a indignação seletiva da mídia

Corrupção e política sempre estiveram profundamente ligadas no Brasil, um tanto porque essa é, efetivamente, a herança de um país dominado por hierarquias, com profundas injustiças sociais e longos períodos ditatoriais, outro tanto porque desde que a UDN, nos anos 50, em conluio com a maioria da mídia, descobriu o poder mobilizador das denúncias, estas se incorporaram ao modo brasileiro de fazer política.

Todos os governos civis, desde a República Velha até a presidência Dilma Rousseff, sofreram, em maior ou menor grau, acusações de envolvimento em corrupção. Como a atual oposição gosta de lembrar, o PT, quando não era governo, vivia fazendo denúncias e procurando mobilizar o Ministério Público. E isso é verdade. A diferença - que se esquecem de mencionar - é que a repercussão que a mídia fazia das denúncias petistas contra FHC (e demais membros de seu governo), nas raras vezes que ocorria, era incomparavelmente menor do que o barulho – semanal, diário – que ora faz, por exemplo, quanto às denúncias contra os ministros do atual governo.

Assim, enquanto as gravíssimas denúncias, gravadas, do jornalista Fernando Rodrigues contra FHC por alegada compra de votos no plenário (para aprovar a emenda da reeleição) mal foram divulgadas pela Folha de S. Paulo – sem repercussão por nenhum outro grande órgão de mídia, só encontrando eco na Caros Amigos -, a revista Veja produziu mais de quarenta capas sobre supostos atos de corrupção, muitas delas sistematicamente reproduzidas na Folha e nas rádios, TVs e páginas do sistema Globo.

E a mídia pode (ou ao menos podia, antes da internet e da blogosfera militante), fazer toda a diferença – como a eleição de um obscuro governador alagoano (patrocinada e manipulada pela TV Globo, como admitiu recentemente o ex-todo poderoso global Boni) e, posteriormente, sua derrocada rumo ao impeachment, ilustram com precisão.

Recentemente, as eleições presidenciais têm aparentemente mostrado a diminuição do poder de persuasão da imprensa, mas o primeiro ano do governo Dilma evidencia que a mídia é ainda capaz de causar indignação em certos estratos de nossa sociedade e, assim, somado à disposição da presidente de sacrificar quadros em nome da governabilidade, manter o governo acuado, nas cordas.

Essa atuação extremamente tendenciosa do jornalismo brasileiro tem levado à difusão da ideia de que os governos Lula e Dilma seriam os mais corruptos da história da República. Trata-se de uma falácia e de uma injustiça, como sabe qualquer pessoa realmente a par da evolução – quantitativa e qualitativa - dos órgãos e mecanismos estatais de apuração e combate ao crime e à corrupção nos últimos nove anos.

Para contradizer tal acusação leviana, não é preciso mais trazer à tona os números e medidas oficiais e compará-los com os dos governos anteriores. Uma luz mais apurada sobre a questão da corrupção na história recente do Brasil tem lugar com o lançamento de A Privataria Tucana (Geração Editorial), de autoria do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Nele, o ex-repórter especial da Globo e da IstoÉ e profissional dos mais reconhecidos - vencedor de nada menos do que três prêmios Esso e quatro prêmios Vladimir Herzog - demonstra, com provas e de forma cabal, o inigualável grau de malversação do erário que marcou o processo de privatização do patrimônio público brasileiro durante os anos FHC, dando nomes aos bois e identificando a rota que levou o botim a paraísos fiscais.

Ante denúncia de tamanha gravidade, minuciosamente documentada, feita por profissional reconhecido e em um livro que, mal lançado, acaba de esgotar a primeira edição de 15 mil cópias, qual é a atitude da mídia brasileira, sempre tão suscetível à indignação? Capas na Veja, editoriais em O Globo, colunas de gente cheirosa na Folha? Nada disso. Tão-somente o mais gritante e auto-denunciador silêncio. O qual evidencia, em sua plena epifania, que a indignação de tal imprensa não é, nem nunca foi, por conta do interesse público contra o qual a corrupção atenta, pois se assim fosse essas vozes da moral estariam agora clamando, indignadas, por investigações rigorosas sobre o governo FHC e o processo de privatização do patrimônio público brasileiro – um crime de lesa-pátria que essa mesma mídia promoveu e endossou, e do qual é cúmplice.

Da próxima vez que você vir uma capa escandalosa da Veja com mais uma uma denúncia mirabolante e sem provas, lembre-se disso.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Comissão da Verdade começa muito mal

Enquanto a maioria de nossos vizinhos no subcontinente já acertou ou está acertando - em alguns casos de forma contundente - suas contas com o passado ditatorial, o Brasil, com sua tradição de "acertos por cima" (dos quais a casuística Lei de Anistia é exemplo cabal) e suas modernizações conservadoras, viu adiada ao máximo a adoção de mecanismos públicos de estabelecimento da verdade histórica acerca da última ditadura militar (1964-1985).

Após anos e anos de enrolação, idas e vindas, intensa queda-de-braço entre setores da sociedade civil organizada de um lado e de militares do outro, pressão intensa de ex-presos políticos e de parlamentares (como a valorosa deputada Luiza Erundina), foi oficialmente instalada, na última sexta-feira, a Comissão da Verdade, destinada a investigar as violações de Direitos Humanos e o paradeiro de desaparecidos políticos durante o período militar.

Lamentavelmente, já a própria cerimônia forneceu contundentes motivos para alimentar receios e reservas em relação à efetividade da Comissão: convidada para discursar na cerimônia, Vera Paiva, uma das filhas do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pelos militares, foi simplesmente impedida de discursar - segundo o que se apurou hoje, por pressões dos setores militares.

Reproduzimos, abaixo, a íntegra do que seria sua fala, somada às declarações que fez sobre o deplorável episódio, ambas publicadas pelo blog de seu irmão Marcelo Rubens Paiva.


Com a palavra, Vera Paiva:

“Segue as anotações da minha fala que foi cancelada, segundo os jornais de hoje, por pressão dos militares. Assim começa muito mal…

Não fui desconvidada, simplesmente não falei! A minha volta diziam que a Pres. Dilma tinha que viajar e encurtaram a cerimônia, que alguém tinha falado um tempo a mais. Sai para uma reunião na UNB, ainda emocionada com o carinho que dispensou aos familiares e ex-presos políticos, um a um.

Agora entendo o pedido de desculpas da Ministra Maria do Rosário.

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011, 11:00. Palácio do Planalto, Brasília.

Excelentíssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário. Demais ministros presentes. Senhores representantes do Congresso Nacional, das Forças Armadas. Caríssimos ex-presos políticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto tempo nessa luta.

Agradecemos a honra, meu filho João Paiva Avelino e eu, filha e neto de Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento histórico e, dentre as centenas de famílias de mortos e desaparecidos, de milhares de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime militar, o privilégio de poder falar.

Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo, estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em 2011, sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, seqüestros, humilhação e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isso que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? Inúmeros dados indicam que especialmente brasileiros mais pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda são cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou são presos arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos mais básicos à não discriminação e a integridade física e moral que a Declaração dos Direitos Humanos consagrou na ONU depois dos horrores do nazismo em 1948.

Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação constitucional e perpetuam ações herdeiras do estado de exceção que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.

O respeito aos direitos humanos, o respeito democrático à diferença de opiniões assim como a construção da paz se constrói todo dia e a cada geração! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua sustentação.

Nossa história familiar é uma entre tantas registradas em livros e exposições. Aqui em Brasília a exposição sobre o calvário de Frei Tito pode ser mais uma lição sobre o período que se deve investigar.

Em Março desse ano, na inauguração da exposição sobre meu pai no Congresso Nacional, ressaltei que há exatos 40 anos o tínhamos visto pela última vez. Rubens Paiva que foi um combativo líder estudantil na luta “Pelo Petróleo é Nosso”, depois engenheiro construtor de Brasília, depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era um bem sucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu país e pai de 5 filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter jogado vôlei e poder almoçar com sua família em um feriado. Intimado, foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois é a única prova de que foi preso. Minha mãe, dedicada mãe de família, foi presa no dia seguinte, com minha irmã de 15 anos. Ficaram dias no DOI-CODI, um dos cenário de horror naqueles tempos. Revi minha irmã com a alma partida e minha mãe esquálida. De quartel em quartel, gabinete em gabinete passou anos a fio tentando encontrá-lo, ou pelo menos ter noticias. Nenhuma noticia.

Apenas na inauguração da exposição em São Paulo, 40 anos depois, fizemos pela primeira vez um Memorial onde juntamos família e amigos para honrar sua memória. Descobrimos que a data em que cada um de nós decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes…Aceitar que ele tinha sido assassinado, era matá-lo mais uma vez.

Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um caminho para a paz.

Excelentíssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, além das marcas na alma do período de exceção e de sermos mulheres, mãe, funcionária pública. Compartilhamos os direitos humanos como referência ética e para as políticas públicas para o Brasil. Também com 19 anos me envolvi com movimentos de jovens que queriam mudar o pais. Enquanto esperava essa cerimônia começar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa mobilização começou. Na diretoria do recém fundado DCE-Livre da USP, Alexandre Vanucci Leme, um dos jovens colegas da USP sacrificados pela ditadura, ajudei a organizar a 1a mobilização nas ruas desde o AI-5, contra prisões arbitrárias de colegas presos e pela anistia aos presos políticos. Era maio de 1977 e até sermos parados pelas bombas do Coronel Erasmo Dias, andávamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo uma carta aberta a população cuja palavra de ordem era


HOJE, CONSENTE QUEM CALA.

Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje, no ato que sanciona a Comissão da Verdade. Para esclarecer de fato o que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem calar consentirá, não é mesmo?

Se a Comissão da Verdade não tiver autonomia e soberania para investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos cúmplices do sofrimento de milhares de famílias ainda afetadas por essa herança de horror que agora não está apoiada em leis de exceção, mas segue inquestionada nos fatos.

A nossa carta de 1977, publicada na primeira página do jornal o Estado de São Paulo no dia seguinte, expressava a indignação juvenil com a falta de democracia e justiça social, que seguem nos desafiando. O Brasil foi o último país a encerrar o período de escravidão, os recentes dados do IBGE confirmam que continuamos uma país rico, mas absurdamente desigual… Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no mesmo período fizeram. Somos cobrados pela ONU, pelos organismos internacionais e até pela Revista Economist, a avançar nesse processo. Todos concordam que re-estabelecer a verdade e preservar a memória não é revanchismo, que responsáveis pela barbárie sejam julgadas, com o direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fundamental para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir a paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram, a África do Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a valorize.

Termino insistindo que a DEMOCRACIA SE CONSTRÓI E RECONSTRÓI A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstruída a CADA GERAÇÃO.

E que hoje, quem cala, consente, mais uma vez.

Obrigada.

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Depois de saber que fui impedida de falar ontem, lembro de um texto de meu irmão Marcelo Paiva em sua coluna, dirigida aos militares:

“Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura (…)Por que não limpar a fama da corporação?
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.”


(Foto retirada daqui)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Reações a doença de Lula e à PM na USP evidenciam crise ideológica e cultural

As reações, na internet, a dois eventos recentes – o anúncio de que o ex-presidente Lula está com câncer e a atuação da PM na USP – têm causado perplexidade e repulsa pelo modo agressivo com que se expressam e pelo que evidenciam de falta de educação, preconceito e inadaptabilidade ao debate democrático. Mas, como veremos, há mais pontos em comum entre essas duas manifestações de intolerância do que à primeira vista sugerem.


Agressões ao doente
Receber a notícia de que alguém está com câncer – ou com outra doença tida como grave – costuma despertar compaixão no ser humano. Alguns atribuem tal reação a uma suposta bondade inerente à nossa espécie, acreditando que por baixo das máscaras que adotamos para a vida em sociedade vicejam corações plenos de boa intenção; os não-rousseaunianos, mais reticentes, afirmam tratar-se de uma reação ditada pelo instinto de preservação: o temor de que venhamos a padecer da mesma enfermidade faz com que nos identifiquemos com a dor alheia como forma de esconjurá-la.

Seja como for, considera-se que festejar e regojizar-se com o anúncio da doença alheia é reação que ultrapassa todos os limites do bom senso e da convivência em sociedade. É por isso que o que se viu, na internet mas também nas redações, logo após o anúncio de que Lula está acometido de um câncer na laringe, marca um dos pontos mais baixos do debate público no Brasil. No momento de maior fragilidade do ex-mandatário, deu-se vazão a todo o ódio e preconceito de classe acumulados nos anos em que ele esteve no poder.

O texto definitivo sobre o caso veio da pena cada vez mais afiada de Maria Inês Nassif, que entre outros pontos relevantes apontou que não é de hoje que o respeito mínimo devido a todo presidente eleito não tem lugar quando se trata de Lula da Silva – e que entre os que através de tal procedimento desrespeitam a instituição mesma da Presidência está a própria mídia, que deveria dar o exemplo.


Insultos aos estudantes
Pois nem bem as forças democráticas se recuperavam de tais excessos agressivos - que levaram até jornalistas notadamente conservadores a reclamar - e o país já se via diante de um novo efeito-manada, uma onda de insultos contra estudantes da USP que, em reação contrária à decisão (tomada em assembleia própria) de desocupar o prédio administrativo da FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) decidiram ocupar a Reitoria para continuar protestando contra a ação da PM no campus, com revistas constantes, que culminaram na prisão de três alunos de Filosofia flagrados com um cigarro de maconha.

Daí em diante o que se viu, mesmo entre autointitulados esquerdistas, foi uma onda de protestos contra o que chamam de “os maconheiros da USP”. Mesmo deixando de lado a generalização descabida, há, em pleno século XXI – quando as principais democracias reconhecem que o uso de maconha é questão de foro pessoal e do âmbito da saúde, não da segurança pública - algo de intrinsecamente anacrônico no uso do ajetivo “maconheiro” como forma de promover estigmatização e desqualificação. Além disso, assim como ocorreu com a doença do ex-presidente, o que o fenômeno da reação virulenta à invasão da Reitoria da USP nos traz é, uma vez mais, o ódio de classe e os recalques de fundo psicológico, vindos à tona de forma agressiva e com vocabulário tosco. A internet enquanto catarse.


A herança do desmanche
A realidade, porém, é bem mais complexa do que os histéricos querem fazer crer. Como explica de forma detalhada o professor da USP Pablo Ortallado, em ótimo artigo, a violência na instituição está diretamente ligada a um processo de restrição cada vez maior do exercício da democracia interna. Por meio deste, a USP é, hoje, uma das universidades públicas brasileiras em que professores, servidores e alunos têm o menor peso nas decisões importantes, a cargo de colegiados de membros de instâncias burocráticas superiores que se transformaram em verdadeiros feudos, onde o poder se perpetua nas mãos de poucos.

Em decorrência disso, cerceia-se ao máximo o raio de ação política dentro das regras do jogo por parte de alunos, professores e funcionários. Ora, quem já passou por uma ditadura sabe: quando as regras reprimem o exercício da democracia, é dever do democrata desobedecer e lutar pela modificação delas. Achar que a brutal repressão institucional a que a USP vem sendo submetida nos últimos 20 anos iria ser aceita passivamente é subestimar a inteligência dos uspianos.

Agrava essa situação o modelo urbanístico adotado pela universidade paulista, que é criticado, entre outros, pela arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Raquel Ronik, o qual colaboraria para a segregação social no campus e entre moradores da cidade e uspianos, como apontam os alunos de Relações Internacionais Leonardo Calderoni e Pedro Charbel, em artigo que denuncia a forma manipuladora como o conceito de autonomia é instrumentalizado pela mídia e pelas autoridades universitárias.

O PSDB tem um papel preponderante nesse estado de coisas, não só porque, à frente do governo de São Paulo há 17 anos, é co-responsável pelo estágio urbanístico-social-institucional da USP, mas porque José Serra - que não nomeou o candidato a reitor que ocupava o primeiro lugar na lista tríplice, preferindo o polêmico Rodas - e Geraldo Alckmin estavam a cargo do governo nas duas vezes em que a Tropa de Choque da PM, num ato inimaginável numa verdadeira democracia, invadiu o campus – a mais recente na manhã de hoje -, utilizando de violência desmedida contra estudantes desarmados.


PM no campus
A reação de apoio à ação da polícia, mesmo nas raras vezes em que é expressada de forma polida e educada, evidencia o profundo conservadorismo que marca a sociedade brasileira atual. Trata-se de um paradoxo: no momento mesmo em que 28 milhões deixaram de ser miseráveis e 40 milhões ascenderam à classe média, e que o Brasil tornara-se efetivamente um player na política internacional, o debate sobre questões internas involui não apenas na forma (a difamação e os ataques pessoais substituindo o diálogo civilizado e a argumentação), mas também no conteúdo (com pressupostos que há pouco eram exclusivos de fanáticos de direita tornando-se de uso corrente entre os estratos médios e altos).

Seria preciso uma alta dose de auto-engano para não se aperceber que o país, tanto em termos culturais quanto ideológicos, claramente retrocedeu, se comparado àquele de 40, 50 anos atrás. Não há como comparar o nível das discussões públicas hoje, no Brasil, àquele que se deu, por exemplo, no bojo do processo de redemocratização do país.


Regredimos?
Antes que as palavras aqui ditas sejam distorcidas, cabe assinalar que não se quer com isso, de forma alguma, sugerir que o ambiente da ditadura era mais profícuo em termos culturais e ideológicos do que os atuais. Ainda que isso seja verdade em alguns períodos – notadamente entre 1964 e 1967, hiato que o crítico literário Roberto Shwarz qualificou como os “anos de hegemonia cultural da esquerda” -, isso se deve mormente ao ímpeto antiditatorial de artistas da coragem e do talento de um Chico Buarque ou de um Vianinha - e à necessidade de unir-se no combate a um inimigo em comum.

Na verdade, a crise ideológica e cultural que hoje uma vez mais se agrava tem como origem justamente a ação sistemática da ditadura contra as formas culturais mais autênticas e mais revolucionárias, em prol do investimento vultoso na constituição de uma sociedade televisiva de massas – uma herança que os civis de direita que marcaram o longo período de transição para a democracia só açularam, muitos com proveito eleitoral.


O preço da desideologização
Há uma década, a centro-esquerda tem sido eleita, é verdade, mas, como as eleições que culminaram com a vitória de Dilma Rousseff evidenciaram de forma inconteste, não foi através de uma proposta programática de perfil ideológico - muito pelo contrário: tal como o “Lulinha Paz e Amor” de oito anos antes, a hoje presidenta submeteu-se ao regime padrão de marquetagem, chegando, ao final da campanha, ante as baixarias desmedidas de José Serra, a retroceder em questões de suma importância, como o aborto.

É precisamente quando se evidencializou de forma mais clara, àqueles que não se recusaram a ver, que a crise ideológica transcendia as questões colocadas pelo neoliberalismo, as quais dominaram o período imediatamente anterior (e, muitas delas, continuam na ordem do dia), e que a crise cultural, como qualquer crise estética, era também uma crise ética.

“Mas o importante é que eles venceram” - dirá o esquerdista pragmático. Sim, venceram, mas o preço que a sociedade brasileira como um todo vem pagando por essa recusa em um debate ideológico é uma despolitização da política, uma desideologização da esfera pública que ao final só beneficia os grandes grupos de mídia corporativa, os quais têm como interesse precípuo obter pontos no Ibope, e não levar cultura e educação ao público espectador, como “exige” a Constituição.


Dieta indigesta
A sobreposição do marketing à política e a naturalização das telecomunicações como meio de entretenimento – seja através das narrativas ficcionais das novelas ou das narrativas protojormalísticas dos telejornais – certamente desempenham um papel fundamental nesse processo de alavancagem do conservadorismo desinformado, pois não há como evoluir ética e ideologicamente com uma dieta de Datenas, Lucianos Huck, CQCs e coisas do gênero. Um país que, há 11 anos, quase para durante meses para assistir a Big Brother Brasil está profundamente enfermo em termos de ideologia, ética e estética – e negar isso em nome de uma suposta pluralidade democrática de escolhas é tapar o sol com a peneira.

E a relação entre política e mídia está diretamente imbricada na questão: cada vez que o governo Dilma demite um ministro após um factoide da Veja, não só estimula um jornalismo-denúncia - forte em escândalo mas fraco em evidências -, mas, ao fortalecer a posição da revista ante o público, está, na prática, incentivando a difusão de um ideário conservador (inerente à publicação) que transcende a política e se torna moeda corrente em questões comportamentais e culturais.

É pelas razões acima expostas que já passa da hora de os governos ditos de centro-esquerda renunciarem à ferrugem neoliberal que emperra o protagonismo do Estado na área cultural e tomarem as rédeas de um projeto de elevação do nível educacional e cultural do povo brasileiro, sob a pena não apenas de serem derrotados eleitoralmente, mas de legar ao futuro um país ainda mais conservador, ignorante e truculento do que o que herdaram.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Caco e a mídia: a importância da não-omissão

Trecho censurado do programa da Globo News “Em Pauta”, disponibilizado por @amanditas1904 no You Tube, causou um alvoroço nas redes sociais no último final de semana.

No segmento - que não foi ao ar nas reprises do programa no canal a cabo -, o jornalista Caco Barcelos, instado a responder a uma pergunta da colunista Eliane Cantanhêde, questiona o denuncismo da imprensa, criticando o que chamou de “jornalismo declaratório” - a ligeireza e a falta de escrúpulos em se destruir a honra alheia baseadas, muitas vezes, tão-somente na declaração de um acusador, sem aprofundar investigações, inclusive em relação à qualificação do denunciante (veja aqui). Qualquer coincidência com o que ora vemos não é mera coincidência.


Alfinetadas
Eliane, como se sabe, é das jornalistas mais ferrenhamente anti-esquerda da imprensa brasileira. Casada com um publicitário com histórico de trabalho com o PSDB e autora de um livro sobre o DEM, sua coluna na Folha de S. Paulo é uma inacreditável mistura de texto dondoca, preconceitos de classe e teses estapafúrdias. Celebrizou-se por induzir o pânico ante uma inexistente epidemia de febre amarela, por defender os pilotos norte-americanos (que voavam com rádio e transponder desligados) no acidente com o avião da Gol, e por qualificar de “massa cheirosa” os militantes do PSDB. Com um currículo desses, só poderia acabar contratada pela Globo News.

No programa, questionada se concordava com as críticas de Caco, ela citou o caso Palocci – no qual, para ela, a imprensa teria sido responsável por encontrar o que ela considera evidências contra o ex-ministro. Caco retrucou citando a não-condenação de Collor na Justiça – por falta de apuração da imprensa? provoca ele -, reafirmou a leviandade de setores da imprensa, e a coisa parou por aí.

Embora o breve debate com Cantanhêde, que tanto excitou setores da esquerda, esteja longe, na minha opinião, de configurar um “passa-moleque” (para usar a deliciosa expressão que Idelber Avelar usa com frequência – e aplicou inclusive ao caso em questão), penso que a postura de Caco é de fundamental importância.


Opinião "de dentro"
E não só pelo jornalista em questão ser um dos mais respeitados do país, que pratica, há décadas, um jornalismo investigativo aguerrido, corajoso, consagrando-se por premiadas reportagens sobre a violência policial e o tráfico carioca; um profissional que sem jamais curvar-se ideologicamente à “linha” da Vênus Platinada, é admirado por jovens e adultos e esteve à frente de uma das raríssimas inovações jornalísticas realmente interessantes na TV brasileira nos últimos anos.

Mais do que isso: a importância que enxergo no gesto de Caco vem de uma contundente denúncia contra práticas recorrentes da mídia ser vocalizada por um profissional inserido e atuante no meio, por alguém “de dentro”.

Pois os protestos contra as condutas da mídia brasileira – e a certeza de que têm constituído uma afronta ao avanço da democracia no país -, embora mova um contingente cada vez maior de cidadãos e cidadãs, na internet e fora dela, continua enfrentando tanto a resistência de setores corporativistas quanto as reticências de uma maioria alienada.


Ilusão multiplicadora

Não admitir isso, e deixar-se iludir pela ilusão multiplicadora da internet, seria incorrer em uma das mais perigosas ilusões da política: a subestimação do real poder do inimigo. É, portanto, mister reconhecer que o poder da mídia segue enorme – talvez não tenha, como as últimas eleições o demonstram, o poder mobilizador e manipulador que teve no passado, mas, no cotidiano, segue pautando a atenção de milhões de brasileiros, os quais não só estão longe de questioná-la, mas cultuam e prestigiam o universo midiático.

E não me refiro apenas aos vastos estratos médios que, historicamente, mantêm-se à mercê da indústria cultural e da inconsciência política. Devido a questões profissionais, convivo com estudantes e professores de comunicação, bem como com muitos artistas (notadamente, cineastas e músicos). Mesmo entre esses setores, que deveriam supostamente procurar ter uma percepção mais apurada acerca de sua área de trabalho (em um caso) ou do país que pretendem tematizar (em outro), o contingente de pessoas completamente alheias ao que ora se passa na mídia brasileira – e em suas relações com a política – é enorme.


Sair da modorra
O fato de que a crítica à mídia confunde-se com a militância de esquerda e de centro-esquerda aumenta as reticências e a precaução de muitos, e é nesse sentido que a posição de uma figura como Caco – e de seus iguais – tem uma importância inestimável, por produzir uma crítica à mídia a partir da própria mídia em que muitos insistem em acreditar. (Sendo que a vergonhosa censura que o corte imposto pela emissora encarna só faz potencializar a veracidade da crítica.)

Pois à medida que mais e mais profissionais do jornalismo, nas redações, nas universidades, na mídia em geral, saírem da comodidade e da inconsciência e passarem a denunciar o atual estado de coisas da área, mais setores sociais alheios a tal realidade tendem a se conscientizar.


(Foto retirada daqui)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A imperdível volta de Fernando Morais a Cuba

É uma leitura fascinante a que nos oferece o último livro de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras).

A pretexto de retratar a infiltração de agentes castristas entre as organizações terroristas mantidas, em Miami, por cubanos no exílio, o livro oferece um saboroso painel humano e uma introdução realista ao complicado xadrez geopolítico jogado por Cuba e EUA nos estertores da Guerra Fria.


O resultado é um exame aguçado das relações entre o país caribenho e a então maior potência mundial durante o chamado “período especial”, nos anos 90 - em que, ante o colapso soviético, Cuba teve de se reinventar como atração turística internacional para salvar sua economia.

Apoiado em farta documentação, a obra reconstitui a escalada da violência anti-castrista, baseada em violação sistemática do espaço aéreo cubano (para fins propagandísticos ou por mera provocação) e em ataques terroristas a alvos turísticos, visando espalhar o pânico e minar o fluxo de capital estrangeiro na ilha – tudo sob o silêncio cúmplice dos EUA. (Visto sob a perspectiva histórica pós-11 de setembro, o alerta de Fidel Castro a Clinton de que tais ataques tinham de ser combatidos, pois no futuro qualquer país poderia ser vítima deles, soa não só premonitório, mas como mais uma evidência da leniência dos EUA com sua própria segurança interna).


Ápice formal
Aos 65 anos, o escritor mineiro radicado em São Paulo, autor de best-sellers como Olga (1985) e Chatô, o Rei do Brasil (1994), atinge, em termos formais, seu melhor nível, dotando a narrativa de uma estrutura inteligente, cinematográfica, com um começo arrebatador e uma tensão permanente a perpassá-la - além de impagáveis incursões ocasionais ao humor, como na
caracterização pícara de Gabriel García Márquez como dublê de diplomata internacional.

A artificialidade de tais estratagemas, no entanto, jamais se evidencia como tal, encoberta por uma aparência de objetividade jornalística e mitigada por um texto informativo porém escorreito, que flui com rapidez. Não obstante tais qualidades, por diversas vezes a narrativa produz sentidos epifânicos que se projetam para além da superfície do texto.

O capítulo em que se fornece um retrato do lúmpen terrorista Cruz Léon a partir de sua obsessão pelo Silvester Stalonne do filme O Especialista (1994) é, a despeito da objetividade do texto, um primor nesse sentido, resultando em um pequeno ensaio sobre a banalidade do mal através da ligação entre a ideologia belicista hollywoodiana, a trip egóica de um jovem segurança
de boate e a desfaçatez com que este perpetua, por algumas centenas de dólares, uma série de atentados terroristas – que acabam resultado em dezenas de feridos e na morte do turista italiano Fabio Di Celmo.

Mesmo estudiosos de Cuba familiarizados com os principais livros publicados sobre a ilha em inglês, espanhol ou português terão, através da nova obra de Morais – a segunda sobre Cuba, depois do seminal A Ilha (1976) -, uma visão diferenciada da relação entre o poder castrista, o terrorismo cubano made in Miami e os EUA. Isso se deve, sobretudo, ao acesso privilegiado a fontes cubanas, a entrevistas exclusivas com protagonistas do período e ao tratamento criterioso que Morais dispensa às evidências materiais.


Direitos Humanos
Embora não esteja entre as principais temáticas do livro, o bloqueio dos EUA a Cuba (no período em questão, agravado pelas improcedentes e insensatas medidas de endurecimento impostas por Clinton) evidencia-se, uma vez mais, como um ato covarde contra um país e um povo vítimas de uma privação material longa e despropositada, a qual constitui uma grave violação dos direitos humanos.

Que tal constatação não justifica a violação de tais direitos por parte do governo cubano é um fato que não a torna perdoável ou menos grave, ainda mais se se leva em conta o disparate de forças em conflito. Tal assimetria se evidencia a todo instante em Os Últimos Soldados da Guerra Fria, notadamente na diferença de postura de cada um dos dois governos ante os acontecimentos e durante as tratativas diplomáticas.


O autor constrói, assim, de forma indireta, por contraste e sem enunciá-la explicitamente, uma denúncia contra uma das mais perversas manifestações de imperialismo ao final do século XX: aquela que opôs uma então toda-poderosa potência militar e econômica a uma ilhota que ousou livrar-se do jugo das potências capitalistas e adotar o socialismo. Não há como não ter lado
nessa história.


Reportagem de fôlego

Além de todos os atrativos que o livro oferece para o público em geral, ele deveria ser adotado e estudado nas faculdades de Jornalismo do país, pois oferece o equivalente a um curso de como pautar, pesquisar, alinhavar dados e redigir uma reportagem de grande fôlego, um subgênero que as atuais condições materiais da imprensa parecem sempre prestes a extinguir.

A história verídica que Os Últimos Soldados da Guerra Fria conta acaba por atingir, ao final, uma grandiosidade épica que nos leva a refletir sobre os aspectos grandiosos e mesquinhos da política, os limites entre a ética pessoal e o comprometimento ideológico, a essência do mal, e a odisseia de batalhas, criatividade e sobrevivência que forma a essência da história da Cuba socialista.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali, de lá e dacolá.)

domingo, 2 de outubro de 2011

Bündchen e o comercial machista

Segue causando polêmica o comercial da lingerie Hope estrelado por Gisele Bündchen, contra o qual a Secretaria de Políticas para as Mulheres de entrou com processo ético junto ao Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária).

Polêmicas desse tipo, no Brasil atual, costumam gerar debates cada vez mais intensos, por duas razões básicas: a primeira é o dado político-partidário de que a ação do governo pode ajudar os esforços oportunistas da oposição para pespegar-lhe o rótulo de censor, como forma de impedir qualquer regulamentação do setor de comunicação. Trata-se de uma falsa polêmica, já que o Conar não pode proibir nada, mas tão-somente recomendar a agência e emissoras a não-veiculação do comercial.

A segunda e bem mais importante questão é que, à medida que se avançam (ainda que timidamente) costumes, propostas e legislações referentes às questões de gênero, o embate entre seus defensores e os que as associam negativamente ao politicamente correto - o qual veem como cerceador da liberdade de expressão – torna-se mais intenso. Nesse cenário inflamável, questionar um “simples comercial” sugere e deflagra intransigências.

Mas o comercial da Hope é sim sexista e ofensivo (confira a descrição crítica do blog do Chico Bicudo) - e muito mais do que os comerciais de lingerie de ordinário o são. Logo da primeira vez que o vi fiquei perplexo de não estar havendo reação na blogosfera engajada (ela viria dias depois).

Não que eu concorde que a exposição do corpo feminino de forma sensual (ou mesmo erótica para fins comerciais) seja necessariamente exploratória e degradante. Essa visão à la Andrea Workin do que seja a exploração do corpo feminino na pornografia acabou por degringolar numa ideologia anti-sexo que vem perpassando o feminismo institucional dos EUA nas últimas décadas, gerando uma mentalidade e um código de condutas altamente repressores da sexualidade da juventude norte-americana atual, com graves consequências formativas.

Infelizmente, tais correntes têm encontrado abrigo em setores do feminismo nacional, sob os auspícios de determinadas foundations. Porém a relação da mulher brasileira com seu corpo (e com seus regimes de exibição pública) é historicamente de outra natureza, bem como as raízes do feminismo brasileiro são outras – e me parece fundamental atentar para tais diferenças na discussão das questões de gênero em nosso país.

Isso posto, o que me parece grave no comercial não é a exposição do corpo de Gisele Bündchen de forma sensual, mas a transformação de tal exibição em moeda de troca por bens não-sexuais, como forma de reforçar a velha caracterização da mulher como um ser infantilizado e desastrado – pois incapaz de administrar suas contas pessoais e de dirigir um carro –, além de intrinsecamente dependente do homem –não só como o provedor do segundo cartão cujos limites ela também “estourou” e do carro que ela colidiu, mas, como fica implícito, de um salvo-conduto para continuar agindo de forma irresponsável sem assumir as consequências. Se isso não é machismo, eu sou o papa.

Mas o que poucos têm atentado é que o comercial é também sexista na caracterização do homem para o qual a modelo se sensualiza com a lingerie Hope. Ela, não contente em estourar os limites de seu próprio cartão de crédito, torra o dinheiro dele também, além de escangalhar com seu carro – e ao invés de se desculpar e combinar um meio de ressarcimento, limita-se a botar uma lingerie melhorzinha, fazer voz de criancinha e seduzi-lo, no melhor estilo cala a boca e...(sejamos polidos) beija. Em suma, ele é um zero à esquerda, que aceita passivamente tudo, escravo de seu próprio desejo sexual e incapaz de negociar limites, segui-los e cobrá-los. É de se questionar o que um mulherão como La Bündchen faz com um banana desses.

Porém, na atual lógica do sexo associado ao consumo – a qual o comercial da Hope açula – tudo faz sentido:o meninão paga para ter a bela mulher que compra com o sexo o direito de agir como a Lindsay Lohan depois da 19ª dose. Difícil imaginar uma publicidade negativa maior, que concebe a mulher como uma prostituta, o marido como um retardado, e as relações entre os dois como um mercado de carne.


(Man & Wioman in Cage (2001), de Jessica Renee Talley, retirada daqui)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A marcha dos hipócritas

O truque é manjado, mais velho que Ali Babá e os 40 ladrões: à falta de um projeto para o país, os setores conservadores, aliados à mídia corporativa, agarram-se a um denuncismo histérico, posando de paladinos da ordem e da moral e fazendo de tudo para pespegar no mandato federal petista a pecha de corrupto-mór.

Embora marota, trata-se de uma estratégia que tem potencial para calar fundo em parcelas do eleitorado, tanto naqueles cidadãos pouco informados dos meandros da política mas ciosos de sua própria moral pessoal quanto nos que adotam uma moral dupla, intransigente com a conduta dos homens públicos mas valendo-se rotineiramente de pequenos subornos e propinas no dia-a-dia.


Oportunismo
Qual o melhor momento para acirrar tais ânimos e consumar mais um lance no xadrez golpista do que o 7 de setembro, essa data historicamente vazia – onde se comemora mais um dentre tantos “acordos por cima” firmados por nossas elites, à revelia do povo -, mas impregnada de nacionalismo, sempre o melhor combustível para a manipulação dos sentimentos alheios para fins escusos, da qual não faltam exemplos históricos, do horror nazista aos milhares de jovens estadunidenses mortos anualmente nas guerras imperiais?

A “Marcha contra a corrupção”, convocada para hoje pela Juventude do PSDB, se insere precisamente no quadro acima delineado. O fato de contar com a difusão dos principais meios impressos do país e com o apoio da plutocracia conservadora – Firjan à frente – evidencia o conluio de interesses entre a direita e a mídia.


Mitos perpetuados
Além dessa marca de origem, a marcha distingue-se por duas características principais, as quais serão examinadas a seguir, que evidenciam se tratar de um engodo e de mais uma manipulação barata, com pendor eleitoreiro.

A primeira é a suposição de que a corrupção aumentou com a aliança petista atualmente no poder federal, quando ela ocorre, atualmente e há décadas, nos âmbitos municipais, estaduais e federal, em todos os partidos e - muito importante, mas comumente negligenciado - açulada pela corrupção ativa dos entes privados, os quais, graças à hegemonia de um ideário liberal torto, têm sido poupados pela mídia e pelas campanhas de moralização que, como essa tal marcha, ocorrem de quando em quando.

A corrupção é um problema estrutural do país e que deriva do próprio processo, acima referido, de sua independência de Portugal, da abolição tardia da escravidão e, sobretudo, de décadas marcadas pelo poder de uma elite predatória no poder, na maior parte do tempo sob o jugo do autoritarismo – combinação ideal para o assalto aos cofres públicos e as negociatas, longe das lentes da imprensa, manietada, e do interesse dos órgãos de investigação, cerceados.

O que acontece hoje no Brasil, em âmbito federal, é o oposto disso, com a Polícia Federal e o Ministério Público investigando a fundo, com inédita liberdade de atuação e quadros ampliados, a série de denúncias de corrupção. Vem daí muito da sensação de corrupção generalizada – impressão açulada pela cobertura tendenciosa e muitas vezes irresponsável que a imprensa tem dedicado a tais investigações, visando amplificar a sensação de corrupção mas sem a preocupação de identificar, por um lado, as cores partidárias dos acusados, e, por outro, deixando de reconhecer o rigor investigativo dos órgãos federais.


Omissão no poder
Não se viu um átimo de tal furor investigativo quando o PSDB estava no poder – embora denúncias não faltassem, a começar da alegada compra de votos de deputados para garantir a possibilidade de reeleição a FHC. Além do enxugamento da máquina estatal ter minado os próprios quadros investigativos federais, o desinteresse dos ora moralistas de investigar a corrupção era tamanho que o chefe da Procuradoria foi apelidado de Engavetador-Geral da República.

Sem deixar de ter laivos de comicidade, a segunda característica da enganação que é o evento para hoje convocado vem exatamente de tal contradição: do fato de ter sido armado pelo PSDB, partido que, com Fernando Henrique na Presidência, se manteve oito anos a cargo de um irresponsável processo de privatização do Estado e dos bens públicos brasileiros cujo resultado não foi a redenção econômica prometida, mas a quase-bancarrota, só evitada pelas três visitas, pires à mão, ao FMI.


Esqueletos no armário
Pior: tratou-se de um processo feito, nas palavras autorizadas de um de seus protagonistas, “no limite da irresponsabilidade”, cujas sujas entranhas estão prestes à vivissecção, através do livro do premiado jornalista Amaury Ribeiro Jr., Privatas do Caribe, que promete trazer não só a farra com dinheiro público do tucanato ora moralista, mas a denúncia de um esquema de espionagem envolvendo José Serra, candidato peessedebista duas vezes derrotado à Presidência.

Somem-se a tais evidências as dezenas de denúncias contra a gestão paulista do PSDB - que, sob o silêncio cúmplice da mídia, não são jamais apuradas -, e a conclusão inevitável é que tal partido não tem condições morais de liderar o que quer que seja contra a corrupção. Muito pelo contrário: além de um projeto que supere o mero neomoralismo, ele deve ao país explicações e desculpas.


(Foto da Procissão dos Palhaços, no México, retirada daqui)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Dirceu e o jornalismo de arromba

Confesso que não simpatizo com José Dirceu. No período em que foi Chefe da Casa Civil exalava prepotência, tornando-se, a meu ver, uma das figuras públicas mais arrogantes que conheci em meus 44 anos de vida, rivalizando com certos ministros da ditadura (o José Serra da época das últimas eleições acabaria por superá-lo com folga).

Vou além: eu não compraria um carro usado de José Dirceu. Tenho claro, no entanto, que as minhas impressões pessoais sobre ele e a desconfiança que a recusa em dele comprar um carro assinala pertencem à esfera subjetiva e não me autorizam a imputar-lhe nenhum ato ilegal ou a prejulgá-lo um criminoso.


Intransigência e radicalização
Vivemos, no entanto, uma era de radicalizações: “quem não está conosco está contra nós”, parece ser o lema de todas as facções da microguerrilha política na internet. Em tal ambiente, grassa a mistificação: quem questiona se Belo Monte é mesmo o horror que alguns apregoam é carimbado como nada menos do que genocida, numa reação que revela não só o desconhecimento do significado do termo mas a desonestidade intelectual de sugerir que para a construção da usina os índios serão assassinados; quem revela o absurdo de uma revista semanal alegadamente violar não só as regras do bom jornalismo, mas do Código Penal, é acusado de defender Dirceu.

Ora, e se de defender Dirceu se tratasse? Há alguma lei que o proíba, algum interdito secreto que o tenha tornado o único cidadão brasileiro que não pode ser defendido? No caso de Dirceu – e só no dele – o ônus da prova cabe ao acusado? Por que os outros envolvidos no mensalão e também formalmente denunciados – como o ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB) e o petebista Roberto Jefferson - continuam a ter livre-trânsito na mídia mas Dirceu só aparece no papel de Judas de Sábado de Aleluia?

Qual é o critério e o que está por trás de tamanha repulsa ao ex-Chefe da Casa Civil? Por que a necessidade de persegui-lo constantemente e neutralizá-lo como ente político? É preciso que todos os que testemunham a caça implacável da mídia a Dirceu, culminando (sic) com a reportagem de métodos reprováveis e de resultados pífios da última Veja, se façam tais perguntas.



Jornalismo de arromba
Apesar de, como já disse, não ir com a cara de Dirceu, de ter divergências com seu método-trator de fazer política partidária e com a realpolitik demasiado elástica que ele impôs ao PT quando no comando, como forma de levar Lula à Presidência (no que acabou bem-sucedido), parece-me evidente que ele já foi, há tempos, julgado e condenado. Não pela Justiça, como manda a Constituição, que esta ainda não se pronunciou, mas pela mídia.

E a imprensa não tem o direito de agir como Poder Judiciário e prejulgar e condenar quem quer que seja. A Constituição brasileira é clara: um cidadão só pode ser considerado culpado após sentença transitada em julgado. Ao contrário do que um certo populismo neoudenista crente das panaceias fáceis no estilo Lei da Ficha Limpa quer fazer crer, isso não é um sintoma de impunidade; pelo contrário, sinaliza maturidade democrática e respeito pelos trâmites legais constitucionais.

Porém, o que estamos vendo no Brasil, em âmbito federal desde a posse de Lula em 2002, é um desrespeito pelos trâmites legais institucionais par a par com o desvirtuamento da nobre função da imprensa de investigar e produzir denúncias fundamentadas. Substitui tal ação democrática da mídia uma atuação com tonalidades e métodos de gangsterismo, com verdadeiras quadrilhas repercutindo umas às outras os factoides mais improváveis e menos documentados, sempre sob um pronunciado – mas raramente assumido - viés político-partidário, inaceitável no jornalismo.

Arrombar portas é a mais bizarra, mas não a mais venal das práticas a tal jornalismo associadas. Sinaliza, no entanto, de forma clara, o ápice de um processo, a ultrapassagem de todas as barreiras de tolerância possível para com o desvirtuamento da imprensa corporativa no Brasil.


Basta!
Goste-se ou não de José Dirceu, é forçoso reconhecer que ele se tornou, com o episódio do último final de semana no Hotel Naoum, o maior símbolo dessa caça as bruxas desenfreada, com métodos inescrupulosos, promovida por uma imprensa que se pretende polícia, Ministério Público e juiz. Trata-se de algo inaceitável em um país que respeite o Estado Democrático de Direito. Está mais do que na hora de o governo, os partidos e, sobretudo, a sociedade botarem um fim nisso e exigir que a imprensa aja como imprensa, sob as leis de um estado democrático.

sábado, 20 de agosto de 2011

A faxina de Dilma

No Brasil, o moralismo foi sempre a principal – quando não a única – arma dos setores conservadores contra os governos progressistas. Está fresca na memória de todos a estratégia do demotucanato, em conluio com a mídia, durante os oito anos em que Lula ocupou a Presidência: um jogo de derruba-presidente alimentado por denúncias semanais de corrupção.

A prática é antiga, e, em maior ou menor grau, tanto o Getúlio Vargas eleito quanto Juscelino Kubitschek e João Goulart foram alvos de tais táticas - o primeiro tendo toda a imprensa contra si, à exceção da Última Hora de Wainer; JK atacado incessantemente por O Cruzeiro, David Nasser à frente, para quem Brasília era uma mera desculpa para engrossar a corrupção; e quanto a Goulart, basta lembrar que o combate à corrupção foi inúmeras vezes elencado por fontes militares e editoriais jornalísticos como uma das motivações centrais do golpe que o derrubara.


Denuncismo vazio
Não interessa, nesse denuncismo que ora tem no governo Dilma o seu alvo, se as denúncias procedem ou não. O objetivo não é a moralização do Estado ou de coisa alguma, como fica evidente pelo fato de que tanto a mídia quanto os partidos patrocinadores das denúncias se desinteressam pelos desdobramentos das investigações tão logo o personagem acusado deixa o governo.

Os objetivos - cujo fim último é, como os casos de Goulart e de Getúlio evidenciam, o golpe contra o presidente -, são outros:
1) Manter a opinião pública permanentemente indignada, com a certeza de que vive no mais corrupto dos países, e ora administrado pelo partido mais vil e pelos mais degenerados dos políticos.
2) Impor sucessivos cortes à equipe governista, estreitando sua margem de quadros e de manobras e, ao mesmo tempo, minando suas relações com os partidos da base, que não gostam de ter seus indicados forçados a deixar os cargos.


Dilma na mira
Filiam-se à mesma estratégia golpista acima descrita as denúncias de corrupção contra o governo Dilma, ininterruptas desde fevereiro e que já custaram o cargo de quatro ministros. A diferença, agora, é a postura da presidente. Ao invés de denunciar a estratégia midiática, como Lula fazia, ela não só tem se deixado pautar pela mídia mas, ultimamente, vem aceitando o apoio de cardeais tucanos para a sua “faxina”.

Ora, é preciso uma enorme dose de ingenuidade para não se aperceber dos riscos que tal estratégia traz consigo. Em primeiro lugar, nenhuma expertise é requerida para se dar conta de que uma matéria com FHC e Dilma na foto, o primeiro saudando o combate o combate à corrupção promovido pela presidente, leva diretamente ao legado de outro ex-presidente, ausente na foto: se há corrupção a ser combatida e este combate é apoiado até por FHC é porque Lula a deixou, eis a dedução lógica.

Além disso, a mídia demotucana já se deu conta - graças, entre outros fatores, à repercussão do desempenho da Polícia Federal no governo Lula - de que a opinião pública não tende a associar o aumento de investigações sobre corrupção ao combate desta - pelo contrário. O mito acachapante de que durante a ditadura militar praticamente não havia corrupção alimenta-se precisamente desse paradoxo: como não se podia noticiar a corrupção é como se ela não existisse. De forma inversa, a impressão, amplamente difundida em certos estratos, de que os governos Lula e Dilma são extremamente corruptos viria justamente da profusão de denúncias averiguadas e de anúncios de investigações em curso.

Refém em potencial

Por fim, parece evidente que esse apoio público de setores conservadores à “faxina” promovida por Dilma vai retroalimentar e hiperdimensionar o tal combate à corrupção, e que a mídia, a cargo de pautar e ditar o ritmo de ação da “limpeza”, pode levar o governo a uma situação de suscetibilidade, tendo de cortar na carne seus quadros no Executivo, gerando atritos cada vez maiores com a base aliada e tornando mais vulnerável a própria autoridade presidencial.

É urgente, portanto, que Dilma Rousseff repense os termos de sua relação com a mídia e com a oposição, de modo a abrir mão do populismo neoudenista implícito no conceito de “faxina” contra a corrupção (sem abrir mão do combate a esta) e sem se deixar pautar. Do contrário, a possibilidade de se tornar refém da agenda tucano-midiática é real.



(Foto de Jânio Quadros retirada daqui)

domingo, 14 de agosto de 2011

Haddad e as eleições paulistanas

As eleições para a Prefeitura de São Paulo, que ocorrerão no ano que vem, têm uma importância especial, que transcende o poder de comandar a maior cidade e o sexto maior orçamento do país: estará em jogo não só a manutenção ou a quebra da hegemonia demotucana no estado – prestes a completar duas décadas -, mas a movimentação de peças decisivas no xadrez eleitoral presidencial.


Demotucanos em guerra
O campo governista mostra-se, ainda e uma vez mais, preso da rivalidade entre o governador Alckmin e José Serra, este insistente em sua obsessão pelo caminho mais curto à Presidência, escoltado por seu pupilo Kassab (agora a bordo do PSD, partido que nem o mais experimentado dos analistas políticos tem sido capaz de dizer a que realmente veio).

As últimas sondagens internas indicam que Serra, pesquisas à mão, teria desistido de sair candidato, mas não se pode descartar de pronto sua candidatura, nem a inacreditável possibilidade de os paulistanos voltarem elegê-lo, mesmo após ter largado a Prefeitura para candidatar-se a governador, e o governo para concorrer à Presidência – e de estar claramente disposto a fazer o mesmo percurso de novo.

Por outro lado, com Serra lame duck, fragilizado por duas derrotas eleitorais, e com os índices de aprovação do atual prefeito Kassab em queda livre, o petismo enxerga nas eleições municipais uma grande oportunidade de ampliar ainda mais o raio de seu poder e de penetrar no bastião demotucano, conquistando uma posição privilegiada para influir nas eleições ao governo estadual e à Presidência em 2014.


Petismo entre a inovação e a experiência
O dilema central do PT concentra-se em apostar no novo ou insistir com candidatos mais experientes, conhecidos dos paulistanos, mas com histórico de derrotas em eleições majoritárias. É este o caso tanto de Aloizio Mercadante, 57 anos, atual ministro da Ciência e Tecnologia e um dos quadros mais preparados do partido, com sólida formação em Economia, quanto da senadora Marta Suplicy, 66 anos, que governou a cidade entre 2001 e 2005, com avanços nas áreas sociais, inédita atenção às periferias, caos nos transportes urbanos por conta de quedas-de-braço com empresários do setor e uma perseguição implacável por parte da mídia corporativa paulista. Ao tentar a reeleição, mesmo recebendo 2,7 milhões de votos, foi derrotada por José Serra no segundo turno; quatro anos depois, perderia para Kassab. Já Mercadante, não obstante a expressiva votação conquistada, perdeu as duas últimas corridas ao Palácio dos Bandeirantes.

A nova face do petismo em São Paulo, por sua vez, vem representada pelo ministro da Educação Fernando Haddad. Mais acostumado a contribuir com o partido com a produção de análises conjunturais do que através do exercício da política partidária, esse intelectual multidisciplinar (é graduado em direito, mestre em economia e doutor em filosofia, tendo publicado vários livros) destacou-se como uma quase-unanimidade positiva no governo Lula e manteve-se em alta na atual administração. Articulado, com pinta de bom moço, goza ainda do privilégio de ser o candidato preferido do ex-presidente. Aos 48 anos, mesmo que não venha a vencer as eleições, ganharia projeção e cacife para futuros pleitos.


Aposta e risco
Não é, no entanto, desprovida de riscos a candidatura Haddad. De início, é claro, aquelas relativas à sua estreia em eleições: a necessidade de criar empatia, o traquejo para fechar acordos, o estabelecimento de uma química de confiança com o eleitorado. Na semana passada começaram as rondas por bairros periféricos da capital e o candidato teria demonstrado não conhecer as lideranças locais, as quais é praxe chamar pelo nome. Enfim, nada que dedicação, intuição e uma boa equipe de marketing político não possam resolver.

Há ainda um paradoxo que perpassa a candidatura do ministro a prefeito e ao qual não se está dando a mínima atenção: a cidade de São Paulo, que conta com a USP e com a maior e melhor rede de ensino pago do país, é não só onde menos se vê os frutos da gestão Haddad, como um dos principais endereços da classe média conservadora e radicalmente neoliberal. Se se precisa conquistar parcelas desse eleitorado para vencer o pleito, como as projeções sugerem, um candidato que representa - ou durante um bom tempo representou - o investimento estatal maciço em educação talvez não seja a melhor opção petista.

Mesmo a medida populista, mal-explicada e desprestigiosa para a universidade brasileira de mandar, em conluio com a iniciativa privada, 75.000 estudantes bolsistas para frequentar sabe-se-lá-quais instituições internacionais não parece ter potencial de impressionar o jovem reacionarismo paulistano.


Os efeitos do fiscalismo
Mais grave, não se está prestando a devida atenção à possibilidade de que questões potencialmente bem mais danosas à candidatura possam advir do único legado que Haddad tem para sustentar seu projeto político: sua gestão no MEC.

Há desde questões pontuais, aparentemente comezinhas - como o veto ao ensino de História da África nas escolas de segundo grau, capaz de gerar a animosidade dos movimentos negros e de setores do professorado - até problemas potencialmente desastrosos, sendo quase certo, por exemplo, que as confusões que envolveram o ENEM, com vazamento de dados sigilosos e com provas apresentando problemas, sejam explorados à exaustão e ponham em questão a capacidade gerencial de Haddad. Mas esta é uma reação esperada, um risco calculado.

Porém, aquilo que pode se voltar com mais força contra a candidatura é justamente o que poderia ser considerado um dos maiores legados do ministro: a extraordinária expansão da universidade brasileira durante a última década. Pois acontece que o que deveria ser motivo de júbilo e prestígio eleitoral - ainda mais por se dar após o governo FHC, que tentou destruir a universidade brasileira – encontra-se, neste momento, por conta do rigoroso aperto fiscal adotado pelo governo Dilma Rousseff, sob risco de sucateamento (“aqui tudo parece que é ainda construção, mas já é ruína”, diz a canção).


Prato cheio para a oposição
É difícil acreditar que a oposição perderá a oportunidade de demonstrar ao eleitorado que, ao invés de contratar professores doutores e mestres, como é padrão internacional seguido pelas federais, tais unidades, assim como boa parte do PROUNI, vão ser tocadas por professores temporários – uma categoria ainda mais aviltada que a de professor substituto, com regime trabalhista precário e salário vergonhoso; que ao aumento exponencial das vagas para alunos não corresponde o aumento da contratação de docentes; que a terceirização e o déficit de funcionários grassam.

Do mesmo modo, os entraves para a compra de equipamentos e constituição de bibliotecas tende a ser explorado, assim como a insatisfação dos funcionários – que, aliás, neste momento se encontram em mais uma daquelas greves que a mídia não noticia (no que tem sido seguida pelos blogs chapa-branca).


Prioridade à educação?
Resta pouco mais de um ano até as eleições de 2012. Haddad pode vir a ser um candidato forte, com um potencial eleitoral que talvez nem Marta nem Mercadante possam, neste momento, aspirar – além de contar com a preferência de Lula, reconhecidamente um ás na arte da política, e que parece disposto a lutar por seu pupilo.

Mas é preciso que, até lá, as superlativas potencialidades evocadas pelas gestões de Haddad deixem de ser quimeras no papel e se concretizem na forma de um salto efetivo de qualidade e quantidade de oferta do ensino no Brasil. Para isso, é preciso superar o fiscalismo tacanho, neoliberal e mais realista que o rei que tem caracterizado a presidência de Dilma Rousseff e fazer com que a prioridade à educação anunciada na campanha e corroborada no discurso de posse dê o ar de sua graça e torne-se um fato.


(Foto retirada daqui)

domingo, 7 de agosto de 2011

Assalto ao Banco Central: falta emoção ao thriller

Assalto ao Banco Central vem competindo com blockbusters do cinema norte-americano não só na bilheteria mas na alta resolução técnica, verificável sobretudo no admirável desenho de som. Poderia, além disso, ser um bom filme e um entretenimento de primeira linha.

O que impede que o longa nacional logre tal sucesso é, acima de tudo, a “Síndrome de Tarantino”, a mania de fragmentar excessivamente o roteiro em avanços e retrocessos na narrativa - que, embora não tenha sido inventada pelo diretor de Pulp Fiction, tornou-se marca recorrente de contemporaneidade após o sucesso mundial de seus filmes.

Tal recusa à narrativa cronológica linear, somada ao artificialismo e falta de fluência da montagem, cobra um alto preço ao filme dirigido por Marcos Paulo, tendo como principal efeito o engessamento e esvaziamento emocional da narrativa – algo extremamente danoso para um pretenso thriller.

Deve-se registrar, a favor dos roteiristas, que a transposição às telas do maior roubo já ocorrido em solo nacional colocava uma relevante dificuldade inicial: o público estava ciente de que a operação fora bem-sucedida, não haveria como surpreendê-lo por aí. Ainda assim, se, ao invés de macaquear a fragmentação narrativa pós-moderna, os roteiristas de Assalto ao Banco Central prestassem mais atenção a filmes clássicos sobre roubos – como O Segredo das Jóias (The Asphalt Jungle, John Huston, EUA, 1950) ou O Grande Golpe (The Killing, Stanley Kubrick, EUA, 1956) -, ou mesmo a passáveis thrillers recentes – como Um Plano Brilhante (Flawless, Michael Radford, Reino Unido/Luxemburgo, 2007), em que Demi Moore e Michael Caine assaltam milhões em diamantes nos anos 60 – talvez se dessem conta da primazia do suspense e da emoção numa narrativa com tal tema.

Ao negligenciarem tais aspectos em prol de uma roupagem moderninha, fazem uma abordagem rasa de um tema profícuo, um roubo que, em plena era da vigilância eletrônica, levou R$160 milhões dos cofres federais – dos quais, a despeito da prisão da maioria dos envolvidos, só R$ 24 milhões foram recuperados. Tal trama real que tem não só desdobramentos dignos de grande história, de um thriller vibrante, mas evidente potencial metafórico, um ethos inerente à ação e seus desdobramentos, tanto no que concerne à denúncia do grau de deterioração moral de nossa sociedade – incluindo, com destaque, escalões do poder e autoridades policiais – quanto, em um âmbito mais amplo, ao velho embate entre a cobiça humana e mecanismos sociais de controle do capital.

Tudo isso fica, na melhor das hipóteses, apenas insinuado em Assalto ao Banco Central, caso típico de filme em que o elenco está muito acima da mise en scène, desperdiçado em uma representação por demais esquematizada: Lima Duarte e Giulia Gam estão soberbos como os policiais federais caxias e honestos; a trupe dos bandidos é reforçada por atores de grande personalidade cênica – como Gero Camilo e Tonico Pereira -, e, uma vez mais, Hermila Guedes (de Um Céu de Suely) rouba a cena, desta feita como a femme fatale gerando tensões no interior do bando. Além, é claro, do protagonista Milhem Cortaz – uma espécie de Victor Mature brazuca - como o implacável Barão, retrato de um bandido tão assustador quanto, por suas ligações com o poder oficial, real e convincente.

Após a experiência morna de assistir a Assalto ao Banco Central, resta aguardar pelo documentário sobre o roubo, a ser lançado por Luciana Burlamaqui, que teve acesso às investigações e tem horas e horas de material gravado, conforme anunciado pelo ótimo blog do crítico Carlos Alberto de Mattos. Não será surpresa se o resultado do doc superar o da ficção milionária.

sábado, 23 de julho de 2011

Amy e a sociedade da insatisfação permanente

Ainda que soe chocante tal afirmação, seria inexato dizer que o anúncio da morte de Amy Winehouse surpreendeu as pessoas – as inúmeras e frequentes recaídas, as rehabs mil, e o estado físico e psicológico da cantora sugeriam que esse seria um fim provável, ainda que talvez não se esperasse que ocorresse tão cedo.

Mas o fato choca, é claro, pelo que diz sobre os tempos atuais, sobre a interrogação que nos lança a respeito do que nos transformamos enquanto sociedade, sobre a banalidade da vida em uma era em que o consumo de tudo – bens materiais, drogas, fama, embelezamento artificial – tem de ser intenso e insaciável, mesmo que o preço a pagar seja a própria vida.


Comparações
Nas redes sociais, neste momento, chovem comparações entre a cantora e a tríade de jovens mártires da contracultura formada por Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix – os “meus heróis morreram de overdose” a que se refere Cazuza, outro que cedo nos deixou.

Ainda que as drogas tenham desempenhenhado um papel fundamental em todas essas mortes (incluindo a de Amy, mesmo que a causa mortis venha a ser outra), não parece uma comparação procedente: as mortes dos três músicos dos anos 60 derivam de um mergulho tão desmedido quanto apaixonado num novo modo de vida, anticapitalista, comunitário, em que a primazia do econômico e do racional desse lugar ao cósmico, ao energético, ao intuitivo. E é justamente como meio de intensificação de manifestação destas forças (hoje novamente subvalorizadas) que as drogas - como “expansoras da consciência”, segundo o mote do “papa do LSD”, Timothy Leary -, tiveram então um papel central.



The dream is over
A tragédia maior da morte da tríade de músicos deriva, portanto, justamente da desmistificação não só do poder social das drogas, mas, em um nível muito mais profundo, da evidência da inviabilidade do projeto contracultural de transformação do mundo que Janis, Jimi e Morrison representavam.

“O sonho acabou”, decretaria John Lennon algum tempo depois, relegando os anos 60 – que o crítico neomarxista Fredric Jameson definiu como um período marcado por “uma imensa e inflacionada emissão de crédito superestrutural” - a objeto de culto de jovens de todas as idades, saudosos do que não viveram.

Porém, ainda que os neocons torçam o nariz e que os mais sensíveis se espantem com a comercialização de camisetas de grife com a face de Che Guevara estampada, o legado dos anos 60 permanece como força ideológica e política, como eventos tão díspares como a campanha presidencial de Obama e as novas relações trabalhistas adotadas por algumas das mais avançadas e bem-sucedidas empresas do mundo o demonstram.


Sob a marca do efêmero
O triste fim de Amy Winehouse, cantora de talento evidentíssimo, voz e técnica vocal únicas e excepcional presença de palco, pertence a outro âmbito, o do niilismo e da falta atual de perspectivas, no marco da passagem de “de uma sociedade da satisfação administrada para uma sociedade da insatisfação administrada”, na qual, ante a satisfação de um desejo, a recompensa do ego é tão fugaz que, mal consumado, outra demanda é imediatamente colocada, e assim sucessivamente – como diagnostica Vladimir Safatle, em sua releitura de Lacan. Amy, vida e morte, é só a parte visível de um amplo e preocupante fenômeno, cuja principal vítima é a juventude.

Deriva dessa toada a talvez mais chocante constatação ante a morte da cantora: faz só oito anos que, discretamente, o álbum Frank foi lançado, e três que o sensacional Back in Black chegou às lojas, transformando-a definitivamente em um fenômeno midiático, arrebatando legiões de fãs e fazendo com que seu visual fosse copiado por adolescentes de todo o planeta.

Talvez seja por isso que, embora Amy Winehouse nos deixe aos 27 anos de idade, a impressão é a de que morre uma adolescente. O que traz toda a sensação de desperdício e de necessidade de reflexão social que uma tal perda acarreta.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Meia-noite em Paris, meio-dia na alma

A fase internacional de Woody Allen, que se inicia com o thriller classudo Match Point, logo após uma trilogia de filmes que representou o ponto mais baixo de sua carreira, evidencia, a um tempo, uma capacidade única de abordar com leveza e humor temas universais e, a despeito de seu cosmopolitismo – ou justamente por causa dele-, uma percepção aguda e irônica das particularidades dos locais-temas de suas novas produções, sejam Paris, Barcelona (Vicky Cruistina Barcelona) ou Londres (além de Match Point, a subvalorizada comédia Scoop e o surpreendente Você vai conhecer o homem dos seus sonhos).

Com seu novo filme, Meia-noite em Paris, ocorre, porém, algo mais: como evidenciam os deslumbrantes cinco minutos iniciais – compostos de tomadas plásticas da cidade-luz, de dia, à noite, de grandes bulevares e de pequenas vielas, de cartões-postais e de endereços anônimos, sempre sob um jazz orquestral dos anos 20 – a cidade de Paris é a principal personagem do filme.

Para dar conta de tão fascinante tema, o diretor promove uma incursão estética, sentimental e cultural à capital francesa, em diálogo, a um tempo, com a riqueza de seu passado e com a unicidade de seu fascínio eterno.

Para tanto, a exemplo do que fizera em Rosa Púrpura do Cairo e em Desconstruindo Harry, o diretor novaiorquino vale-se do fantástico. Pois, a partir do momento em que um escritor californiano em crise, Gil (um surpreendentemente sóbrio Owen Wilson), perdido e ébrio numa madrugada parisiense, embarca num calhambeque Peugeot, é transferido para o passado dos seus sonhos, onde passa a conviver com Scott Fitzgerald, a disputar o amor de uma parisiense com Hemingway, a ter seus escritos revistos por Gertrude Stein e a manter diálogos surreais com os jovens Man Ray, Buñuel e Dali (papel no qual Adrien Brody quase rouba a cena, confirmando o grande ator que é).

Ao contrário do que ocorre com alguma frequência em se tratando de Woody Allen, as piadas de Meia-noite em Paris não soam como sketches postiços adaptados à trama, mas retiram sua graça de elementos a ela próprios (como quando Gil sugere a Buñuel um filme no qual os personagens, convidados para um jantar, não conseguissem deixar a casa do anfitrião – sugestão a qual o futuro diretor de O Anjo Exterminador reage com atônita perplexidade).

Woody confirma, uma vez mais, seu incrível faro para boas atrizes no auge do sex appeal, habilidade que se evidenciara em sua carreira diversas vezes antes, com Mira Sorvino em Poderosa Afrodite, com Charlize Theron em Celebridades, Drew Barrymore em Todos dizem eu te amo e, sobretudo, com Demi Moore e Elisabeth Shue em Desconstruindo Harry. Em Meia-noite em Paris a escolhida é Rachel McAdams (de Sherlock Holmes e Díário de uma paixão), a fútil e esnobe noiva de Gil, a quem a câmera enfoca com avidez fetichista, incluindo uma tomada politicamente incorreta para flagrar o derrière da moça e seu rebolado ao caminhar.

Item sempre em destaque nos filmes de Woody, a música, onipresente, é quase uma protagonista a mais em Meia-noite em Paris. Seja no interior da trama (diegética), com Cole Porter ao piano ou Josephine Baker cantando, seja na trilha sonora que vai de Lucienne Boyer a charlestons; nos típicos acordeons da música popular francesa, em guitarras que promovem uma fusão do flamenco com o jazz, ou nas versões solo e orquestrais deste, a impressão que se tem é de uma seleção refinada do melhor da música produzida na Paris do início do século XX, em diálogo, contraponto ou reforço com o universo das imagens.













Em relação a estas, os que ainda alimentavam saudades do grande Carlo Di Ponti, responsável pelos filmes melhor fotografados de Woody – incluindo Todos dizem eu te amo, primeira incursão do diretor novaiorquino por cenários parisienses – têm agora um motivo de alento: a direção de fotografia do iraniano Darius Khondji (A Praia; Delicatessen; Beleza Roubada) dialoga com a tradição pictórica francesa e aposta em cores quentes – laranja e amarelo, notadamente - para a iluminação de rostos e corpos, de forma a destacá-los de um segundo plano escuro e”frio”, com tons predominantes de marrom e verde. O resultado é uma sinfonia visual de alto nível, que atinge seu ponto mais alto na ronda noturna de Gil e da musa dos vanguardistas Adriana (Marion Cottilard, cuja atuação é irregular).

Meia-noite em Paris é um filme para ser visto de bem com a vida, de preferência a dois, para, tal qual os personagens no filme, sair do cinema e continuar vivendo a atmosfera de romantismo e efervescência que Paris evoca e que contagia a todos na tela.


(Imagens retiradas,m respecrtivamente, de 1, 2, 3, 4, 5, 6)