sábado, 31 de julho de 2010

Lula e os apedrejadores

À medida em que o desespero e a certeza da derrota vão tomando conta dos tucanos e da mídia amiga, cresce o grau de apelação - e de irracionalidade. O último factóide, na base do “se colar, colou”, é a tentativa de culpar o presidente Lula pelo eventual apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma iraniana de 43 anos, mãe de dois filhos, por adultério.

Presa desde 2006, Sakineh foi inicialmente condenada a receber 99 chicotadas por alegadamente manter “relações ilícitas” com dois homens. Executado o castigo, ela viu-se submetida a uma nova pena, desta vez capital, pelo cruel método do apedrejamento: enterra-se o condenado na terra, só deixando a cabeça de fora, que é esmagada por pesadas pedras, atiradas de cima para baixo.


Barbarismo e crueldade
Trata-se, indiscutivelmente, de um caso que une, em grau superlativo, o conservadorismo sexual, a discriminação contra a mulher e a violação dos direitos humanos. De uma forma tal que um grande movimento internacional de ONGs – a bem da verdade, açulado, por questões geopolíticas, pelos EUA – tomou forma nos últimos meses.

Creio que não há como deixar de se solidarizar com tal causa, independentemente de simpatias políticas ou inclinações ideológicas. Corretismos multiculturais às favas, trata-se de um barbarismo, um anacronismo gritante em pleno séxulo XXI.

Isso posto, fica a pergunta: qual a responsabilidade de Lula pelo episódio? No raciocínio tucano-direitista, o fato de o presidente do Brasil ter sido um dos fiadores do acordo relativo à não-expansão do programa nuclear iraniano coloca as pedras na sua mão.


Simplismo desinformado
Trata-se não apenas de uma premissa absurda, mas de um raciocínio simplista e desinformado. Há limites claros às ações de presidentes no que tange a decisões judiciais de países soberanos, por mais absurdas que estas sejam. Lula governa o Brasil, não pode e não deve responder por assuntos internos de cada uma das dezenas de nações aliadas ao nosso país.

É esta, aliás, a prática internacional recorrente em termos de política externa. Para ficar em dois exemplos óbvios, nem mesmo casos gravíssimos como o massacre da Paz Celestial, na China, e a política belicista de Israel - que inclui ataques a barcos de civis e bloqueio de víveres e de assistência médica a palestinos - fez com que o Brasil (ou os EUA, ou as principais nações europeias) rompesse relações com tais países. Mas quanto a isso a mídia conservadora cala.

Essa prática institucionalizada no âmbito das relações entre nações soberanas não significa, evidentemente, que não se deva tomar atitudes quanto a tamanhos disparates. Há, porém, fóruns apropriados para fazê-lo. É, portanto, um total disparate acusar do crime cometido pela Justiça do país X o presidente do país Y (não sendo este uma potência imperialista).

De qualquer modo, pressionado nos últimos dias para tomar uma atitude, Lula, após justificar-se dizendo não poder interferir nos assuntos internos da Justiça de outro país – como visto, argumento irretocável, do ponto de vista da diplomacia internacional -, mudou de ideia e, quando o factóide já era martelado por jagunços da mídia e por políticos volúveis como Fernando Gabeira, resolveu oferecer asilo à condenada, declarando que “"nada justifica que o Estado tire a vida de alguém” e sustentando que “Se minha amizade com o presidente do Irã vale algo e essa mulher está incomodando lá, estamos dispostos a recebê-la no Brasil".

Infelizmente, é muito pouco provável que a oferta de asilo feita por Lula resulte efetiva. A Justiça iraniana é soberana e intrincada. Mesmo na remota hipótese de Mahmoud Ahmadinejad demonstrar bom senso e abraçar a oportunidade de fazer um aceno à comunidade mundial neste momento em que o país sofre sanções internacionais, teriam de ser vencidas outras barreiras internas para libertar Sakineh. Não é impossível, mas é difícil.


Imprensa sem rumo
Lula é macaco velho. Farejou que o factóide teria potenciais consequências eleitorais e fez o que está ao seu alcance. Sabe que nesse caso a emoção tende a sobrepor-se à razão – mesmo porque se esta prevalecesse e se não vivêssemos um período negro da mídia nacional, a imprensa sequer encamparia esse despropósito.

A torcida pela liberação da prisioneira iraniana, que une todas as pessoas de bem, não pode permitir que finjamos não ver o incessante linchamento moral - feito de deturpações, mentiras e previsões que não se realizam (como o alardeado terceiro mandato) - ao qual a mídia e o definhante PSDB continuamente submetem o governo Lula. Pois s maiores vítimas de tais vicissitudes são, em última análise, o eleitor e a verdade.

domingo, 25 de julho de 2010

A crise econômica na Europa e no Brasil

Quando a goiana Luzete Nascimento deixou o Brasil rumo a Portugal o Euro valia R$3,87. Após conseguir entrar na França clandestinamente, desembarcando no Charles de Gaulle mas deixando de pegar a conexão que a levaria a Lisboa, ela perambulou nas sombras, evitando autoridades e temendo a Imigração, cruzando fronteiras até chegar em terras lusas, onde reencontrou seus dois filhos, já não mais adolescentes.

Os primeiros tempos foram duros. De início, como fazia no Brasil, sobreviveu como faxineira – porém melhor remunerada. Depois foi camelô, enrabichou-se com um português com o qual aprendeu artes da cozinha e agruras do fogão; casou, descasou. Aos 42 anos passou a conseguir, pela primeira vez na vida, chegar ao final do mês no azul: abrira uma loja de lingerie, que prosperou ao mesmo tempo em que Portugal, ingressando na Comunidade Econômica Europeia, assistia ao maior e mais veloz crescimento econômico de sua história.

Há dois anos, porém, sobreveio a grave crise mundial trazida no bojo do estouro da bolha de hipotecas nos EUA. No início ela tentou resistir, tentou diversificar o mostruário, crente de que o mau momento se devia à concorrência com os chineses – que, segundo ela, vendem lingerie de péssima qualidade a 1 euro a peça.

Em vão. Cortou despesas, dispensou funcionários. As últimas esperanças, depositadas nas vendas de fim de ano, não lograram: estava pagando para trabalhar. Em fevereiro deste ano ela fechou as portas. Agora reveza-se entre as casas dos filhos, esperando a poeira baixar para começar de novo.


Cenário desolador
A história de Luzete é, com uma ou outra variação, recorrente em Portugal. Em Lisboa, as zonas comerciais ao longo da Beira-mar ostentam um número impressionante de portas cerradas em pleno dia, que conferem uma atmosfera um tanto lúgubre à bela capital, como se de um eterno pesar fúnebre se tratasse.

No Porto, ouvidos 17 comerciantes e prestadores de serviços da zona comercial do Bolhão, a estimativa média é de uma queda de mais de 30% nas vendas em relação a dois anos atrás – e isso em uma cidade que previa um crescimento substancial no afluxo de turistas, tanto pela posição estratégica que agora seu aeroporto possui – como uma das bases da companhia aérea de baixo custo Ryanair – quanto pelos investimentos maciços do Estado em publicidade dirigida a turistas da Europa setentrional.

Esses relatos, somados, entre outros tantos fatores, às violentas manifestações na Grécia e ao acirramento das greves na França e na Itália (onde cartazes de protesto como os que encimam ente post estão em toda a parte), evidenciam que a crise mundial, que se prolonga no tempo e, em diversos países, se aprofunda, está tendo para as populações desses países consequências de monta. Tanto mais porque redução de salários (como anunciava o jornal português Diário Econômico a semana passada), quebra dos contratos de aposentadoria, redução da seguridade social – enfim, o agravamento da ortodoxia neoliberal – são, até agora, o remédio anunciado. Algo como receitar morfina para desintoxicar um viciado.


Brasil: só marolinha
Enquanto isso, no Brasil, as elites, a mídia que as vocaliza e um grupo de velhinhas de Taubaté e preconceituosos que não engolem Lula nem com desemprego a 7% fingem não se dar conta de que a ousadia de sua política econômica anti-recessiva e includente poupou o país das desventuras ora vividas nos EUA e no velho continente.

Estivéssemos sob o PSDB e sua obsessão pelo Estado mínimo, com cortes de gastos públicos e o que chamam pomposamente de “desinchaço da máquina governamental”, estaríamos agora repetindo o velho ritual de nos agachar, pires à mão, ante o FMI, recolhendo algumas esmolas salvadoras em troca do sacrifício dos estratos mais pobres da população.

Por isso é necessário refletir, para além das picuinhas e factóides da mídia, sobre qual é, de fato, o o fator essencial dessas eleições a oposição entre neoliberalismo e políticas econômicas includentes, entre recessão e desenvolvimentismo, entre o retorno a um modelo que faliu seguidas vezes o Brasil e outro que nos levou e nos têm mantido atrelados a uma fase de ouro de nossa economia.


(Foto tirada em uma rua do bairro de Aventino, em Roma)

domingo, 18 de julho de 2010

As férias dos homens bons

Nossa longa ausência deste blog, pela qual nos desculpamos, deveu-se a motivo dos mais nobres. Ao contrário de perigosos comunistas como uma certa @maria_fro – que veraneiam na primitiva África com a desculpa esfarrapada de fazer um documentário com o meu, o seu, o nosso dinheiro público – preferimos gastar o que sonegamos flanando pela bela Europa – burgo desenvolvido que, como ensina nosso ínclito guru Professor Hariovaldo Almeida Prado, é onde os homens bons e as mulheres boas passam férias.

Começamos por Portugal, país que, sem a mão firme de Salazar a guiá-lo, se afunda cada vez mais numa espécie de “populismo tecnológico”, proporcionando ao populacho trens-bala, energia eólica, redes públicas de wi-fi e uma série de benesses de direito exclusiva dos de boa estirpe e com as quais a plebe rude e ignara da península ibérica, cambaleante sobre seus tamancos, não está sequer preparada para lidar. Um horror.

Nossa segunda parada foi na Itália, lar de veneráveis homens bons como Nero, Mussolini e o nosso querido Berlusconi. Lá tivemos que nos misturar ao repulsivo populacho mediterrâneo, com seus batedores de carteira e mulheres de índole duvidosa, para ver não apenas os monumentos da antiga e saudosa Roma – onde , alvíssaras, senhores e escravos sabiam o seu lugar – mas grande obras do século passado, como o Monumento a Vittorio Emanuele II, pelo qual tenho especial predileção. É pena que, embora os italianos tenham aprendido a votar, deixando de lado as ilusões armadas, o abominável socialismo e o patético PCI e escolhendo uma figura séria e íntegra como Berlusca, continuem uma absoluta negação na cozinha – embora insistam em fazer risotos, pastas e pratos exóticos como coda alla vacinara, que não passa da horrorosa rabada, tão apreciada pelos botocudos tupiniquins, mas com molho de tomate no lugar da batata e agrião. Culinária, definitivamente, não é com eles. A verdade é que nem um simples sorvete os coitados sabem fazer – nossa sorte é que a Kibon já chegou ao país, em modernas vending machines, permitindo que provemos do verdadeiro gelato.

Em seguida fomos à Irlanda, desgovernado rincão de rebeldes. Um céu absolutamente nublado e uma chuvinha leve e gelada nos recebeu, com os termômetros marcando 8C. Infelizmente, esse clima austero e inspirador logo foi substituído por um sol totalmente fora de hora e lugar, que nos fez ficar escandalizados com a mania do populacho de deitar sobre as gramas dos parques, antes reservadas aos cães e às raposas. É preciso que a Coroa Inglesa retome com vigor o poder nesse país de beberrões, que ao invés de trabalharem para aumentar o lucro dos capitalistas ficam em pubs duvidosos se encharcando de Forster lager, Smithswick ale e, sobretudo, da abominável Guiness stout, enquanto beliscam acepipes duvidosos como cozidos de carneiro e o deplorável fish’n’chips. De minha parte, a única bebida que ingeri nos quatro dias em tal terra depravada foi o chá das cinco - sem açúcar, naturalmente.

Depois voamos – em nosso jato particular, é claro; quem dizer que foi no mercado persa aéreo chamado Ryanair está mentindo – até Praga, onde confraternizamos com nossos amigos norte-americanos – num McDonald, é claro, pois o sábio patriotismo ianque faz com que eles voem milhares e milhares de quilômetros para conhecer outros países, mas ignorem a culinária local e continuem freqüentando o T.G.I. Fridays, o KFC Chicken e o Burger King.

Tirando o delicioso Big Mac que deglutimos, Praga foi decepcionante em muitos aspectos. Sabemos que circulou, no submundo da internet, acompanhada da fotografia que ilustra este post -tirada evidentemente por um paparazzo trêmulo e escondido, quiçá bêbado -, uma versão de que fomos vistos no nefasto ambiente de um pub tcheco deglutindo um descomunal joelho de porco grelhado, preso por torniquetes e acompanhado por litros e litros de cerveja. Trata-se, evidentemente, de uma grosseira montagem patrocinada pelo photoshop lulopetista, pois jamais provaríamos a carne de tal repulsivo animal nem, tampouco, nos deixaríamos seduzir pelos tanques de Pilsner Urquell não pasteurizada, abominável liquido entorpecente que faz a alegria das classes bebedoras de Praga. Os amigos próximos sabem que o máximo que nos permitimos de luxúria alimentar, duas ou três vezes ao ano, são finas fatias de ricota com uma garafinha de água tônica.

Ainda mais absurda é a versão de que teríamos passados os dias em Praga fornicando com moçoilas tchecas, pobres criaturas desprovidas de beleza e sensualidade – sejam loiras de pele rosada e olhos claros ou morenas de tipo eslavo, com pele branca e cabelos muito negros, ambas desconhecedoras do que seja sex appeal. Nada poderia ser mais falso do que tal boato. Não só porque, como já dizia Nelson Rodrigues, “sexo é para operário”, mas porque mantivemos, nos dias passados naquela desinteressante cidade, o rigor de nosso jejum sexual, eventualmente recorrendo a instrumentos de autopunição como forma de reprimir eventuais apelos carnais, como recomendam a TFP e o dr. Alquimin (que, como Sílvio Santos, vem aí – para manter São Paulo nos trilhos).

O certo é que não conseguimos entender o que tanto atrai os turistas à capital do ex-país comunista. A única coisa de que realmente gostamos lá foi o Museu da Tortura Medieval, onde vimos uma cadeira muito interessante, na qual gostaríamos de ver sentado o molusco que nos (des)governa. Tal triste referência à realidade tupiniquim nos faz lembrar de que, após uma breve passagem pela Alemanha – pátria-mãe dos homens bons, onde os trens jamais atrasam e não há escadas rolantes que dão em lugar nenhum – chega a hora de voltar ao país que tirou seu nome de uma madeira de dar em doido e no qual eu, infelizmente, tive o azar de nascer. O consolo é que o mais preparado dos brasileiros, cuja candidatura vai de vento em popa, logo assumirá o poder, nos tirando da rota rubra do neocomunismo atroz. Alvíssaras!