domingo, 28 de fevereiro de 2010

O enigma do voto em Serra

Os problemas que concernem à candidatura Serra superam a questão ideológica. Como temos tentado analisar neste blog, é potencialmente danoso seu alinhamento ao ideário neoliberal que tanto sofrimento e atraso trouxe à América Latina (e no México e no Peru continua trazendo). Como sabemos, tal modelito tornou-se anacrônico não apenas por sua ineficácia como panaceia administrativa, mas por provocar uma crise econômica mundial com agudas consequências sociais na Europa e nos EUA, gerando um cenário desolador para Irlanda, Islândia, Espanha e Grécia, esta ora em convulsão.

Agrava tal quadro a constatação de que à insistência do atual governador de São Paulo em políticas econômicas recessivas, “suavizadas” pelo uso intenso do marketing, vem se somar a instrumentalização da quase totalidade da mídia corporativa – numa operação de “blindagem” do candidato que é vergonhosa para a imprensa, mas muito diz também em relação aos métodos de Serra em relação à comunicação social em uma democracia.

Não se pode, ainda, deixar de lado - sob o risco de negligenciar a análise de aspectos essenciais do serrismo -, seu retrospecto propriamente político-eleitoral nos últimos anos. Este não se limita à quebra do compromisso assumido publicamente com o eleitor de cumprir até o fim o mandato de prefeito pelos paulistanos lhe outorgado, trocando-o pela ambição eleitoral de curto prazo; nem ao patrocínio à candidatura do então virtualmente desconhecido Gilberto Kassab, que é, do ponto de vista administrativo, muito provavelmente o pior prefeito eleito da cidade no período pós-ditadura militar, e que, além de protagonizar de forma reiterada ataques agressivos contra populares, ora ostenta a honra de ter sido o primeiro alcaide cassado, em primeira instância, em São Paulo. Os estratagemas eleitorais de Serra incluem, ainda, o anúncio público da possibilidade de uma composição, para as eleições presidenciais, com José Roberto Arruda (ex-DEM–DF). O ex-governador do Distrito Federal, para quem não está ligando o nome à pessoa, é aquele político reincidente em falcatruas - e de um modo tão desabrido que, mesmo pertencendo ao andar social de cima e ao primeiro escalão político do país, conseguiu a façanha de, no Brasil, acabar atrás das grades. Diz-me com quem anda e eu te direi quem és.


A gestão Serra

Porém, para além da análise dos problemas ideológicos e metodológicos que cercam a candidatura peessedebista, é preciso escrutinar o que tem sido efetivamente a gestão Serra naqueles quesitos que, dizem os mandarins da pesquisa política, tendem a exercer maior influência sobre o voto do “eleitor médio”. A pergunta, neste caso, é: qual o legado, para o estado de São Paulo, da administração do atual governador em quesitos-chave como transportes, segurança, educação e saúde?


Transportes: O grau de deteriorização do Metrô de São Paulo nos quase quatro anos em que Serra ocupa o Palácio dos Bandeirantes é superlativo. Ele construiu a estação Sacomã, é verdade, e eu não me surpreenderia se por conta disso vier a receber uma boa votação no bairro e em suas imediações – trataria-se do reconhecimento a um político que trouxe benfeitorias à região.

Mas e o enorme contingente que, diariamente, é obrigado a encarar um serviço de transporte público que por décadas foi tido como modelar em âmbito mundial e hoje se encontra degradado a olhos vistos, ostentando, a qualquer hora, enormes filas nos poucos guichês que funcionam, escadas rolantes desativadas e vagões lotados?

Ante tais críticas, evoca-se a alegação de que São Paulo cresceu demais. Ora, o crescimento da maior metrópole do país, fato passível de previsão por técnicos especializados em demografia, não pode servir de desculpa à gestão ineficiente de um determinado governador – pelo contrário, deveria ser item contabilizado para um planejamento eficiente de como administrá-lo. Ademais, foram menos de 4 anos desde que Serra assumiu o governo. Por qualquer critério, o grau de crescimento da metrópole foi bem menor do que o de degradação do sistema metroviário.

Sair da análise da situação do transporte público da capital e passar a enfocar as condições de transporte no interior do estado é defrontar-se com outro quadro, mas que conserva intacto o desprezo pela locomoção dos estratos sociais de baixa renda: na prática, o custo dos pedágios nas rodovias estaduais paulistas cerceia o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos menos capitalizados. O governo federal tem demonstrado, de forma cabal, que é possível construir belas estradas sem esfolar o bolso dos humildes. Nada justifica o descalabro que são os preços praticados nas praças de pedágio de São Paulo, a não ser a falta de vontade política - ditada pelo elitismo – para resolver a questão.


Educação: Talvez a área mais problemática da gestão Serra, embora muitos não o saibam, graças ao reforço extra na blindagem midiática que a presença do sempre bem relacionado Paulo Renato de Souza à frente da Secretaria da Educação assegura.

O setor encontra-se, como veremos a seguir, atrelado a um número impressionante de denúncias de corrupção – algumas já alvo da atenção do Ministério Público -, além de ser acusado de manipular índices de desempenho (em um momento em que a educação pública paulista despencou nos rankings nacionais), de humilhar e sub-remunerar funcionários e professores e, em pleno 2010, de comprovadamente fazer alunos sentarem-se no chão por falta de... carteiras.

Comecemos pelo saco de maldades: anunciada com estardalhaço pela mídia amiga, a linha de financiamento disponibilizada a professores para que comprem um computador oferece juros anuais extorsivos: 26,4%, enquanto para empresários é de 4,5% para aquisição do mesmo bem. Já em relação aos aposentados, o governo Serra, a exemplo do que fez FHC quando presidente, os mantêm a pão e água: 5% de aumento em quase quatro anos de governo.

A aplicação do SARESP, a tal prova para avaliar professores e alagadamente melhor remunerar os com bom desempenho, foi um caos total – como demonstra esta série de posts -, com atrasos enormes, provas e gabaritos trocados e a disponibilização de uma linha telefônica para informações que, é claro, não funcionou. Os resultados, tanto da aplicação da prova quanto do desempenho global dos professores foram pífios, embora este último se deva em larga medida ao boicote que muitos professores promoveram, se recusando a responder às questões. Tal como fazia em relação ao Provão dos tempos de FHC, a mídia não registrou esse “detalhe”, preferindo desmerecer o nível educacional do professorado. No início deste ano letivo, novo caos, desta feita para a atribuição de aulas.

As denúncias de corrupção começam com casos regionais – como as acusações contra a Diretoria de Ensino de Araraquara –, passam pela libertinagem das transações cibernéticas feitas à sombra da “inexigibilidade de licitação” e chegam à teia de ligações envolvendo a gestão de Paulo Renato, editoras do setor privado e compra milionária e sem licitação de uma série de revistas e livros, que têm em comum a característica de ser produzidas por empresas da mídia amiga. E isso tudo é só parte do imbroglio, em grande parte desvendado pelo brilhante trabalho jornalístico do blog Na Maria News, onde se encontra mais, muito mais evidências perturbadoras acerca da, digamos, falta de transparência na administração da educação estadual.

O modo como o governador lida com tais denúncias? Além da cumplicidade silenciosa da imprensa amiga, espera aprovar uma “Lei da Mordaça” que impeça a gritaria.


Saúde: Como melhor ministro da Saúde da história deste país, José Serra, à frente do governo estadual, certamente está dando especial atenção à área e realizando uma gestão que não pode ser considerada menos do que marcante. O difícil é encontrar evidências que comprovem esse fato consumado – mas isso certamente se deve à omissão da imprensa, que persegue e boicota José Serra, tentando impedir que ele chegue ao Palácio do Planalto.

Devemos mencionar, no entanto, as enchentes que destruíram São Luis do Paraitinga e mantiveram alagados (e, em alguns casos, ainda mantêm) diversos bairros da região metropolitana. A água acumulada das enchentes é, como se sabe, manancial bacteriológico e fonte potencial para uma série de doenças, algumas mortais. Mas, como nos informou a sempre imparcial imprensa paulista, a enchente se deveu exclusivamente ao azar e à maldade de São Pedro para com São Paulo – nada a ver, portanto, com o desassoreamento do rio Tietê ter sido negligenciado pela administração estadual desde 2005. Seria injusto, portanto, responsabilizar o governador pelas enchentes.


Segurança Pública: Enquanto modalidades diversas de crimes, como o homicídio, campeiam no estado bandeirante – de uma forma tal que muitos cidadãos vivem em pânico ante a ameaça cotidiana de violência -, o governo estadual é reiteradamente acusado de manipular o sistema de registro de ocorrências adotado pelas forças policiais de forma a artificialmente minorar os números reais. Trata-se de um problema crônico e que, apesar das tentativas da secretaria de Segurança de barrar seu estudo, já fora detectado por pesquisa acadêmica séria quando o antecessor de Serra, o também tucano Geraldo Alckimin, estava à frente do governo. A “novidade” trazida pelo atual mandatário é o suposto agravamento de tais métodos.

Outra inovação trazida pelo atual governador – esta devida a seu apreço pela democracia - é o recorrente emprego de força policial para reprimir, de forma desnecessariamente violenta, manifestações pacíficas, como ocorreu na USP e no protesto dos moradores do Jardim Romano, alagado há quatro meses. Alguns tuiteiros amigos sugerem que no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul também é assim – e que este seria, portanto, um ranço autoritário das administrações demotucanas. Ok, a violência de forças policiais públicas contra manifestantes pacíficos ocorre também em tais paragens – e isso, é claro, é lamentável -, mas o ex-governador do DF encontra-se preso e Yeda Cruzes tornou-se um zumbi eleitoral – nenhum dos dois é, como Serra, um candidato presidencial com poucas mas efetivas chances de vitória. E isso faz toda a diferença!

Há, ainda, a chocante onda de incêndios em favelas paulistanas, com frequência e peculiaridades que sugerem tratar-se de atos criminosos. É evidente que não se deve, a princípio, responsabilizar diretamente o governador por esse inovador método de tornar os miseráveis mais miseráveis e beneficiar a exploração imobiliária. Mas é mister constatar que seus órgãos de segurança têm sido incapazes de deter o fenômeno ou de fornecer explicações convincentes sobre as razões de sua ocorrência. Por incrível que pareça, garantir a segurança dessa gente pobre e bronzeada que tem o mau hábito de morar em barracos fincados na lama também é função das forças policiais sob as ordens de Serra.

Não se pode deixar de mencionar, ainda, outra inovação serrista para a insegurança pública: a condução de obras que vêm abaixo de forma estrondosa e imprevisível, como o acidente na construção da linha Amarela-4 que matou sete pessoas ou o desabamento do Rodoanel, a megaobra que custou uma fortuna inexplicável e cujo prazo para finalização efetiva provavelmente superará o tempo de vida deste blogueiro e de você, caro(a) leitor(a). Tal “onda de desabamentos’ se deve ao emprego de material de construção vagabundo e barato, como forma de “fazer caixa” eleitoral, como sugerem as más línguas? Não creio.


Um enigma sem respostas

Nesse quadro, como entender que os índices de intenção de voto em Serra, embora em queda, ainda se mantenham em torno dos 30%? A cada vez que uma nova pesquisa é anunciada, o que mais me surpreende não é o crescimento de Dilma, mas, ante a pífia administração serrista, a queda relativamente pequena das intenções de voto no candidato tucano. Será que esses seus supostos eleitores conhecem o que é, documentadamente, o “choque de gestão” de Serra, cujos resultados práticos foram acima mencionados?

Teria a parcela expressiva do eleitorado do Sul/Sudeste que ora alimenta os sonhos eleitorais de Serra ciência de que seu candidato, além de não ter palavra e aliar-se a figuras públicas visadas pela Justiça, promove tamanho desgoverno? O que a levaria, então, a declarar votos nele? Estaria, em nome de uma luta política de cunho ideológico e, convenhamos, não desprovida de preconceitos e ódios de classe contra seus opositores, fazendo como um célebre coronel que, antes de pespegar sua assinatura no AI-5, mandou “às favas os escrúpulos”? Trataria-se, portanto, tão-somente de um voto ideológico e/ou reativo, de repulsa ao lulopetismo?

Sei que são perguntas que tendem a ficar sem respostas – ou, o que é mais provável, respondidas com a agressividade desprovida de argumentos dos trolls fanáticos. A criação de nichos na internet - alguns deles por afinidades político-ideológicas – é um fato e, com raras exceções, creio que a maioria dos poucos mas prezados leitores deste blog é de pessoas mais afinadas a um ideário que se projeta do centro à esquerda.

Eu sinceramente gostaria de obter respostas sinceras e objetivas em relação às questões acima colocadas, ao invés de meras acusações reativas que procuram desclassificar a candidata governista por conta de seu perfil ideológico, de seu suposto passado ou da alegada frouxidão ética das forças que a apoiam. A questão, aqui, não é Dilma, mas Serra: o que leva pessoas que afirmam prezar a ética e a boa administração pública a votar em tal candidato?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Quem tem medo do Estado forte?" - Mídia anacrônica e seu auto-engano

A mais recente – mas de modo algum nova – estratégia adotada pela mídia corporativa como forma de denegrir a candidatura de Dilma Rousseff é pespegar-lhe o rótulo de “estatizante”.

Como demonstrou com propriedade Celso Lungaretti, tal empreitada não se baseia no retrato fiel da visão que a candidata tem sobre a questão, expressada em um livro-entrevista, em discursos, em interlocuções com jornalistas, políticos e empresários ou mesmo no modo como vem gerenciando o PAC. Esta, quando levada em conta, é reiteradamente distorcida de modo a sugerir uma espécie de stalinismo econômico, em que a intromissão pervasiva do Estado nos diversos setores da economia dá-se por intermédio de métodos autoritários.

A Folha de S. Paulo é o órgão de imprensa que mais vem insistindo em tal tecla, na base do “se colar, colou”, tal como faz com as fantasias plenas de distorção que alimenta em relação a um terrível passado da terrorista Dilma, as quais têm lugar uma vez mais na manchete deste ensolarado domingo.

Trata-se, ao meu ver, de uma estratégia duplamente reveladora do grau de auto-engano em que se encontra (sic) a chamada grande imprensa em sua fase atual, em que, em bloco e explicitamente partidarizada, repete à exaustão, para um círculo cada vez menor e mais elitista de leitores, um ideário neoliberal desautorizado pela crise econômica mundial e - tal como o candidato presidencial que apoia, ele próprio a tais mantras ainda preso - anacrônico e em franca decadência.

Tal anacronismo, insistente na defesa de um receituário que se revelou falho em âmbito global e catástrófico em termos de América Latina – Brasil inclusive – é o primeiro indício do duplo auto-engano midiático acima mencionado. As desrazões que sustentam tal manutenção de ideologias em estado de putrefação se aliam em cadeia:

- Seu motivo precípuo é, na era do que Dênis de Moraes chama de “capitalismo infotelecomucacional”, a ligação estrutural entre mídia corporativa e capital “telefinanceiro”;

- Sua consequência regional é o apoio não assumido mas explícito ao candidato presidencial do PSDB, partido que há muito abandonou uma incipente plataforma social-democrata como forma de se tornar linha política auxiliar do mercado financeiro;

- E seu ponto cego é a recusa em enxergar que, a despeito da persistente relutância do governo Lula em deslocar-se para fora da órbita neoliberal, a ênfase sociologizante que sua administração imprimiu às políticas de Estado equivalem a uma reificação do neoliberalismo tal como preconizado pelo Consenso de Washington – como, aliás, tem sido amplamente reconhecido nos fóruns internacionais.

O segundo indício do auto-engano de nossa mídia é o profundo desconhecimento do estado de ânimos da maioria da população em relação a esse feixe de temas conectados à dicotomia privatização-estatização. A “naturalização” da visão positiva acerca de um estado mínimo e das privatizações foi, na verdade, um longo processo de convencimento da opinião pública, top-down, promovido pela mídia corporativa (na época em que não havia o contraponto proporcionado pela internet), um tanto paradoxalmente sob o patrocínio estatal do governo Collor e, a seguir, do duplo mandarinato fernandista.

Nunca se soube se tal processo massificado de lavagem cerebral foi bem-sucedido. O certo é que as pesquisas feitas de 2008 em diante mostram que a rejeição da população a privatizações é da ordem de 70%, em média. Talvez ela se sinta enganada pela alegada panaceia das privatizações do patrimônio público - que salvariam o país mas o levaram à insolvência.

De qualquer modo, migrando da miséria dos tempos de FHC – quando a energia elétrica era racionada e as estradas estavam intransitáveis – para a bonança dos últimos anos – quando o consumo explodiu e as classes C e D ascenderam -, é muito provável que, ao contrário do que as editorias jornalísticas pensem, a defesa de um Estado forte, marca do período, soe como música aos ouvidos da maioria da população, que tende a associá-las a melhorias sociais e estruturais e à criação de empregos.

Mas a mídia corporativa brasileira, como sabemos, nutre um total desprezo pela opinião pública – até porque leva a sério a boutâde de Millôr Fernandes segundo a qual “opinião pública é a opinião que se publica”.

Temos assim que a tentativa de desqualificar Dilma Rousseff exagerando seus pendores estatizantes tem tudo para ser mais um tiro no próprio pé da mídia.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Redação - A eleição

Oi, meu nome é Gustavo, mas todo mundo me chama de Gugu. Eu não gosto, porque gugu é coisa de bebê, mas minha mãe me disse que o bom cabrito não berra e que é melhor eu não brigar. Não entendi o que o cabrito tem a ver com o peixe, digo, com o apelido, mas deixa pra lá... Eu só tenho 9 anos e sou bem magrinho, então é melhor não brigar mesmo.

Hoje eu vou contar pra vocês a história da eleição no clube da escola. O que eu queria contar é o roubo que foi a vitória do Botafogo no meu Mengão, mas a professora me disse que esta redação não é livre. O tema é eleição. É linda a Tia Lair, mas tem dia que ela me irrita! (não pode chamar ela de Tia, mas aqui, só entre nós, eu chamo mesmo!).

Então vamos lá: logo quando eu cheguei na escola ia ter eleição pro Clube e todo mundo dizia que o Fernandinho ia ganhar. Ele era um menino muito falante e metido. Eu não gostava dele, mas as meninas gostavam, diziam que ele parecia um príncipe. Que raiva!

O chato do Fernandinho ganhou mesmo. Ele ficou quatro anos no trono. Mas ele gostava tanto de mandar que quando acabou o tempo dele ele queria mais. Daí ele distribuiu a mesada pruns amiguinhos, eles modificaram um tal de estatuto e deixaram ele ficar mais quatro anos. Que abuso! Gozado que ninguém falou nada dessa mensalãozada!

Quando Fernandinho deixou o trono, o Clube ia muito mal: os meninos não conseguiam vaga nem pra vender amendoim e o caixa tinha toda hora de ir pedir dinheiro ao tio, o Sam, que morava num tal de Fundo.

Fernandinho fez de tudo para eleger depois dele o Zezinho, um menino também muito metido que gostava de dar uma de sabichão. Ele fingia entender de economia, de saúde e até de eletricidade (ele era malvado e gostava sempre de dar um tal de choque de congestão). Eu não acho que ele entende de nada disso, não.

Só que dessa vez o jornalzinho da escola não era mais o único lugar onde a turma podia saber sobre a eleição. Descobrimos a internet e os blogues, que falavam umas verdades que a gente nunca tinha pensado antes. Eu adoro a internet. Se eu pudesse, ficava o dia inteiro navegando nela. Mas minha mãe fica me regulando... Mas bem que ela gosta também... ela põe cada foto dela no Orkut que nem parece ela!

Nessa época tinha também uma tal de crise. Meu pai falava nela toda hora, ficava muito nervoso e abria uma cerveja depois da outra. E minha mãe dizia que eu tinha que estudar mais por que ele quase não tava conseguindo pagar a escola. Ué, o que tem a ver uma coisa com a outra? Quanta pressão para um pobre garoto!

Muitos amigos meus trocaram da escola nessa época. Foram para “a pública”, que eu não sei o que é mas deve de ser horrível, porque minha mãe fala nela sempre cochichando e olhando pros lados, igual quando ela fala da namorada do meu primo.

Daí que, por tudo isso, daquela vez os alunos preferiram eleger o Luizinho, mesmo ele vindo de família pobre, não tendo estudado tanto quanto o Fernandinho e o Zezinho e falando com um sotaque igual do zelador do meu prédio, o seu Evilásio, que fica uma fera quando eu toco as campainhas e saio correndo. Re, re, re!

Luizinho também ficou 8 anos no trono do Clube. Muita gente gosta do que ele fez. Os moleques que não conseguiam vaga nem pra vender amendoim arrumaram emprego e as mães que quase não conseguiam pagar o colégio agora compraram cada carrão! Isso enquanto muitos colégios chiques da vizinhança faliam.

Mas os que não gostam do Luizinho, detestam. Quando a gente pergunta por que dizem com raiva que ele não sabe nem falar. Eu não quero nunca falar errado. Já vi que falar errado desperta muito ódio nas pessoas.

Mas agora tá chegando a hora do Luizinho sair. Ele indicou uma menina, a Dilminha, como sua candidata. Teve um pessoal que achou esquisito porque menina nunca que sentou no trono do Clube do Bolinha. Mas eu gostei: se a professora manda em nós tudo e é menina também, então tá tudo certo. Desde que não venha só com brincadeira de menina que aí também não dá, né?

O Zezinho, que tá mais metido a sabichão ainda, quer disputar de novo trono, dessa vez com a Dilminha. Só que que o clubinho mixuruco que ele comanda agora tá toda hora inundado de água e ele vira e mexe manda a segurança bater nos meninos, e até nas meninas! Então poucos alunos querem votar nele, é claro!

Então o Fernandinho, que nem menino não é mais, resolveu entrar na briga. Juntou tudo seus amigos no jornal da escola e chamou pro pau. Daí o Augustinho, que é puxa do Fernandinho que só ele, acha que o Luizinho tem que debater com o Fê-Fê.

Ué, mas a briga não vai ser da Dilminha com o Zezinho? Que que adianta o Fernandinho e o Luizinho, que já sentaram no trono e não são candidatos, debater? Num tô entendendo... Alguém me explica, por favor?



(imagem retirada daqui)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Grandes Figuras do Carnaval Brasileiro

Verdadeiro Lampião da folia, por puro amor ao carnaval e ao Nordeste levou à região seu entusiasmo contagiante, encantando os populares com sua espontaneidade, talento para a dança e sorriso envolvente. Desfila no Bloco do Eu Sozinho.



Porta-bandeira do carnaval amazônico, abandonada em pleno desfile pelo Mestre-Sala Gabeira, apresenta-se na Unidos da Natura com o enredo “Viva o Serra e desliguem as serras: a ecologia como truque eleitoral no Eldorado tupiniquim”. De cara limpa (a pedido de Caymmi), desfila no bloco Corre Atrás”.


Um tipo tão popular que carrega seu próprio isopor – repleto de cervejas - na praia, este fã de Zeca Pagodinho decidiu inovar este ano: aposenta a batida fantasia “Lulinha Paz e Amor” e estreia a “Com Dilma no peito e na raça". Autêntico molusco das sapucaís da vida, costumava desfilar também no Barbas, mas este ano sai no Meu Bem, Volto Já!.



Após sair no bloco carioca Tá Pirando, Pirado, Pirou, este habitante da Caverna do Ostracismo, conhecido de outros carnavais, anunciou que, tal qual um Clóvis Bornay redivivo, quer voltar ao bailes de gala de Brasília. Este ano ainda desfila pelo bloco Senis, Invejosos e Sem-noção - com uma ambulância de plantão, é claro. Na foto, o incansável folião demonstra o quanto ficou incontrolavelmente excitado com as fotos de Sonsinha nua.


Piadista de primeira, passa o ano brincando de administrar horário de feiras e de padronizar fachadas de lojas. Carnavalesco até debaixo d’água, trouxe para São Paulo o enredo “De Roma ao Jardim Romano: as exuberantes ruínas da política na cidade submersa de Zé Alagão e Aquassab”. Desfila no Não Mexe que Fede.


Após promover uma folia nababesca com panetones, um bacanal com dinheiro público e manipular seus eleitores tal qual um Arlequim, o Pierrô acabou sem Colombina, passando o carnaval na cadeia, fantasiado de presidiário. Sair em bloco, só na hora do banho de sol.



Outra foliã inata, provocou comoção entre os sempre desanimados baianos e pernambucanos, tamanha sua empolgação carnavalesca. É uma identificação imediata: basta pensar em carnaval para se lembrar dela, não é mesmo? Também, com esse soriso contagiante...! Dizem as más (ou seriam as boas?) línguas que, em nome de sua paixão incansável pela festa popular, vai deixar cair a pinta de séria e desfilar no Vem Ni Mim Que Eu Sou Facinha.



(Crédito das imagens - que foram alteradas digitalmente -, em ordem de apresentação: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Oposição acirra truculência

O grotesco espetáculo da intolerância e do uso da polícia para reprimir manifestações pacíficas teve lugar esta semana, uma vez mais, em São Paulo; uma vez mais, em um governo do conluio demotucano.

Trata-se de algo que está se tornando rotina nas principais administrações (sic) da aliança: além do estado governado por José Serra, o Distrito Federal do cara-de-pau Arruda e o Rio Grande do Sul de Yeda têm assistido, de forma recorrente, à instrumentalização de forças policiais públicas – que deveriam, teoricamente, servir ao bem comum – para reprimir processos pacíficos que desagradam a políticos pouco afeitos à livre-manifestação democrática.


Pau na plebe
Em São Paulo, é a quarta vez em pouco mais de um ano. Eu pensei que minha indignação em relação a tais práticas – inaceitáveis num regime democrático - já tivesse atingido seu nível mais alto com a desnecessariamente violenta repressão ao protesto de estudantes em junho passado, tendo como palco um outrora intocável campus de universidade pública.

Mas estava enganado: a apreensão de saber, ainda de forma desencontrada, que pessoas queridas como Maria Frô e Tsavkko haviam sido alvo da violência policial, com consequências físicas (e certamente psicológicas) para ambos foi dilacerante, sobretudo por somar-se à revolta causada pela certeza de que ela também atingiu cidadãos e cidadãs pobres, vitimadas pelas enchentes que o misto de incompetência e desprezo que Serra e Kassab lega aos menos favorecidos (leia mais sobre a repressão no Arlesophia).

Aliás, o significado do espancamento e dos jatos abundantes de pimenta direcionados - como várias fotografias demonstram – a cidadãos pacíficos é precisamente este: “não estamos nem aí para o sofrimento dessa plebe, pau neles, essa escória que cale a boca e volte pra casa”.

Como escreveu Maria Frô, no título do mais emocionado (e emocionante) post sobre o episódio: “Para o poder público de SP o povo é lixo e deve ser tratado a porrada e gás de pimenta”. É o retrato de uma postura que reencarna, de forma real e sem um mínimo espaço para o humor, a de Justo Veríssimo, a caricatura do político brasileiro criado pela genialidade de Chico Anysio.


Movimentos sociais e ostracismo
Mas há mais, nessa marcha insensata da oposição rumo ao confronto, com o objetivo último de acirrar ao máximo os ânimos e estimular uma ruptura institucional: torna-se cada vez mais evidente que está em plena marcha em São Paulo e no Sul do país um processo, de fundo político, de criminalização dos movimentos sociais, notadamente o MST. Seus membros têm sido condenados a penas altíssimas e até associações de delegados federais têm denunciado a ilegalidade de algumas ações da PM. O movimento dos sem-terra iniciou o que chama de uma “Campanha pela litertação imediata dos presos políticos do MST”

Apesar de toda essa truculência demotucana, Fernando Henrique Cardoso volta à carga acusando Lula de, entre outras coisas, travar uma “guerra imaginária” e alimentar “o fantasma da intolerância” – o que o ex-presidente interpreta como “Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita”. Da vontade de rir, eu sei, mas na verdade é muita cara-de-pau um líder (sic) de um partido associado a tanto autoritarismo acusar um líder mundialmente respeitado por promover a democracia de fato - a qual, ao contrário do que acontecia em seu governo, inclui combate intenso à miséria.

Mas a mídia gorda exultou com o artigo e divulgou-o à exaustão, provocando intensas reações. Discordo da maioria das análises que li sobre texto, sobretudo as alegadamente esquerdistas. Considero ingênua a alegação de que FHC estaria fazendo o jogo do PT ao incentivar a comparação com Lula e, portanto, uma eleição plebiscitária como o atual presidente gostaria. Na minha opinião, o que o tucano quer - e deixa claro no artigo – é forçar comparações para acirrar conflitos e, assim, tornar a situação mais tensa e inflamada, pavimentando o caminho para a radicalização e a desestabilização.

Porém não vou, aqui, debater o amontoado de alusões fantasiosas e inverdades que FHC elenca, pois o considero um caso para a psicanálise. Em respeito a sentimentos aos quais nós, seres humanos, estamos ou estaremos um dia sujeitos – a senilidade, a amargura e a inveja - não pretendo mais gastar tinta com esse senhor, protagonista de um dos governos mais medíocres da história republicana e que desconhece a grandeza e a modéstia. O que eu tinha a dizer sobre tão triste figura já foi escrito e está aqui.


Imprensa livre?
Mas não se restringem a cenas de violência em praça pública dignas de ditadura, nem a repressão idem a movimentos sociais, tampouco a declarações tão virulentas quanto descabidas as manifestações de truculência advindas do demotucanismo.

Todo o apreço de José Serra pela imprensa livre veio à tona esta semana, ao ser indagado por uma repórter da TV Brasil, de forma polida, acerca da falta d’água que atinge, há dias, quase 800 mil pessoas. Irritado, o homem que aspira à Presidência da República disse esperar que a emissora “tenha o mesmo interesse em cada estado e município”, acusando a cobertura de ser “sempre parcial”.

Ora, quase um milhão de pessoas sem água por um longo período de tempo desperta (ou deveria despertar) o interesse da imprensa em qualquer lugar do mundo. Ademais, por questões econômicas estruturais, São Paulo sempre recebeu uma atenção desproporcional no noticiário nacional (este é, aliás, um dos graves problemas do jornalismo nacional; mas Serra nunca havia demonstrado qualquer interesse por ele antes). E, por fim, o governador do estado é pré-candidato à presidente – o que, seja em emissora pública ou privada, na Escócia ou na Nova Zelândia, faz dele - e dos problemas da área sob sua administração – um dos principais alvos do interesse jornalístico.

Serra, evidentemente, sabe de tudo isso. O que ele queria – e a meu ver conseguiu – era criar manchetes favoráveis e colocar a TV Brasil sob suspeita. Basta uma breve busca no Google para ver que seu showzinho de intransigência com a imprensa livre fez muito sucesso entre a “grande mídia” e seus blogueiros barrigueiros de sempre. Que eles apoiam o tucano todos sabemos, mas, como procurei demonstrar no post anterior, esse apoio transcende os interesses políticos imediatos e se insere numa luta pela hegemonia em termos de ideologias orientadoras da política.


Canalha de jornalistas
Tão assustador quanto a diatribe de Serra foi a (falta de) reação dos demais jornalistas presentes. Pensei ter sido o único a ficar absolutamente abismado com tal inação, mas Leandro Fortes, no Twitter, manifestou reação semelhante. Desculpe a repetição, leitor(a), mas, de novo: em qualquer lugar democrático do mundo teria havido uma reação imediata de solidariedade a uma colega de profissão aviltada no exercício honesto do dever. Como o próprio Leandro escreveu em seu ótimo Manifesto Jornalístico, "a canalha é de jornalistas" - mas eu não livro a cara dos patrões, não. No way.

Ante todos os fatos acima relatados e as constatações que eles oferecem, na aparentemente remota hipótese de o governador paulista vir a vencer as eleições presidenciais, os presságios são tenebrosos: pois, mantido esse padrão de conduta, os movimentos sociais tenderiam a ser desarticulados e esmagados; os setores da mídia que ousassem questionar ou criticar as decisões do novo presidente sofreriam repressálias ou seriam cooptados; e, ainda mais preocupante, a livre-manifestação pública estaria comprometida. Tudo isso, se mantido o padrão atual de bovinice, sob o silêncio cúmplice ou o aplauso entusiasmado da mídia amiga.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Por uma nova ideologia orientadora da política nacional

A divulgação do que vem a ser, na prática, o plano de governo de Dilma Rousseff confirma o que aqueles que acompanham de perto a política nacional - com mais atenção aos blogs do que aos jornais e revistas – já sabiam: é chegada a hora de enterrar o cadáver do neoliberalismo e, assumidamente, promover a defesa de uma ideologia que apregoe maior presença econômica e gerencial do Estado e metas desenvolvimentistas de longo prazo, socialmente includentes e as quais, ao mesmo tempo, atentem para a necessidade de preservação do meio ambiente.

Pois o que está em jogo é a contraposição de um modelo de administração do país que tem promovido a inclusão de setores historicamente marginalizados e a redução da miséria em bases e ritmo antes impensáveis, e outro modelo no qual “A legitimidade política da precarização social repousa sobre o triunfo da ideologia que faz do crescimento monetário a finalidade última do desenvolvimento das sociedades”, como aludem Béatrice Appay e Annie Thébaud-Mony no verbete “Precarização social” do Dicionário Crítico do Feminismo citado no post anterior.


Muro neoliberal também caiu
A Queda do Muro de Berlim, ocorrida em 1990, foi um episódio-símbolo da derrocada do socialismo e, por associação (excessivamente generalizante), das esquerdas. A ascensão do neoliberalismo, forjado como cesta de medidas programáticas no “Consenso de Washington, antecede tal momento, com a administração de Thatcher na Inglaterra e de Reagan nos EUA e, por quase duas décadas, o supera. Para fazê-lo, ela imporia, com amplo apoio da mídia, um verdadeiro “massacre ideológico”, nas palavras de Arnobio Rocha, que publicou um ótimo post no qual elenca os mandamentos vigentes durante esse longo período outonal.

Ocorre, porém, que o neoliberalismo foi seriamente minado ou derrotado em quase todo lugar ao final da primeira década do atual século, como ocorrera antes com o socialismo. A grave crise econômica mundial que se seguiu à crise das hipotecas nos EUA é o seu Muro de Berlim. O fato de o Brasil ter sido, graças à competência administrativa do atual governo, um dos últimos países a entrar e um dos primeiros a sair da crise – de modo que, ao final, ela mal passou mesmo de “uma marolinha” – talvez não nos permita ter uma visão da gravidade do quadro econômico atual, em âmbito internacional, mas ele é desolador. Na Europa, o desemprego em dois dígitos e crescente alimenta a reemergência do radicalismo xenofóbico e a crise se alastra rizomaticamente, afetando diversos setores sociais da Zona do Euro, notadamente em sua periferia, como demonstra com propriedade Hugo Albuquerque; nos EUA, após dezenas de milhares perderem suas casas, os indicadores - da queda no consumo de energia elétrica aos déficits externos, passando pela redução acentuada na oferta de créditos e o aumento de pedidos de concordata -, apontam para a falência de um modelo.


Mídia é aliada estrutural do neoliberalismo

Não se deve, no entanto, apenas à nossa suavizada percepção da crise a resistência que a superação do ideário neoliberal encontra por aqui, em certos bolsões. Há um poder, decadente, cada vez menos influente, mas ainda preponderante por estar entranhado na própria lógica de funcionamento do que Dênis de Moraes chama de “capitalismo infotelecomunicacional” que, justamente por esta razão, teima em manter insepulto o putrefato cadáver do neoliberalismo: a mídia.

É por isso que o desenho que encima este post é espirituoso, mas inexato: não é apenas o porrete - aquele mesmo que o governador paulista vira e e mexe manda sentar no lombo de estudantes e de manifestantes pacíficos - que sustenta o neoliberalismo; a mídia corporativa, por pervasiva e dissimulada, é quem o faz de forma ininterrupta e com mais eficácia.

Não causa estranheza, portanto, que, mesmo com pesquisas qualitativas sucessivamente demonstrando que os brasileiros, em sua maioria, repudiam bandeiras liberais como a privatização de empresas e a diminuição do papel e do tamanho do governo, o jornalismo dos grandes grupos de comunicação insista em desqualificar propostas como a de maior presença do Estado na economia, de fortalecimento de empresas estatais e de aumento de linhas de crédito dos bancos públicos para o setor produtivo, constantes no documento aludido no primeiro parágrafo do texto, e que fornece as diretrizes para um eventual governo Dilma – significativamente intitulado “A Grande Transformação”. Já há muito está claro, para cada vez mais gente, que, com o perdão do mau trocadilho, o interesse de tais empresas de comunicação é defender seus interesses, e não informar ou fomentar o debate.


Guerra de torcidas e modelos idelógicos

O que, na verdade, causa estranheza, é a apatia e/ou a forma meramente reativa como a esquerda, em sua maioria, reage a tal quadro. É significativo, nesse sentido que mesmo os blogs com ela identificados, ao se depararem com acusações de “esquerdismo’ contra o plano de Dilma, se esforcem mais por desmentir tal afirmação do que para questionar por que raios um plano “esquerdista” seria necessariamente ruim.

Ou seja, jogam o jogo da mídia conservadora, pois é esta que continua determinando os termos do debate, os quais continuam a se basear em premissas neoliberais. E é chegada a hora de esmagar a cabeça da cobra e questionar não apenas as táticas e acusações superficiais da mídia, mas as bases axiológicas e discursivas sobre as quais repousam. Trata-se de um processo longo, de um embate contínuo (lembremo-nos que mesmo no auge do triunfalismo neoliberal, pensadores visionários como Octávio Ianni, Óscar Azócar e Milton Santos já afirmavam sua derrocada); de uma necessidade de rever criticamente, como foi dito, não apenas os discursos midiáticos, mas os parâmetros valorativos que os sustentam – o que, por sua vez, acaba inexoravelmente por gerar uma necessidade de revisão da história política do pais, já que esta tende a eser reiteradamente reescrita pelas forças que, nas palavras de Carlos Nelson Coutinho, desfrutam da “intimidade à sombra do poder”. O episódio em que Lula evoca Getúlio Vargas, descrito no blog de Antonio Celso – em um post significativamente intitulado “O retorno do recalcado” -, é exemplificador da necessidade de tal revisão e da consciência que o atual presidente tem acerca de tal demanda.

Já no âmbito da militância e dos simpatizantes, tanto no universo virtual quanto no mundo real, tem-se frequentemente a impressão de que o que deveria ser um vigoroso embate político e ideológico contra as forças de um passado recente – forças estas que se encontram em plena atividade, ávidas pelo poder – tornou-se uma espécie de guerrinha de torcidas, em que uma grita “Marlene é a maior, u-hu!” e a outra berra “Emilinha já ganhou, a-ha!”; que enquanto uma se esgoela brandindo acusações contra o PIG, Serra e Kassab, a outra se inflama denunciando petralhas, ministras-terroristas, e um presidente que além de não ter dedo fala errado. Não que tais embates, com toda as tolices e exageros que comportam, não façam parte do jogo. Eles o fazem. Mas, se se quer realmente promover uma mudança das premissas orientadoras da administração do país, é preciso passar a defender, de forma coordenada e com afinco, determinação e conhecimento de causa, uma nova orientação político-ideológica para o Brasil.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um belo livro

Ontem o correio trouxe um livro que eu vinha “paquerando” há algum tempo. Ele chegou de surpresa – pois o site não havia confirmado a compra -, o que intensificou o efeito que provocou: assim que o tive nas mãos, fiquei admirando sua capa, seu inebriante aroma de livro virgem, enquanto folheava-lhe as páginas, travando um primeiro contato com conhecimentos expressados de uma maneira inédita para mim.

Essa singela experiência corroborou minha impressão de que, mesmo quando vier a aderir aos e-readers – o que deve acontecer em breve, tão logo questões essenciais como um preço mais justo e aceitação fácil de todos os formatos de arquivo sejam resolvidas - não pretendo abrir mão da experiência tátil/olfativa de manusear com deleite um livro.

Lançado há três meses, o Dicionário Crítico do Feminismo vem preencher uma lacuna – eu diria uma cratera – na literatura disponível em português sobre o tema – o qual abarca, a um tempo, um rico campo de estudos e um dos mais significativos, perenes e influentes movimentos sociais modernos.

Os 48 verbetes da obra discutem, de forma didática mas profunda, um amplo leque de temas, recorrentes não apenas na teoria mas na prática feminista, notadamente aqueles que perfazem uma ligação entre a condição feminina e circuitos sociais como educação, trabalho e sexualidade. Tanto para quem estiver travando um primeiro contato com tal universo como para os já iniciados, trata-se de um livro essencial

Senti falta apenas de um ou dois verbetes que dessem conta da relação entre arte e feminismo e deste com o cinema – confluência responsável por obras notáveis - como as das diretoras Germaine Dulac, Chantal Ackerman e Margarethe von Trotta – e por influentes desenvolvimento teóricos – acima de tudo, o seminal artigo de Laura Mulvey, “Visual pleasure and narrative cinema” (1975), que transcendeu as fronteiras dos Estudos de Cinema e tornou-se referencial para outros campos do saber.

As autoras dos verbetes, em sua grande maioria, são francesas – mas entre elas, há duas brasileiras: Maria José F. Rosado Nunes, professora da Universidade Metodista de São Paulo, e a economista e pesquisadora Vivian Aranha Saboia. Cerca de 90% delas são sociólogas, característica que, somada aos textos que produzem – claros, sem uso de jargões e de conceitos restritos aos iniciados e, em sua maioria, informados por referências histórico-sociais à maneira do filologismo alemão - as distingue de suas colegas norte-americanas, cujo encastelamento de décadas nos departamentos de Women's Studies tantos danos têm causado à própria causa que alegam defender – notadamente aqueles referentes a sua institucionalização acadêmico-social, ao hermetismo deliberado e elitista, e à perpetuação de feudos que, embora muito beneficiem seus integrantes, pouco ou nada produzem de efetivo em relação à causa feminina - uma realidade a qual Camille Paglia debateu com primor e veemência.

Para completar, o livro, organizado por um corpo de pesquisadoras lideradas por Helena Hirata - e lançado pela editora da Unesp com o apoio do Ministério francês das Relações Exteriores, no âmbito do Ano da França no Brasil – apresenta uma belíssima capa - a qual encima este post -, criada por Andrea Yanaguita, em tom marrom com grandes letras em amarelo e, dominando sua porção à esquerda, a figura, em negro com traços lilás, de uma deusa grega. Para ler, apreciar e utilizar como objeto de decoração (rs..).