terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Repensando a Universidade Brasileira - 4a. parte (Final)

Este quarto e último post da série sobre a universidade brasileira debate o modelo estruturante do ensino superior brasileiro, sua ideologia orientadora e seus possíveis efeitos a médio e longo prazo, produzindo reflexões relativas a autonomia e soberania nacionais, imperialismo cultural e linguístico, e globalização e universidade.

O modelo estrutural adotado para o gerenciamento da universidade no Brasil - baseado em quantificação sistemática e qualificação “ranqueada” da produção acadêmica - tem sido importado e disseminado de forma pouco crítica, aí incluídos os critérios valorativos que regem tal ranking e a indistinção com que vêm sendo aplicados - seja, digamos, em relação a um mestrado em Biofísica ou a um doutorado em Comunicação.


Imperialismo acadêmico e a questão idiomática
Na raiz da questão, no bojo de fatores econômicos, encontra-se a intrincada questão idiomática, que desempenha papel fundamental na presente hegemonia acadêmico-cultural norte-americana. Assim, o emprego do inglês como língua franca é tema essencial ao debate. Na academia, a exigência de absoluta correção gramatical e do emprego canônico da sintaxe, mesmo por parte de pesquisadores que não têm o inglês como idioma nativo, significa a manutenção de um sistema hierárquico que privilegia os pesquisadores para os quais o inglês é a língua-mãe, pois estes, naturalmente e com raras exceções, o dominam de uma forma dificilmente alcançável para a maioria dos não-nativos. Tal estado de coisas é particularmente deletério em campos ligados às Humanidades lato sensu, nos quais a qualidade do texto é quesito essencial.

Some-se a essa distorção – que produz graves assimetrias em âmbito internacional – os efeitos da supervalorização, pelos rankings acadêmicos vigentes no Brasil (mas não só aqui), da publicação de artigos em periódicos acadêmicos internacionais, que tendem, pela própria constituição média do corpo de avaliadores - em ampla maioria ligados a instituições euro-americanas - a privilegiar um restrito arco teórico em voga em tais centros universitários em detrimento de teorias originárias ou majoritariamente difundidas em outras partes do globo. Com tal conformação, que estimula temas e objetos de estudo internacionalmente reconhecíveis, a tendência, em longo prazo, é que o modelo acabe por impor uma agenda importada também no âmbito dos cânones teóricos, o que, por conseguinte, acabaria por afetar – como já o faz no Brasil em certas áreas - a oferta temática de disciplinas e a escolha de objetos de estudo para pesquisas.

Compreende-se que a necessidade de integração e de diálogo acadêmicos em âmbito internacional dê-se em inglês – uma realidade que deve ser atribuída não apenas ao fato de se tratar do idioma mais falado do mundo, mas como decorrência do poder que emana da posição proeminente ocupada pelas universidades anglo-americanas no cenário internacional. Tal entendimento, no entanto, não deveria significar aceitação acrítica de tal modelo, como parece ser o caso no Brasil. Por exemplo, é preocupante a proliferação de publicações acadêmicas que, no afã de alcançarem projeção internacional (e o que isso provoca em termos de reconhecimento interno em um país de mentalidade colonizada), são publicadas unicamente em inglês, quando o protocolo básico da soberania acadêmica pediria ao menos que a edição fosse bilíngue.

Como sugere Peter Ives no artigo “Global English: Linguistic Imperialism or Practical Lingua Franca?”, o relativamente baixo interesse acadêmico pelo debate acerca das relações entre linguagem, globalização e imperialismo pode ser parcialmente explicado pelo predomínio do liberalismo no interior da teoria política e pela incompatibilidade entre linguagem enquanto tema e os parâmetros que o pensamento liberal usualmente adota para lidar com diversidade. No entanto, particularmente no Brasil, colabora para a escassez de debates acerca de tais temas a até há pouco bem-sucedida operação discursiva neoliberal que promove uma oposição entre globalismo e nacionalismo caracterizada pela fixidez, em que o primeiro termo tende a ser associado a valores como liberdade e pluralismo, e o segundo a anacronismo e obscurantismo.

Em "As artimanhas da razão imperialista" (que você poide ler na íntegra aqui) Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant sintetizam magistralmente tal dinâmica, inserindo-a no presente contexto sócio-econômico global:

"A noção fortemente polissêmica de "mundialização" (...) tem como efeito, para não dizer função, submergir no ecumenismo cultural ou no fatalismo economista os efeitos do imperialismo e fazer aparecer uma relação de força transnacional como uma necessidade natural. No termo de uma reviravolta simbólica baseada na naturalização dos esquemas do pensamento neoliberal (...), a remodelagem das relações sociais e das práticas culturais das sociedades avançadas em conformidade com o padrão norte-americano (...) é aceita atualmente com resignação como o desfecho obrigatório das evoluções nacionais quando não é celebrada com um entusiasmo subserviente".

A academia brasileira é pródiga de exemplos capazes de ilustrar tal análise: o hábito de fazer perguntas em inglês para um conferencista internacional ante uma platéia brasileira, bem como a arraigada mania de palestrar em inglês nos congressos internacionais, dispensando, ao mesmo tempo, a tradução simultânea ao público e as regras básicas de respeito à soberania – como, aliás, costumava fazer um ex-presidente da República -, além de constituírem exemplo acabado do comportamento de um estrato social que um célebre jornalista brasileiro costumava classificar como “elite-jeca”, são exibições públicas de colonialismo cultural passivo.

Assim, o procedimento de naturalização da importação de práticas e sistemas valorativos forjados no âmbito da universidade norte-americana ao qual a academia brasileira voluntariamente se submete significa o endosso a um exitoso processo de imperialismo pós-colonial, pois, ainda segundo Bourdieu e Wacquant:

"O imperialismo cultural repousa no poder de universalizar os particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais (...) Hoje em dia, numerosos tópicos oriundos diretamente de confrontos intelectuais associados à particularidade social da sociedade e das universidades americanas impuseram-se, sob formas aparentemente desistoricizadas, ao planeta inteiro".

O dado objetivo a se considerar é que esse desprezo pelas ligações entre produção de conhecimento, idioma e imperialismo pode vir a ser custoso para o futuro da academia no país.

Sistemas avaliativos e estruturas acadêmicas
"Qual é hoje a vocação maior do pensamento brasileiro? O caminho a evitar é o percorrido pelas ciências sociais e pelas humanidades nos países do Atlântico Norte. Nas ciências sociais, a começar por economia, prevalece lá a racionalização do estabelecido: explicar o que existe de maneira a confirmar a necessidade, a naturalidade ou a superioridade das instituições estabelecidas e das soluções triunfantes (...) Nas humanidades, a fuga da vida prática: divagações e aventuras no campo da subjetividade, desligadas do enfrentamento da sociedade como ela é. (...) No Brasil, estamos, em matéria de alta cultura, a reboque disso (...) Para compreender nossa experiência nacional, temos de executar obra de pensamento de valor universal".

No texto acima, uma das mais contundentes análises acerca dos descaminhos do pensamento acadêmico brasileiro e de suas relações com a “metrópole” publicada na mídia nacional, é paradoxal - porém altamente revelador - que a perspectiva adotada pelo colunista advenha de um profissional que ocupou, por décadas, uma cadeira de professor numa das mais bem-conceituadas universidades norte-americanas (e do mundo), Harvard University. Acadêmico e figura pública polêmica, Roberto Mangabeira Unger pode ser acusado de várias coisas, mas não de antiamericanismo.

O artigo critica um processo em plena execução. À promoção passiva do modelo acadêmico norte-americano na universidade brasileira tem correspondido, como seria de se esperar - ou, quiçá, temer -, uma maior presença, nas salas de aula, em publicações especializadas e nos congressos, de temas, disciplinas e referenciais teóricos originários naquele ambiente acadêmico. Notadamente, assiste-se a um crescimento do debate sobre temáticas largamente predominantes na grade curricular das universidades americanas – que têm sido, não sem frequência, enfocadas através do construcionismo social em voga nos EUA nas últimas três décadas.

Assim, embora a estrutura formada pelo MEC, pelas agências de fomento e pelas próprias universidades tenha diversos aspectos positivos - e o papel preponderante desempenhado sobretudo por CNPq e CAPES mereça ser destacado como estimulador da produção acadêmica e do incremento de seu nível qualitativo -, parece-me necessário refletir de forma mais detida e particularizada acerca das especifidades da cultura universitária brasileira, das necessidades que o país demanda de suas universidades e da necessidade da criação de condições, também no âmbito acadêmico, para uma inter-relação transnacional mais equilibrada, ao invés de reforçar metodologias que tendem a engessar assimetrias.

Afinal, a universidade brasileira tem de se manter à altura de um país que produziu algo tão estética e politicamente engenhoso quanto a antropofagia cultural - e não pode, em plena revisão do locus estratégico do Brasil em relação ao mundo, manter-se em passiva submissão acadêmico-metodológica e submeter seus profissionais a avaliações produzidas por critérios axiológicos estrangeiros.

Naturalmente, tais reflexões implicam numa revisão do modelo de meritocracia que tal sistema intenta implantar. Uma questão central diz respeito à avaliação dos professores universitários, baseada no trinômio "desempenho em sala de aula\condução de pesquisas\publicações acadêmicas". Ao contrário do que seus entusiastas apregoam, a adoção de tais critérios não gera necessariamente um sistema justo de avaliação - ao contrário, cria uma série de protocolos-padrão que beneficiam aqueles que se especializam em manipulá-lo a seu favor e as sumidades acadêmicas consagradas.

Esse ser idealizado - o tal super professor com desempenho superlativo em três diferentes práticas acadêmicas é uma quimera - e algo não necessariamente desejável. Há professores que são excepcionais na sala de aula, mas não têm aptidão para pesquisas; há pesquisadores inatos, que têm um desempenho pífio na sala de aula; e existem aqueles que, não necessariamente devido a méritos profissionais, publicam muito - mas cuja pesquisa não se traduz em evolução de seu campo acadêmico.

Ademais, é preciso, tanto quanto buscar modelos de avaliação acadêmica que levem em consideração tais características, atentar para as gritantes disparidades materiais e, em decorrência destas, nas condições de trabalho de professores e pesquisadores de uma universidade pública para outra. Solucionar tais disparidades é tão ou mais importante do que estabelecer métodos justos de avaliação de desempenho docente.

- X –

Vou aproveitar o espaço restante para abordar, de forma breve, temas que, ao longo dos debates que os quatro posts sobre a universidade brasileira suscitaram, revelaram-se importantes e que não seriam contemplados pelo projeto original da série.

No Twitter, o prezado @flavioas lembrou-me de um tema urgente que eu havia negligenciado: as eleições internas às universidades, seja em âmbito estudantil, profissional ou letivo.

Tenho uma visão muito objetiva do problema: os atores da universidade pública, em seus três níveis, têm de ser trazidos à realidade tecnológica do século XXI. É tarefa relativamente simples, mesmo para os orçamentos universitários mais apertados, dotar cada aluno, funcionário e professor de um email de domínio próprio (isso algumas universidades públicas já fazem), com configurações de segurança apropriadas para votarem uma única vez a cada eleição convocada.

Isso acabaria com a tática velha de guerra dos lumpempartidos da extrema-esquerda (sic) de “cansar” os professores quando da votação, por exemplo, da decretação ou não de uma greve, só permitindo que a votação se encaminhe quando o plenário se esvazia e se tem a certeza da vitória. Deixemos o século XIX para trás: convoca-se a eleição, reserva-se um tempo para as campanhas, com ampla liberdade, e um prazo xis para votação: cada um entra no sistema "logando" com seu nick e, se quiser, vota - no decorrer, digamos, de uma semana letiva. Ao final, o sistema processa os votos. Simples assim.

- X –

Outro tema originalmente negligenciado mas que merece atenção diz respeito à frequência, no mestrado e no doutorado, de alunos que, na condição ou não de ouvintes ou de “alunos especiais”, almejam ingressar em um dos dois níveis dos programas de pós-graduação strictu sensu.

Sou totalmente contra essa prática, cada vez mais arraigada, pelos motivos que exponho a seguir.

O ingresso em uma pós-graduação tem se tornado, para um contingente cada vez maior de candidatos, não apenas um meio de aquisição de cultura e formação, mas de ascensão social via diploma e, não raras vezes, de manutenção econômica (precária) via bolsa de estudo. Esses fatores têm feito com que, ordinariamente, chegue à casa das centenas o número de candidatos para diversos mestrados, superando a meia centena no caso de alguns doutorados.

O meio de ingresso em um mestrado ou doutorado é um processo seletivo público, regido por edital. São as regras determinadas por esse edital – e tão-somente elas – que devem reger o processo, que pressupõe a isonomia entre os candidatos.

Porém, após um semestre ou um ano de convívio informal de um futuro candidato com um programa de pós-graduação, tal isonomia está, para o bem ou para o mal, violada.

Quero deixar claro que não ‘fulanizo” essa discussão: conheço pós-graduandos brilhantes que adentraram em programas após terem-no frequentado informalmente. O que defendo, no entanto, é o respeito ao princípio da isonomia em processos seletivos públicos. Trata-se de um princípio basilar da democracia e, afinal, cabe à universidade dar o exemplo.


("O Rei do Mau-Gosto", de Rubens Gerchman (1966), retirado daqui)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ciro Gomes, presente e passado

A eventual candidatura de Ciro Gomes a governador de São Paulo tem alimentado as esperanças de boa parte da centro-esquerda. O nome do ex-governador cearense credencia-se, para tais setores, como uma das únicas alternativas capazes de pôr fim à hegemonia do conluio PSDB/DEM no Estado, que já dura 16 anos (ou 24, se considerarmos que os peemedebistas Orestes Quércia e seu pupilo Luiz Fernando “Matança do Carandiru” Fleury Filho professavam avant la lettre a mesma cartilha direitista que os demotucanos tornaram norma).

Uma das razões primordiais do entusiasmo que Ciro Gomes desperta na esquerda é seu destemor verbal, seja “falando umas verdades” sobre a mídia para os velhinhos do Canal Livre ou ligando a metralhadora giratória em qualquer ocasião pública em que o nome de Serra é ventilado. Ao contrário de Lula – que, goste-se ou não, só quebrou a resistência de setores da sociedade a seu nome ao adotar a estratégia “paz e amor” para ele forjada por Duda Mendonça em 2002 (e desde então evita a todo custo conflitos públicos) – Ciro não tem papas na língua. Como naqueles filmes estrelados por Charles Bronson ou Steven Seagal, ele é o vingador que desrespeita as convenções – no caso, políticas – e compraz os espíritos injustiçados pela mídia serrista, que tudo distorce.

Isso que muitos veem como uma qualidade, eu interpreto como um grande defeito. Primeiro porque, no passado, a boca grande e o pavio curto de Ciro já o tiraram do páreo eleitoral; não há garantias de que isso não venha a se repetir.

Segundo, porque o duplo desafio de Ciro é hercúleo: ele tem, primeiro, de convencer os ultra-bairristas paulistas a dar um voto a um candidato que sempre foi identificado com o Ceará e, embora tenha nascido na mesma Pindamonhangaba de Alckimin, sempre foi visto como um nordestino, grupo-alvo preferencial do preconceito paulista. Por mais que sejamos otimistas e consideremos que o mundo evolui e os costumes mudam, é preciso desconhecer a mentalidade do interior paulista para apostar que Ciro seja totalmente bem-sucedido na empreitada.

Além disso, ele tem também de convencer o eleitorado mais conservador do país – que nunca deu vitória a Lula nas eleições presidenciais, nem contra Serra em 2002, nem contra Alckimin em 2006 – a deixar de votar no conluio PSDB/DEM e adotar um candidato que se diz de esquerda, apoiado por Lula. Achar que com manifestações de destempero verbal e enfrentamentos públicos ele vai levar a cabo tais tarefas, convencer as hordas de velhinhas de Taubaté, e atingir tais objetivos é de uma ingenuidade de constranger Pollyanna.


Trajetória gera questionamentos

Mas há muito mais a interrogar em relação a Ciro Gomes. Sua projeção nacional, nas asas de Tasso Jereissati, deveu-se, inicialmente, à alegada modernização de Fortaleza – onde fora prefeito de 1988 a 1990 - e ao “choque de gestão” que, seguindo a linha determinada por seu padrinho político, aplicara na administração do Ceará, como governador, de 1991 a 1994. A utilização do vocabulário tucano ("choque de gestão") não é vã: Ciro foi o primeiro político do PSDB a eleger-se governador (atualmente, quem governa o Estado é seu irmão Cid Gomes (PSB-CE)).

Desde então, projetou-se nacionalmente uma imagem de Fortaleza duplamente positiva: ao paraíso do sol, com boa estrutura turística e níveis de segurança relativamente mais baixos do que outros destinos do Nordeste veio a se somar, nas duas últimas décadas, os efeitos dessa alegada eficiência administrativa que teria “modernizado” a cidade.

Essa é, convém reforçar, a imagem de Fortaleza – construída, sobretudo, pela mídia. A realidade é bem outra. Enquanto outros estados do norte/nordeste – a Bahia, destacadamente – promoveram, com a ajuda do governo federal, programas contínuos e efetivos de combate à prostituição infantil, em Fortaleza tal atividade é praticada às claras, nas ruas, nas casas de shows, nos bares (mesmo em alguns dos mais finos. Num destes, na última vez que estive na cidade, uma mulher que se passava por mãe de uma menina de uns 13 anos, me abordou e “ofereceu” a filha). Em logradouros turísticos como Meirelles, “meninos de rua” notadamente “chapados” abordam turistas de forma incessante e agressiva, nas barbas da polícia local. É como a Salvador de vinte anos atrás.

A pobreza campeia, não apenas nas violentas periferias que cercam a capital cearense – em que gangues de traficantes se digladiam, com mortes diárias - mas mesmo nos arredores e meios-fios de áreas turísticas. Artigo de professora da Universidade Federal do Ceará ilustra o estado de tensão vivenciada pelos pobres obrigados a morar nos cinturões periféricos.

Os números oficiais não são esses, mas duas fontes das mais confiáveis – o diretor de uma ONG mundialmente respeitada e um jornalista especializado de um dos principais órgãos de imprensa da região – me asseguram que o número de favelas no entorno de Fortaleza chega a 800 e que mais de 1200 assassinatos ocorreram na cidade até outubro deste ano. O truque para manter os índices de violência da cidade relativamente baixos seria registrar crimes cometidos na periferia em delegacias de municípios vizinhos, como se lá tivessem ocorrido.

Para completar, duas das principais praias urbanas da cidade (e as mais próximas da rede hoteleira), Iracema e Meirelles, degradaram-se a tal ponto nas últimas décadas que com regularidade já não apresentam condições de balneabilidade. Trata-se de exemplo cabal de turismo predatório

Perguntas:

1) Que paraíso é esse, que privilegia apenas o grande capital, enquanto as maiores cidades do Nordeste vêm conseguindo combinar crescimento, inclusão social e combate sistematizado à prostituição infantil?

2) Por que tamanha discrepância entre imagem projetada e realidade constatada?

A resposta é simples: o neocoronelato Jeraissati/Gomes, que nos últimos 22 anos domina o Estado, sempre recebeu, por parte da “grande mídia”, o mesmo tratamento privilegiado que seus pares paulistas. O mesmo trololó sobre “choque de gestão” e “modernização” é a fachada midiática para um projeto de privatização do Estado e de seu aparelhamento para fins partidários. Aqui, pedágios e mega-obras; lá, indústria turística.


Inconstância e ligações com a direita

Esboçadas as razões que ligam Ciro, por um lado, ao modo de ser peessedebista e, por outro, ao neocoronelismo, há, por fim, uma última questão a ser debatida em relação ao atual xodó da centro-esquerda paulista: sua impressionante volubilidade político-partidária. Durante esse tempo todo, Ciro trocou de partido como quem troca de roupa. Começou no PDS (que está para Arena, partido de apoio ao regime militar, assim como o DEM está para o PFL – ou seja, só muda a marca de fantasia). Pelo partido elegeu-se deputado estadual em 1982, época em que o general Figueiredo – aquele que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo – mandava no país. Ciro tentou negar que tivesse apoiado a ditadura, mas os fatos são os fatos.

Em 1983, foi para o PMDB, reelegendo-se deputado estadual três anos depois – mas, de novo na metade do mandato, trocou a agremiação pelo PSDB, partido no qual ficaria mais tempo (impressionantes 8 anos!). Do partido hoje comandado por seu inimigo público José Serra saltou para o PPS do camaleônico Roberto Freire, com quem brigou (Ciro queria que o partido apoiasse o governo Lula, mas o esquerdista convicto Freire preferia outras companhias - mais à direita, é claro). Assim, ingressa em 2003 no PSB, onde permanecerá sabe-se lá até quando.

Causa espanto o entusiasmo que um personagem político ideologicamente tão inconsistente e tão volúvel em termos de compromissos político-partidários tem despertado na centro-esquerda. Como confiar em tal candidato? Que garantias ele é capaz de fornecer à centro-esquerda? É possível esperar consistência e compromissos a longo prazo de um político com tal trajetória? Parece-me muito difícil responder afirmativamente a tais questões.

Colabora sobremaneira para o entusiasmo a meu ver excessivo com Ciro Gomes a alegada escassez de candidatos petistas competitivos - e há muito a debater sobre as razões e desrazões por trás de tal premissa. Mas isso será tema para outro post...


(Imagem retirada daqui e tratada digitalmente)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Natal e o tempo

Muitos não gostam do Natal ou a ele se referem de forma depreciativa, seja devido ao que há de artificial em uma festa de motivos e costumes importados, ou pelo convencionalismo a ela inerente, que proporciona mais um round para as pequenas intrigas e hipocrisias familiares, ou por encará-la como uma data triste, propícia à melancolia e à introspecção.

Não me incluo entre tais pessoas – ou ao menos, durante um longo tempo, não me incluí.

O Natal sempre foi para mim uma espécie de ápice anual. Minha infância foi passada contando os dias que faltavam para chegar ao meu aniversário e ao Natal. Ok, admito: eu era um pirralho muito materialista, interessado sobretudo nos presentes que ganharia nessas duas ocasiões...

As festas na enorme casa de minha avó, numa cidade particularmente aprazível do interior de São Paulo, em meio a dezenas de tios, primos e convidados, eram pantagruélicas - se você assistiu a “O Poderoso Chefão” e se lembra da comemoração do casamento tem uma pálida idéia do que eu estou falando.

Mas até o início da adolescência o Natal era, para mim, a manhã do dia 25, quando eu e a matilha de primos e primas acordávamos ansiosos e corríamos para a sala de jantar, onde estavam dispostos, em nichos separados e demarcados por nosso sapatos - que transbordavam de chocolates -, os brinquedos de cada um. Tive uma infância repleta de Natais inesquecíveis, embora nessa época eu não desse muita sorte: quase todo ano um dos brinquedos que eu ganhava estava quebrado – o mais irritante, para mim, foi uma caixa registradora para crianças (olha o materialismo aí de novo), que eu desejava obcecadamente, ganhei, mas que não houve jeito de fazer funcionar...

Não que essa irritação fugaz – logo esquecida em nome de outro brinquedo, chocolates, sorvetes no Romanelli, disputas com os primos ou idas à piscina do clube – importasse. O que realmente contava – e isso era claro para mim já naquela época – era a atmosfera daqueles dias, a generosidade e o amor dos pais e das tias, dos quais os presentes eram apenas sua expressão materializada De modo que a expressão “like Christmas morning when you’re a kid” sempre traduziu, para mim, o mais completo estado de felicidade – que só se equipararia, anos depois e em outro registro, pelos momentos em que amor e sexo se confluíram plenamente.

Assim, embora respeite e compreenda aqueles que, pelas razões expostas no primeiro parágrafo, não gostam do Natal ou, por professarem religiões não cristãs ou religião nenhuma, não se identificam com a data festiva, não consigo nem quero compartilhar de tais sentimentos – embora entenda, cada vez mais, porque muitas pessoas ficam melancólicas nessa época do ano.

A infância foi apenas uma etapa de minha felicidade natalina – que incluiu uma adolescência e uma juventude também repleta de maravilhosos dezembros. Algo dessa felicidade tem se renovado anualmente, em novos cenários, nos anos adultos, embora a ação do tempo, implacável, tenha produzido danos consideráveis e ceifado muito do que sempre me pareceu eterno: pessoas queridas que se foram e o fechamento (e aluguel a terceiros) da casa da minha avó foram particularmente dolorosos.

Mas a lembrança da felicidade plena dos Natais de minha infância, a certeza da concretude de sua existência, é, hoje, ainda mais forte do que a dor das perdas e a supera como estímulo à continuidade do culto ao Natal e ao que de mais essencial e intrinsecamente humano ele representa: a manifestação dos afetos, a generosidade desinteressada e a crença na possibilidade da felicidade.


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Vinicius de Moraes)


(Imagem retirada daqui e retrabalhada digitalmente)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dilma e o autoritarismo machista

O fato político da semana foi, a meu ver, a aparição de Dilma Rousseff sem peruca.

Além de o novo arranjo capilar da pré-candidata à Presidência ter ficado, do ponto de vista estético, melhor – pois contemporâneo e mais suave, “afinando” o rosto “cheio” de Dilma –, ele fecha, em sua simbologia, um ciclo: o da doença, efeitos colaterais do tratamento e recuperação.

Claro está que, infelizmente, o corte a la garçon dos cabelos da ministra, embora indique rejuvenescimento, não é o equivalente a um atestado de recuperação contra o câncer linfático que a acometeu. Mas não deixa de agregar um sinal positivo a sua imagem e tende a ter um peso considerável para as parcelas do eleitorado acometidas pela Síndrome de Jó, aquela em que basta ver para crer.

O novo look vem a público em um momento em que o rejuvenescimento de Dilma não se dá apenas em termos de aparência física – mas, como comprovam as pesquisas, também de perspectivas eleitorais: a diminuição da distância em relação ao estagnado José Serra, somada às tendências verificadas em relação ao voto não induzido, tem feito os pré-candidatos a vice se digladiarem para compor, ao seu lado, a chapa situacionista.

Por outro lado, a divulgação, via internet, da ficha policial falsa utilizada pela Folha de S. Paulo e a circulação de emails apócrifos atribuindo à ex-militante crimes que sabidamente não cometeu continuam – e, segundo fontes confiáveis, são neste momento alvo de intensa curiosidade de policiais federais.

No entanto, talvez mais persistente do que tais táticas inqualificáveis de disputa eleitoral – que revelam mais sobre o caráter daqueles que se opõem a Dilma do que sobre a acusada – seja a difusão do discurso segundo o qual a pré-candidata da aliança governista seria “autoritária”, “truculenta”, “intransigente”, “ríspida”.


Campanha orquestrada

Em que se baseia tal discurso? Na era da informação e da imagem (digital, capturada até por celulares), onde estão as provas do alegado autoritarismo de Dilma? Desconhece-se vídeo em que a atual ministra apareça destratando um interlocutor ou agindo de forma prepotente ou sendo hostil. Fotos? Há a cômica, lombrosiana, coleção que ilustrou a coluna de Ruth de Aquino em Época – mas é preciso desconhecer totalmente tanto princípios da edição fotográfica quanto da Análise do Discurso para levar tal manipulação tosca a sério. Depoimentos? Não conheço nenhum que não venha de desafetos ou de adversários políticos ou de ex-funcionários demitidos. Brigas públicas, barracos, bate-bocas? Necas.

Nesses casos, comparações ajudam: Kassab reage reiteradamente de forma agressiva e perdeu a linha duas vezes, atacando aos berros cidadãos paulistanos (tudo devidamente registrado em vídeo e áudio); já o autoritarismo de Serra é ostensivo, corroborado por dezenas de testemunhas e traduzido em atos como a repressão policial aos estudantes na USP e a tentativa diuturna de manipular a imprensa. Tudo embalado por um sorriso tão postiço quanto ineficiente - pois antipático. Porém, quantas vezes o leitor se deparou com textos acusando Kassab e Serra por conta de tais características pessoais, em comparação com o número de textos acusando Dilma de autoritária?

Muito menos, certamente, pois claro está que se trata, no caso da pré-candidata, de uma campanha melíflua, construída e orquestrada de modo a explorar o inconsciente machista da sociedade brasileira, confundindo propositalmente firmeza e personalidade forte com truculência – algo que dificilmente se verifica quando se trata de um homem na política.

Até mesmo feministas distraídas têm caído no lenga-lenga que apregoa o autoritarismo de Dilma, como se desconhecessem que uma das mais antigas e renitentes reações patriarcais à emergência do poder feminino é instituir uma dupla inquisição, baseada em estereótipos sexistas: se suave e delicada, a mulher seria incapaz de exercer o poder, por frágil e incapaz de se impor; se aguerrida e impositiva, seria agressiva, inábil – numa palavra: marimacho.

Já apoiadores de Marina Silva, alguns deles alegadamente simpáticos à luta feminista, compraram essa campanha difamatória e baseada em preconceitos sexistas como forma de comparar Dilma desfavoravelmente em relação à candidata que preferem. Adotam tal modelo comparativo fingindo não ver que reforçam, assim, o estereótipo segundo o qual mulheres têm de ser “femininas’, ternas e afetuosas, reprimindo suas pulsões agressivas sob um manto de boas maneiras – algo com que os homens simplesmente não têm de se preocupar.

No entanto, o fato de a ministra ser assertiva e diligente não a desqualifica, bem como a personalidade branda, extremamente conciliadora de Marina não a diminui. Trata-se de uma questão de diferença de modos de ser e de estilos, e não de supremacia pré-determinada de uma candidata sobre a outra. Como escrevi quando do lançamento da pré-candidatura da senadora acreana:

“Se a espiritualizada e reflexiva Marina prefere assumidamente guiar-se pela combinação de intuição e razão, manifestando suas idéias de forma ponderada, articulando-as pausadamente e sem alterar o tom de voz, como que guiando o interlocutor pela combinação de sensatez e inteligência que de ordinário a caracteriza, Dilma Rousseff, a encarregada do PAC, sempre às turras com a concessão de licenças ambientais, faz o estilo “xerifão”, direto e impositivo, afeita ao exercício do poder, impressionando e eventualmente acuando o interlocutor pela velocidade do raciocínio e pela determinação”.

Como fica implícito no trecho citado, a função executiva exercida pela ministra demanda um tipo de atitude assertiva que não é requerida de uma parlamentar, de quem se exige prioritariamente capacidade de conciliação. Portanto, nem o atributo de uma nem o de outra as desautoriza, a priori, como candidatas.

Daí a endossar essa campanha difamatória, preconceituosa e anti-feminista contra Dilma – como mesmo setores marinistas vêm fazendo – equivale a tomar, deliberadamente, parte em um ato que, uma vez mais, tende a revelar mais sobre quem acusa do que sobre quem é – injustamente, no caso – acusado.


P.S. Como a reforçar as observações acima, em 22/12 o colunista Augusto Nunes, de Veja, outorgou a Dilma o título de "Homem Sem Visão do Ano". É a soma de humor sem graça, preconceito sexista e militância política travestida de jornalismo.


(Foto da autoritária Dilma, fingindo chorar, retirada daqui)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Copenhagen - reflexões sobre um fracasso

Uma menina de catorze anos, bastarda, exaurida após um dia inteiro de trabalhos domésticos para a avó - viúva de “um contrabandista legendário“ e que explorava a neta como a uma serviçal - foi-se deitar, esquecendo de apagar a vela.

”Pouco depois, o vento da sua desgraça meteu se no quarto como uma manada de cães

Ao amanhecer, quando por fim se acabou o vento, começaram a cair umas gotas de chuva grossas e separadas que apagaram as últimas brasas e endureceram as cinzas fumegantes da mansão (...) Quando a avó se convenceu de que ficavam muito poucas coisas intactas entre os escombros, olhou para a neta com uma compaixão sincera:

- Minha pobre menina suspirou. Não te chegará a vida para pagar me este percalço”.

Por conta do incidente, a avó decide prostituí-la, até que recupere o valor da casa e de tudo o que havia dentro – condenando, na prática, a garota a uma pena perpétua de exploração.

Esse conto de Gabriel García Márquez, uma pérola do realismo fantástico publicada em 1972 e intitulado “A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avô desalmada”, tem sido há tempos apontado como uma das mais rascantes alegorias das relações de dependência e exploração que, em tempos coloniais ou não, a América Latina – e, por conseguinte, as demais regiões subdesenvolvidas do globo – teria com as forças imperiais que a oprimem, notadamente os Estados Unidos.

Ele transpõe ao universo da literatura ficcional, de forma sucinta e emblemática, as bases de uma visão de mundo que se manteve como um veio interpretativo central por boa parte do século XX. Com raízes no século XIX, seu arcabouço teórico se erige no marxismo latino-americano, passa pela CEPAL e culmina com a Teoria da Dependência.
Neoliberalismo e globalização como discursos
O advento da ideologia neoliberal teve como um de seus efeitos mais bem-sucedidos a alegada superação de tal visão de mundo. Exaltar os aspectos positivos da globalização (comunicacionais, tecnológicos, culturais), em detrimento da análise de seus efeitos negativos (no emprego, na microeconomia, na, uma vez mais, cultura) foi parte essencial da “prática discursiva pela qual se montam e se difundem as significações necessárias à aceitação generalizada do fenômeno”, como aponta Muniz Sodré, para quem a confusão proposital entre neoliberalismo e globalização estaria na base de um processo que dissimula a concentração do capital financeiro e os mecanismos de desemprego crescente (ver o artigo “O globalismo como neobarbárie”, no imprescindível livro organizado por Dênis de Moraes, Por uma outra Comunicação – Mídia, mundialização cultural e poder).

Assim, ao maravilhoso mundo novo da globalização, encurtador de espaços, diluidor de fronteiras, dissipador de diferenças, tornou-se extremamente demodée contrapor um discurso baseado em dados sócio-econômicos e em comparações de base histórico-quantitativas. Até mesmo porque, em muitos aspectos e guardadas as irrevogáveis cores regionais, o mundo parecia destinado a tornar-se um imenso Estados Unidos.. Não poucos saudavam efusivamente tais premissas.

O fracasso colossal do receituário neoliberal, que teve na renitente crise econômica mundial o mais óbvio dos indícios, mas de forma alguma o único – como atesta o número crescente de desempregados e de flagelados pela fome no mundo, hoje na casa das centenas de milhões de pessoas - não trouxe em seu bojo, no entanto, uma revisão de tais práticas discursivas. Notavelmente, porque elas são parte constituinte do próprio capitalismo tecno-comunicacional, que continua utilizando os meios à mão para impor seus interesses.

Porém, quando os países desenvolvidos, em desenvolvimento e pobres são confrontados entre si em relação a um tema de essencial importância à humanidade – o futuro do planeta, ameaçado pelos efeitos do aquecimento global –, como ocorreu em Copenhagen, as alegadamente ultrapassadas e “ideológicas” relações entre império e colônia, centro e periferia, matriz e metrópole, voltam com toda força.
Copenhagen como ringue pós-colonial
Senão, vejamos: ao que se assistiu na Dinamarca foi uma luta incessante de países emergentes (ou seja, ex-colônias que ainda têm seriíssimos problemas sociais) – notadamente Brasil, Índia e China – contra a inação e o boicote ostensivo das potências econômicas, que mantiveram-se impassíveis em seu desprezo pelo futuro da humanidade - tais como senhores em relação a seus escravos -, continuando a defender o interesse das grandes corporações, privilegiando a acumulação capitalista a qualquer custo, seja ele humano ou ambiental.

Pode-se objetar que o protagonismo de Lula no evento – abundantemente reconhecido pela mídia internacional, incluindo El País e Le Monde e marcante, com uma postura pró-ativa e uma rara proposta efetiva em seus momentos finais - é indício de uma nova correlação de forças, e que, para o bem (a dinâmica transnacional das trocas econômico-financeiras na globalização) e para o mal (o fato de que corporações multinacionais são mais ricas e têm mais poder do que muitos países), a nova configuração geopolítica mundial requer novos modelos interpretativos. Não discuto tal premissa.

Assim como não ousaria negar que o velho imperialismo de fundo colonialista, redivivo para os que o acreditavam morto, se não deu o tom da reunião em Copenhagen, definiu efetivamente seus (pífios) resultados.

O histórico discurso que o presidente brasileiro proferiu ontem deve ser duplamente saudado: primeiro, por apresentar uma proposta concreta, factível e que contempla os interesses dos três grupos de países parágrafos acima mencionados; segundo, por apontar de forma clara e objetiva os culpados pelo malogro. A fala de Lula teve um efeito desmistificador, colocando o impasse economia vs. ecologia no centro da discussão – como um bode em plena sala - e explicitando por que os principais líderes mundiais lutam para dirimir qualquer acordo: “A questão não é apenas discutir o clima, mas oportunidades iguais para todos os países”.

Do ponto de vista dos interesses nacionais (e de alguns outros países com potencial para exploração massiva do etanol), a proposta me parece ter mais pontos positivos do que negativos. Não compartilho, portanto, nem com o entusiasmo desbragado do blog do Nassif nem com a visão pessimista de @caetano_pacheco, que li no blog de Flavia Cera.

Prós e contras do projeto brasileiro
As condições de trabalho na cana-de açúcar são o grande empecilho do projeto. Seria necessária a criação de linhas de crédito para o fortalecimento da fiscalização trabalhista tanto em âmbito interno – necessariamente com a participação de organismos da sociedade civil – quanto externamente, sob a alçada da OIT. A resolução da questão das condições de trabalho nos canaviais – que deve incluir forte estímulo à mecanização e adoção, pelos países importadores, de selos de aprovação que incluam exame das condições de produção, como é feito em relação à carne – é condição sine qua non para a implementação do projeto.

Porém, daí a afirmar que “a liberação da commodity do etanol a países subdesenvolvidos acaba de consolidar o povo dos países pobres como os pagadores da conta do aquecimento global ,“ como faz o prezado Pacheco parece-me uma assertiva por demais generalizante e pouco matizada. Primeiro, porque quem luta para impor o comércio mundial do etanol são o Brasil e um grupo de nações, contra a vontade das potências econômicas mundiais. Segundo, porque ele dar-se-ia na forma de transação comercial (e não de extrativismo colonialista, como no passado) – portanto, bem encaminhada a questão trabalhista, quem pagaria a conta seriam, efetivamente, os países ricos.

Terceiro, e mais importante, porque o projeto apresenta uma proposta efetiva de, através do trabalho e do comércio internacional, tirar a população de vários países da pobreza extrema, além de contribuir de forma significativa para a produção de “energia limpa” em substituição parcial ao petróleo.

O acordo assinado ao final da cúpula não passa de uma tentativa pró-forma de não dar a impressão de um total fracasso. O tema imporá, já em 2010, amplas discussões globais. A proposta brasileira - que deve mobilizar intensamente nossa diplomacia nos próximos meses -, se conduzida de forma responsável, pode transformar-se em uma chance real de inclusão de um número expressivo de nações no rol do comércio internacional, podendo, portanto, vir a colaborar significativamente para o fim das relações de dependência e servidão entre Erêndira e sua avó desalmada.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Tweets Secretos da República 3

De @marina.s para @sonsinha
Quero ser como vc qdo eu crescer! Me ensina a dissimular assim, com esse ar de estudante de Comunicação, gracinha!


De @zexirico para @schazernego
Tbem quero ser O Exterminador do Futuro! Vamos fazer um evento juntos – a imprensa internacional vai ignorar, mas o Tavinho dá capa.


De @ruda para @deps.deBSB
Gente, tira uma folga até depois do carnaval e deixa essa onda de impeachment esfriar. Depois eu choro um pouco e esses trouxas me reelegem.


De @certoexpresidente para @seupsicanalista [aos prantos, esmurrando almofadas]
Falo 6 línguas, ganho $100mil por conferência, fiz tudo q o capital internacional mandou – e o mundo só fala no sapo barbudo. Até o El País!


De @financeirodaFalha para @tavinho

Depois do boicote dos blogs amestrados, tamos indo pro vinagre de vez. Disfarça aí, fala mal do PSDB um pouco, ou falimos já em 2010.


De @zexirico para @berlusca
Caro Duce, favor deportar seu agressor pro Brasil o quanto antes. Acho que só assim nocautearemos o maldito apedeuta. Eia, eia, eia! Alala!


De @iedacruzes para @cataosimão
Lindinho, faz + um discurso bem indignado contra a corrupção no PT. Inventa algo. Sobre o RS, biquinho calado, hein! :) Beijinho no cocoruto.


De @kasabo para @zexirico [tweet internacional]
Do careca q ia ser seu vice já se esquecem. Mas manda demitirem o Chico Pinheiro, q mostrou a enchente. Nos jornais, jogamos a culpa na Marta.


De @barac para @warhawks
Dear friends, I did exactly as Cheney told me: hailing the war for bringing peace. Have you already paid the Nobel Committee?


De @marina.s para @zexirico
Fiz como o Sr. mandou, patrão: defendi o mesmo $1bi de graça pros ricos. Emoção foi tanta q no discurso “entreguei” nossa aliança. Foi mal.



(Imagem retirada daqui)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Abraços Partidos: Almodóvar, mais sóbrio, faz grande cinema, com um quê de melancolia

Ninguém filma cenas de sexo como Almodóvar. Em Abraços Partidos há três delas – duas extasiantes e uma tormentosa, e todas recebem tratamento audiovisual único e especial. A primeira, entre o cego Harry (Lluís Hommar) e uma loira estonteante, que conhecera por acaso nas ruas, é um travelling paralelo à parte do trás do sofá em que se engalfinham, de modo que o ato toma a forma abstrata de uma parede vinho de onde emergem em intervalos mais ou menos regulares partes do corpo do protagonista, que está por cima da mulher. Abstrai-se a representação sexual – sem deixar de efetivá-la - em prol de um êxtase visual.

A despeito do excelente desempenho de Hommar como Harry, o roteirista cego que protagoniza o filme, e embora a trama gire em torno do personagem e debata, sob uma perspectiva masculina, temas como sexualidade e paternidade – a um ponto tal que Tudo Sobre mi Padre seria um título perfeitamente coerente para Los Abrazos Rotos -, as mulheres, uma vez mais, roubam a cena: Blanca Portillo está impecável como Judit, a agente de Harry ainda apaixonada pelo cliente e que mascara em praticidade e devoção a tensão interna transbordante provocada por segredos do passado; mas é Penélope Cruz quem rouba a cena, como Lena, a moça que comercializara seu corpo ao patrão magnata em troca de assistência a seu pai, acometido por um câncer terminal, e que, presa desse casamento por interesse, se apaixona por Harry.

Confesso que, até agora, Penélope Cruz não havia me convencido como atriz de primeiríssimo nível. Suas interpretações em Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008) - que lhe valeu o Oscar -, em Não Se Movas (Sergio Castelitto, 2004) e, sobretudo, em Volver (Almodóvar, 2001) confirmavam um talento que juntava beleza, naturalidade e técnica, mas ao qual parecia faltar um certo élan que só as grandes damas da interpretação alcançam. Em Los Abrazos Rotos, no entanto, ela atinge sua melhor forma, com um dos mais impressionantes desempenhos femininos no cinema dos últimos anos. Percorre uma vasta gama de registros dramáticos: paixão, ódio, nojo, euforia, repulsa, dissimulação, utilizando de forma extremamente expressiva os olhos e a boca – como a deliciosa sequência em que fotografa como Audrey Hepburn demonstra de forma didática -, e a essa expressividade acrescenta uma tensão permanente e um quê de melancólico que são a pedra de toque de sua performance.

O fato de o protagonista Harry trabalhar como roteirista de cinema propicia uma multiplicação das referências metacinematográficas, como o hilário roteiro para um filme de vampiros que desenvolve com o jovem Diego (Tamar Novas) e, com maior ênfase, através da filmagem, edição e reedição de um filme dentro do filme – uma comédia de cenário multicolorido e com ecos de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), protagonizada por Lena. O ciúme que ela desperta em seu marido, o magnata Ernesto Martel (José Luis Gómez), também é pretexto para novas intervenções metacinematográficas, tanto através da vigilância que, a pretexto de fazer um documentário, Ernesto Martel Jr., vulgo Ray X (Rúben Ochandiano), leva a cabo com sua câmera quanto com as sessões em que o milionário, com o auxílio de uma profissional que lê lábios, acaba por descobrir-se traído pela esposa.

A profusão de cores vivas de muitas das obras de Almodóvar dá lugar a um padrão cromático que, apesar da presença eventual do laranja, privilegia as cores frias, como o azul cobalto, e os tons escuros, do cinza ao marrom escuro. A direção de arte é menos ostensiva e detalhista do que de costume, a despeito das cruzes multicoloridas que adornam as paredes das casas de Harry e de Judit e das estantes feitas de múltiplos compartimentos, as quais funcionam como um segundo plano esteticamente rebuscado e metaforicamente sugestivo dos personagens em cena.

As referências ao mestre do melodrama Douglas Sirk são uma vez mais evidentes, no universo doméstico dos conflitos, na dramaticidade das relações paternais e filiais e na oposição entre união por interesse e amor verdadeiro mas trágico. Em certo sentido, o filme pode ser interpretado como uma espécie de versão masculina de Sublime Obsessão (Magnificent Obsession), que realizador dinamarquês dirigira nos EUA em 1954. Almodóvar percorre, talvez com mais intensidade do que obras anteriores, um repertório de temas clássicos do gênero, com doenças terminais, morte paterna, cegueira, vingança filial, segredos do passado e até mesmo uma sequência-chave que se desenrola numa escada – locus arquetípico do melodrama.[A partir de agora, o post apresenta spoilers; se não quer saber o final do filme, não leia.]

Abraços Partidos peca, ma minha opinião, pela manutenção insatisfatória do interesse narrativo após o acidente-clímax em que morre Lena. A deficiência mais recorrente no cinema de Almodóvar – a perda de ritmo narrativo ao longo do filme –, que até então vinha sendo contornada de modo raro em sua filmografia, enfim se manifesta, tornando a meia hora final um tanto maçante. Parece-me que a longa explicação do passado da relação de Harry (que então se chamava Mateo) e Judit funcionaria melhor se substancialmente encurtada, e a demasiado grande sequência do filme dentro do filme poderia perfeitamente ter sido descartada: não há dúvidas de que o trecho da comédia remontada por Harry é efetivamente mais engraçado do que seus takes anteriormente mostrados, mas é excessivamente longo e não tão engraçado a ponto de justificar sua presença intrusiva em meio ao melodrama. Soa como uma tentativa cabotina de Almodóvar de responder aos críticos saudosos de seu humor rascante e uma maneira algo tola de terminar o filme com a personagem de Penélope Cruz viva.

Mas, a despeito de tais ressalvas, o filme é perpassado por uma intensa tensão dramática, faz um retrato verdadeiro e dilacerante das ilações entre tempo e destino e entre relações de interesse e de amor. Embora sem carregar nas tintas e preservando o humor - em irrupções breves mas mordazes -, sugere uma inquietação melancólica e reflexiva na alma criadora almodovariana. Ademais, propicia momentos de grande cinema, como quando a plasticidade das imagens, enormes, de radiografias ocupa a tela, em cuidadosa montagem; ou nas tomadas aéreas da estrada que leva ao litoral espanhol, ladeada de imensas formações rochosas negras; ou quando a cegueira de Harry é pretexto para explorar a relação entre a memória tátil e memória sentimental: enquanto imagens frame a frame do último beijo que ele dera em Lena são projetadas na tela de uma TV, o protagonista tenta senti-las com a mão, como se de um filme em braile se tratasse.

Com Los Abrazos Rotos (título cujos significados a tradução para Abraços Partidos não alcança), Almodóvar consegue um feito raro na história do cinema: manter-se, por duas décadas, como um nome central no cinema internacional, e a um ponto tal que a marca de sua assinatura pessoal consolidou-se mesmo junto ao público mais amplo do cinema mainstream, o qual amealha.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Polícia para quem precisa de polícia




USP, Porto Alegre, Brasília: será que os demotucanos não conhecem outro método de dissuasão de manifestações populares além da truculência policial?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Como agem os covardes

Tom Jobim é um dos meus grandes ídolos. Encarna, na minha opinião, algumas das características mais agradáveis de uma imagem idealizada do brasileiro: é gentil, criativo, inteligente, sensível, espirituoso, boêmio; admira e exalta as mulheres, foi ecológico avant La lettre, é internacional sendo profundamente brasileiro, tem reverência pelos predecessores mas é inovador, faz lindas músicas e – talvez o que mais me agrade – é muito engraçado, um figuraça.

No entanto, numa entrevista para o Roda Viva a que eu assisti tantas vezes que estraguei a fita (nos tempos do VHS), mas cujos links para a versão digital integral me foram fornecidos por Raphael Neves, do politikaetc., com os dizeres: “aí vai um presente” – o qual eu, maravilhado em poder rever o programa, assim o considerei -, Tom insiste numa oposição entre “homens de bem” (entre os quais ele se inclui) e “os outros” que me incomoda.

Não gosto dessas distinções peremptórias entre seres humanos estabelecidas a priori, sejam positivas (“homem de bem”, “cidadão exemplar”), sejam negativas (“bandido”, “marginal”, “pivete de rua”). Desagradam-me sobretudo porque tais diferenciações facilitam o agravamento da confusão reinante entre pobreza e criminalidade. Transgrediu-se a lei? Que seja julgado e punido, podendo, aí sim, ser considerado um criminoso enquanto estiver cumprindo pena. Pagou sua dívida com a sociedade? Volta a ser cidadão. É assim que a lei funciona, goste-se ou não.

Decorre dessa posição - e do horror ao neoudenismo - minha opinião contrária a campanhas do tipo “Parlamentar ficha limpa”. Primeiro, porque o cidadão, queira ou não concorrer a cargo público, só pode ser considerado culpado após sentença transitada em julgado - e, mesmo neste caso, como exposto no parágrafo acima, recupera seus direitos após pagar a pena.

Segundo, porque seria facílimo para o grande capital criar uma usina de processos contra políticos de esquerda – e nossa Justiça, que condena Erundina e poupa os que “roubam mas fazem”, certamente acabaria por acatar alguns deles.

Se a Justiça não funciona a contento, que seja reformada, sem estuprar a Constituição.

Essa posição, digamos, legalista, não quer dizer, no entanto, que eu considere que a lei abarque todas as transgressões sociais – não o faz particularmente em relação a uma série de violações morais. Por exemplo: parece-me inegável que o rumo que a atuação política de personagens como Sonsinha ou Gabeira tomou nos últimos tempos, em contraposição às suas respectivas atuações pregressas pode levar seus seguidores de longa data a considerarem-se traídos. Mas a resposta à metamorfose de tais figuras não é da alçada da Justiça, e sim das urnas.

Já quando debilóides ressentidos da pseudoesquerda se aliam a pasquins decadentes ligados à pior direita para difamar cidadãos trata-se de covardia da pior espécie.

O mesmo se dá quando crackers anônimos, a soldo ou por escravidão voluntária aos interesses do grande capital, atacam o blog de quem está apenas exercendo seu direito de expor, de maneira polida e argumentativa, suas idéias – como ocorrido neste espaço nos últimos dois dias, sempre no mesmo post sobre o "caso Cesinha" na Folha e incluindo, no primeiro ataque, a colocação de banners saudando a ditadura militar brasileira.

Tais ataques corroboram e legitimam minhas críticas à direita e vêm confirmar que esses são seus métodos: antidemocráticos e visando interditar o debate através da truculência.

A história não se repete, senão como farsa, já dizia o velho Marx: ontem, bombas e espancamento de atores; hoje, intimidação a blogueiros e uso truculento e ilegal da tecnologia.

Por mim, tudo bem: tenho backup do blog inteiro e, se necessário, migro para um hospedeiro mais seguro. Como dizia, em plena ditadura, o grande letrista Paulo César Pinheiro – que compôs a bela Matita Perê com Tom Jobim -, “Você corta um verso, eu escrevo outro”.

A luta será renhida.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Deixa Ela Entrar: muito mais do que um "filme de vampiro"

Na profusão de hipérboles que caracterizam os dias de hoje, alguém já chamou Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, Tomas Alfredson, Suécia, 2008) de “o mais original filme de vampiros já realizado”.

Trata-se de uma afirmação questionável, em um subgênero que, além das obras-primas que o definiram – como Nosferatu, de Murnau (Alemanha, 1922) e Drácula, de Tod Browning (EUA, 1931) -, conta com as clássicas refilmagens e sequências produzidas pela produtora britânica Hammer nos anos 50, protagonizadas por Christopher Lee, e com adaptações plenas de inventividade, como o hilário Dança dos Vampiros (1967), de Roman Polanski, o Nosferatu (1979) de Werner Herzog e o Drácula (1992) de Coppola, sem esquecer bobagens deliciosas como Os Garotos Perdidos (Joel Schumacher, EUA, 1987) e o brasileiríssimo As Sete Vampiras (Ivan Cardoso, 1986).

Lançado numa era em que filmes sobre vampiros viraram modinha adolescente, Deixa Ela Entrar se destaca, no entanto, justamente pela recusa em recorrer a clichês para contar uma história de amor sui generis que é, a um tempo, uma parábola sobre os ritos de passagem para a vida adulta e uma sutil, quase imperceptível alegoria política.

Mas é justamente através do retrato de um adolescente de 12 anos, o tímido e solitário Oskar (Kåre Hedebrant), e de seu envolvimento com a vampira Eli (que também tem 12 anos, “mas há muito tempo...”) que o filme enfatiza a força avassaladora da descoberta do amor e da renovação contra o conservadorismo.

O filme opera tal dinâmica sem apelar ao esquemático e ao melodramático, construindo-a aos poucos, sem fornecer pistas fáceis ao espectador: há delicadeza e atenção aos detalhes, mas também brutalidade e atos com conseqüências perturbadoras, que não se justificam moralmente.

Para que tal empreitada tenha sucesso tanto a usual caracterização heróica do protagonista dá lugar ao retrato de um garoto frágil e vítima contumaz de bullying quanto, contrariando o arquétipo clássico do vampiro, a personagem Eli (Lina Leandersson) não é voltada prioritariamente à auto-satisfação por sangue e por eterna juventude (presa à satisfação da libido do ego, em terminologia freudiana), mas alguém que luta desesperadamente para preservar o ser que ama de sua própria necessidade hematológica.

A menção ao pai da psicanálise não é vã: Deixa Ela Entrar, um filme pleno de reflexões ora mais ora menos profundas concernentes à oposição entre pulsões de vida e pulsões de morte, é rico em leituras freudianas diversas. Mais um motivo para, como aponta Inagaki em um ótimo post, ao invés de rotulá-lo como filme de vampiro, parecer " mais adequado classificar Deixa Ela Entrar como um drama focado nos temas universais: amor e morte, desejo e destruição".

O ritmo da narrativa é descompassado, deixando ao espectador a tarefa de deduzir o que as elipses da montagem preferem não explicitar; sua decupagem combina amplos planos gerais da inóspita paisagem de inverno a planos fechados de interiores, com a fotografia explorando a brancura dominante da neve ou o tom pastel determinado pela direção de arte para as roupas e adornos – pontualmente contrastados ao vermelho vivo do sangue, como convém a filmes de vampiros.

O aspecto político da narrativa, pouco observado pelos críticos mas fundamental no livro que deu origem ao filme, busca traçar um paralelo entre a dissipação da barreira entre vampiros e seres humanos (através da relação entre Oskar e Eli) e entre comunistas e capitalistas (através da indistinção do modo de vida dos suecos do extremo norte e de seus quase-vizinhos russos). Isto se verifica tanto em relação ao grupo de adultos medíocres e alcoólatras que servirá para aplacar – literalmente - a sede de sangue de Eli quanto ao grupo de bullyers ao qual adentra o rapagão sanguinolento cujos métodos desprovidos de qualquer ética prefiguram a irrupção das máfias soviéticas.

Mas um dos aspectos superlativos de Deixa Ela Entrar é justamente sua capacidade de abarcar diferentes temáticas sem deixar de produzir, na essência, uma reflexão acerca de questões metafísicas como o tempo, a juventude, a superação do velho pelo novo. E, como que a coroar tais conquistas, culmina num clímax final com sequências antológicas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

MSM e o protesto contra a Folha

Está marcada para amanhã a segunda manifestação pública contra o jornal Folha de São Paulo – desta feita devido, sobretudo, à publicação do artigo “Os filhos do Brasil”, de César Benjamin, um ataque à honra pessoal de um cidadão (e presidente da República), covardemente travestido de análise, em que o perturbado articulista sugere, sem apresentar qualquer indício minimamente consistente, que Lula teria tentado estuprar um preso 30 anos atrás.

O estuprado, claro está, foi o jornalismo, ente cujas premissas éticas básicas vêm sendo reiteradamente desprezadas pela Folha, como este blog tem comentado há tempos. É por agir como partido político e não como órgão de imprensa que um grupo privado de comunicação toma o lugar usualmente reservado ao âmbito da política institucional e ao Estado como alvo das manifestações públicas de repúdio.

A primeira manifestação contra o jornal dos Frias ocorreu no dia 07 de março deste ano, como reação ao emprego do neologismo “ditabranda” para relativizar as práticas do regime militar brasileiro (1964-1984) e como manifestação de solidariedade aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, agredidos verbalmente pelo diretor de Redação Octávio Frias Filho por protestarem contra a novilíngua adotada pelo jornal para se referir ao arbítrio.

Trata-se de um marco, a expressão de um grito há muito engasgado contra uma imprensa desavergonhadamente partidária, tendenciosa e manipuladora. Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Mídia, e todos os que, como Aarles, do Arlesophia, colaboraram intensamente para que o protesto se efetivasse, merecem todo o reconhecimento pela coragem, trabalho e capacidade de organização que empregaram para concretizar tal manifestação pública, caracterizada, convém registrar, pela civilidade e respeito às normas democráticas.

O protesto catalisou um sentimento anti-mídia que, graças aos desmandos da imprensa brasileira, pulsava intensamente na internet – sobretudo na blogosfera –, para a formação do qual colaboraram sobremaneira a crítica sistemática à mídia e a série de artigos de Luís Nassif denunciando as práticas “jornalísticas” da Veja.

Numa dessas noites de troca de idéias no twitter, um grupo de blogueiros realçava a importância da passeata para a profusão de blogs políticos que foram criados no bojo da manifestação – inclusive este que o leitor ora visita -, e a quantidade incrível de blogs cujo primeiro post diz respeito justamente ao “caso ditabranda” - duas tendências que os sites de pesquisa qualitativa em blogs confirmam plenamente e que um dia, quando os estudos de jornalismo na academia brasileira saírem da penúltima década do século passado e descobrirem que já adentramos o século XXI, serão devidamente reconhecidos.Embora tão próxima do presente, lembro dessa época com carinho e algum saudosismo: representou o início de uma fase de intensa atividade na internet, de “dar a cara a bater”, depois de anos – décadas – limitados à produção acadêmica ou, com menos freqüência, cinematográfica.

Foi um espanto e uma alegria, para mim, quando o blog começou a receber os primeiros interlocutores constantes – nominalmente, os queridos Hugo Albuquerque, de O Descurvo – que escreveu um post em que defende a participação no protesto -, e Flávia, do Algodão Hidrófilo. Mas hoje um forte questionamento sobre os limites desse tipo de ação começa a se impor com urgência em minhas reflexões.

Na passeata, vi pela primeira vez Eduardo Guimarães pessoalmente. A impressão de arrogância que ele me passava nos textos se desfez completamente. Mas o excesso de personalismo e a vocação para criar uma imagem de mártir persistiram e, no meu entender, se agravam em relação à passeata convocada para amanhã.Soa-me pra lá de cabotino que Eduardo escreva em seu blog coisas como:

"Comunico aos leitores deste blog que já me decidi: irei à porta da Folha de São Paulo ler um manifesto de repúdio contra o ataque insidioso à honra do presidente Lula praticado hoje pelo jornal. E irei nem que tenha que ir sozinho”.


Ou, num post significativamente intitulado “Alguém tem que fazer”, chegue ao cúmulo de afirmar, em relação a si mesmo:

“Há uma beleza poética em bradar num deserto de ouvidos moucos. É uma imagem romântica e verdadeira. A epopéia humana encerra muitos visionários que só foram “ouvidos” depois de séculos ou até de milênios”.


O ato convocado para amanhã não pertence ao MSM nem a Eduardo Guimarães. Ele tomou forma espontaneamente na blogosfera e na tuitosfera, onde no mesmo dia em que a “matéria” de Cesinha foi publicada já se combinava um protesto a realizar-se no primeiro fim-de-semana viável – ou seja, amanhã.

Portanto, com todo o respeito a Guimarães e ao muito que ele tem feito pela luta por uma mídia melhor, insisto: esse messianismo está fora de lugar e esse personalismo é excessivo e contrário ao espírito de coletividade que marca a internet – onde não há ouvidos moucos, Eduardo, mas uma profusão de seres, uns mais conscientes, outro menos, em permanente diálogo. As relações não são verticais: um fala, os outros ouvem – como com freqüência você me dá a impressão de concebê-las – mas horizontais, dialógicas. Expressando-me nos seus termos: não queremos um líder a nos conduzir nas trevas dos combates, mas um companheiro a lutar ao nosso lado.

Uma outra questão que precisa ser pensada em relação ao protesto de amanhã diz respeito à sua procedência. O jornalista Rodrigo Vianna coloca, em post em seu blog, duas questões importantes, que merecem ser refletidas com calma:

“1) Acho que não devemos levar a "Folha" mais a sério; um ato em frente a jornal, no fundo, é uma forma de (ainda) dar legitimidade ao diário decadente. Acho que é melhor tratar essa gente na base da galhofa. Da crítica mordaz aqui, pela internet.

2) Às vésperas de uma campanha eleitoral que deve ser a mais suja da história (o próprio artigo do pequeno "Cesinha" mostra isso), não me surpreenderia se alguém aprontasse alguma provocação. Não custa nada um "provocador infiltrado" lançar - por exemplo - uma pedra contra a "Folha", o que transformaria o jornal em vítima da "esquerda".”

Concordo integralmente com Vianna. A provocação é uma possibilidade real, da qual a Folha certamente tiraria proveito. O que me parece mais importante, neste momento, é intensificar a campanha pelo cancelamento da assinatura da Folha ou do UOL, movimento que, segundo informações confiáveis de bastidores (parcialmente corroboradas por este post do Nassif, que sugere que as telefonistas do jornal estão sendo orientadas a apresentar justificativas referentes ao artigo de Cesinha) estaria surtindo efeito, com um número expressivo de cancelamentos.

Agastado pelo excesso de personalismo messiânico de Guimarães eu, após ler o arrazoado de Vianna, pensei seriamente em não ir ao ato. Fatores que transcendem a certeza de que essa seria a melhor forma de protestar convenceram-me do contrário: irei (e levarei uma câmera para coletar material para um documentário - e registrar qualquer eventual provocação). Mas vou como parte de uma coletividade, mais um na multidão de cidadãos e cidadãs politicamente ativos que encontraram na internet um meio para se organizar e combinar ações conjuntas – e não como um liderado por ninguém.

P.S. Após o lamentável episódio da intimidação ao blogueiro Antonio Aarles através de medida extra-judicial, fica ainda mais evidente que a campanha pelo boicote à Folha e ao UOL está surtindo efeitos concretos e que preocupam a direção do grupo - muito mais do que manifestações o fazem.

Deixar de comprar e deixar de comentar qualquer matéria da Folha: este me parece o melhor caminho para legar ao jornal a irrelevância que ele, por suas próprias ações, faz por merecer.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Arruda: o que a mídia esconde

Pela segunda vez em sua curta carreira política, o ainda governador José Roberto Arruda (DEM/DF) é protagonista de um grave escândalo político. Desta vez envolvendo corrupção e com evidências amparadas em imagens que, se “não falam por si” – como afirmou o presidente Lula, querendo, uma vez mais, evitar qualquer condenação a priori e enfatizar a importância do trâmite legal –, são eloquentes para justificar uma condenação na Justiça.

Em 2001, Arruda, então senador pelo PSDB, fora flagrado no episódio da violação do painel eletrônico do Congresso, juntamente com Antônio Carlos Magalhães. De início refutou categoricamente as acusações, mas, ao constatar que suas negativas não surtiriam efeito, mudou de tática e, aos prantos, admitiu a culpa e implorou perdão, renunciando para não ficar inelegível por um período de até oito anos. O show de hipocrisia melodramática surtiu efeito e, para consternação das pessoas de bem, pouco mais de um ano após o grave episódio, ele era eleito deputado federal, com a maior votação proporcional do país. Senti um misto de raiva e de pena do eleitor brasiliense.

O atual escândalo põe em evidência, uma vez mais, uma personalidade política das mais abjetas: além dos escândalos em que se meteu, Arruda, segundo declarações do ex-secretário de Assuntos Institucionais do Distrito Federal Durval Barbosa (constantes do inquérito 650-DF, referente à Operação Caixa de Pandora), o teria ameaçado nos seguintes termos: "Se você apresentar essas imagens da minha pessoa, você me avise com cinco dias de antecedência que é para eu sumir ou dar um tiro na minha cabeça ou te matar”.

Desde o primeiro momento, a questão essencial que se colocou, para mim, em relação ao escândalo, foram quais eram as razões que teriam motivado tais denúncias - a quem interessa a queda e o desprestígio de Arruda? Nunca cri que elas se devessem ao medo de Durval de que as ameaças contra ele fossem cumpridas – mesmo porque, com a exibição pública dos vídeos que gravara, o ex-Secretário também seria criminalmente envolvido e, mesmo tendo costurado um acordo de delação premiada com o MP que certamente diminuirá sua pena, sua vida passaria a valer tanto quanto uma nota de R$30. Algum estímulo extra teria de estar por trás da sua decisão de delatar.

Uma fonte cujo anonimato será preservado sugeriu-me uma hipótese bem mais elaborada: a figura por trás das denúncias seria o ex-governador Joaquim Roriz, dando vazão a uma magistral vendetta contra Arruda, a quem sempre responsabilizou pelas investigações na PCDF que o forçaram a renunciar ao governo do DF. Faz sentido: o ex-mandatário sabia que Arruda teria de cumprir o acordo com Paulo Octávio pelo qual, após governar 4 anos, reeleito, passaria o poder a seu vice - não permitindo, portanto, que o "velho" Roriz almejasse voltar a dar as cartas, candidatar-se ao governo (tinha 33% contra 44% de Arruda na última pesquisa Ibope) ou impor como candidata Jaqueline Roriz (que, evidenciando o conflito, abandonou o governo Arruda há meses). Vale lembrar que, segundo a mesma fonte, Roriz – que tem um passado de enfrentamentos e reconciliações com Arruda, culminando com o rompimento do partido com as bases do ex-governador na última eleição - tinha cópia das fitas de Durval, tendo feito até sessões privadas de exibição antes do escândalo estourar. E, significadamente, os registros dos envolvidos que não trairiam Roriz não teriam sido divulgados. Trata-se de uma linha de investigação a ser seguida.

No bojo do escândalo, o PPS do catão camaleônico Roberto Freire e da volúvel Sonsinha tentou, como fazem os roedores, abandonar o barco às pressas, mas era um pouco tarde demais: além de ser altamente improvável que a mamata se restrinja ao DEM, “há gravações que implicam o presidente local do partido e subsecretário de Saúde, Fernando Antunes, acusado de cobrar dinheiro para a campanha eleitoral do partido em São Paulo”, como atesta o jornalista João Bosco Rabello, do Estadão, em seu blog corporativo.

A “grande mídia”, Globo à frente, parece ter definido uma linha de cobertura a ser seguida: queima-se o DEM (com a ressalva de que se ele expulsar Arruda, pode-se afirmar – como ontem a Globo News já ensaiava fazer - que o partido pune seus “mensaleiros”, ao contrário do PT), mas preserva-se o PSDB a qualquer custo.

Trata-se de uma operação hercúlea. Primeiro, porque Durval Barbosa acusa, em depoimento à Polícia Federal, o presidente do PSDB do DF e ex-Secretário de Obras de Arruda, Márcio Machado, filiado ao partido há mais de quinze anos, de ser o responsável pela coleta e distribuição de fundos do mensalão aos tucanos. Segundo porque, como tal denúncia evidencia, o que foi dito em relação ao PPS vale para o PSDB: fazia parte da coalizão governista e, nesta condição, é ilógico achar que o grotesco episódio de distribuição de pacotes de dinheiro a deputados não o beneficiasse – trata-se da Polícia Federal aprofundar as investigações nessa direção, o que certamente fará.

Terceiro, porque as ligações de Arruda com o partido em que permaneceu seis anos vêm de longe: como já mencionado, foi como senador pelo PSDB que ele foi flagrado violando o painel eletrônico a favor do amigo Luís Estevão. Mais do que isso: o governador de Minas Aécio Neves aparece ao lado de Arruda em um vídeo que o PSDB tentou tirar da internet, afirmando que “nós vamos criar um confronto político com o governo para demonstrar à população brasileira que é hora de uma renovação” [que bela renovação!].

Há, ainda, a ameaça de Arruda de "botar a boca no mundo" se vier a ser expulso do DEM, revelando os recursos que teriam saído do Distrito Federal para várias campanhas municipais do partido, incluindo nominalmente a prefeitura de São Paulo, onde o ex-vice e então pupilo de Serra, Gilberto Kassab, foi eleito com intensa ajuda do governador bandeirante.

Por fim, há a aproximação de José Serra e de Arruda, intensa nos últimos dias e documentada pelos jornais, e que como demonstra, entre outros, Altamiro Borges, incluía a perspectiva de que o governador-réu do DF viesse a ser, no ano que vem, candidato a vice-presidente na chapa do governador de São Paulo. Fato que a mídia agora se esforça para não lembrar.


(Foto retirada daqui)