sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Diretas-Já


Eu tinha 16 anos, dezenas de namoradas e cantava em uma banda de punk rock. Minha vida era plena de hedonismo. A principal preocupação era impedir que uma namorada descobrisse a(s) outra(s) – algo que hoje me parece sem sentido, pois é óbvio que elas sabiam, mas na época eu não atinava com isso.

Lembro perfeitamente do dia do comício das Diretas-já: era uma tarde quente, e eu estava no pátio da escola, beijando uma namorada – que era tipo a número 1. Aproximou-se a mais temida das inspetoras de alunos (que nós chamávamos “serventes”, o que hoje me parece preconceituoso), dona Elza, e começou a berrar com ela, me esculachando: que ela era a terceira garota que eu beijava naquele dia, se ela não tinha auto-respeito, o que a mãe dela ia pensar disso e por aí vai. Achei que a garota fosse embora, mas não. Ela sorriu. E continuamos ali, nos divertindo. No meio da tarde a levei pra casa e depois fui buscar outra garota, chamada Ana. Foi com ela que fui ao comício (sinto-me incrivelmente canalha escrevendo isso, mas é a verdade).

Aninha me presenteou com um chapéu de feltro vermelho, que eu adorava, e o utilizei o tempo todo. Havia no ar, desde o momento em que pegamos o ônibus, uma atmosfera especial, que parecia nos dizer: hoje é um dia único, vocês estão protagonizando a história.

A praça da Sé estava apinhada. Ficamos de frente para a catedral, do lado direito, e ainda hoje, quando olho uma grande fotografia aérea que tenho emoldurada, costumo brincar, apontando um ponto em meio ao mar de gente, dizendo: “Este aqui sou eu”.

É vívida na minha memória a voz do locutor Osmar Santos – que foi um dos grandes fenômenos radiofônicos do país antes de sofrer um grave acidente - gritando: “Diretas quando, São Paulo?”, e todos respondendo, em uníssono, “Já!!!!”. E das tentativas de, cantando o refrão: “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, derrubar uma perua da vênus platinada, emissora que jamais cobrira o movimento popular até então – embora hoje, apelando até a truques de edição posteriores, tente renegar isso.


Lembro bem da emoção que provocou o discurso de Franco Montoro, então governador de São Paulo – e um político anos-luz à frente do que o PSDB, então inexistente, se transformaria. Ouço ecos de Faoro, de Bicudo, de personalidades que eu ou intuía ou sabia devido à militância de meu pai serem figuras importantes, mas que não tinha elementos para julgar por mim mesmo. Havia também momentos indefectíveis, como “Coração de estudante”, de Milton Nascimento, e o hino nacional cantado por Fafá de Belém, que já àquela época pareciam algo piegas (embora, a bem da verdade, no calor do ato cívico, não deixassem de ter seu encanto).

Lembro também que havia uma enorme bandeira do Brasil, que passava de tempos em tempos, nos encobrindo por vários minutos, permitindo que Aninha e eu nos agarrássemos de forma mais ousada. Num desses “amassos” roubaram meu chapéu... Que raiva!

A minha memória das Diretas-Já é assim: mescla personagens e situações históricas e memórias de uma sexualidade adolescente vivida ingenuamente e sem culpas.

Mas o dia da votação da emenda Dante de Oliveira no Congresso não teve nada de erótico. Foi triste, muito triste. Lembro do sentimento de derrota que nos acometeu ao final da noite, quando, embora a votação fosse avançar madrugada adentro, estava evidente que seríamos derrotados. Lembro de faces com lágrimas escorrendo, de um sentimento de uma derrota que nos custaria anos, como de fato custou. Lembro de um abraço longuíssimo e doloroso de uma pessoa de que eu gostava muito, cujo sentido era claro e se confundia com o político: poderíamos ter sido muito felizes, mas não fomos. Nunca mais, nesses anos todos, a vi de novo.

Figueiredo foi o mais burro e o mais inapto dos mandatários brasileiros. Poderia ter passado à história como o presidente que promoveu a transição democrática, mas não. Passou como um bronco, que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao do povo.

Respeito a posição do PT à época, de recusar as eleições indiretas no Congresso. Era o que um partido de esquerda tinha a obrigação de fazer. Mas nunca comprei a versão – aparentemente consolidada - de que Tancredo seria “mais do mesmo”, como afirmam tanto blogueiros imaturos quanto comentaristas suspeitos, como Nelson Motta – cuja alma matter de todas as horas, a Rede Globo, foi a principal fiadora e apoiadora de Sarney.

Primeiro porque personalidade conta muito em política. Dilma não será Lula, Eduardo Gomes não foi JK. Segundo porque Tancredo tinha uma história política consolidada: principal ministro do Getúlio eleito, negociador da posse de Goulart sob o parlamentarismo. Um centrista, um conciliador. Não dá para comparar com Sarney, egresso da Arena – partido de apoio ao regime militar – e coronel do estado mais pobre da federação (e, como alguém já observou, o mais insensível socialmente dos coronéis, pois até ACM legou o Pelourinho e uma Salvador modernizada aos baianos, enquanto as magníficas construções de São Luís caem aos pedaços e a pobreza grassa no Maranhão).

De qualquer forma, a derrota nas Diretas-Já, seguida da trágica e altamente suspeita morte de Tancredo foram episódios traumáticos e de consequências nefastas para o país – as décadas perdidas, como a história as denominou e como os inegáveis avanços propiciados pelo governo Lula – em relativamente pouco tempo – confirmam. O quanto poderíamos ter avançado se tívéssemos tido um presidente eleito em 1985?

Apesar de tudo, confesso que sinto um grande orgulho de ter participado das Diretas-Já. Foi uma luta justa, que – numa época em que não havia internet – uniu amplos contingentes da população em oposição ao governo de turno e à então toda-poderosa Rede Globo.

Na minha opinião, tratou-se de um movimento mais autêntico do que aquele contra Collor – no qual, embora eu também viesse a tomar parte como cara-pintada, foi, hoje se constata, excessivamente manipulado pela imprensa, Folha de São Paulo à frente. As Diretas-já foram mais intensas, expressaram desejos coletivos longamente repressados e que poderiam vir a ter consequências certamente maiores, se bem sucedidos.

Perdemos a batalha, mas de coração jovem e nobre e de cabeça erguida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De volta

Como os frequentadores certamente notaram, o blog diminuiu muito o ritmo recentemente (pela primeira vez, ficamos mais de uma semana sem postar). Isso se deveu a três fatores:

1) Fui surpreendido por uma das mais irritantes pequenas tragédias que acometem o ser humano contemporâneo: a perda total do HD de seu computador pessoal. Havia, é claro, um backup, mas ele stava - como sói acontecer com os backups - defasado e não continha os posts que eu deixara quase pronto para abastecer o blog durante as férias;

2) Por falar em férias, estas são a segunda razão da paralisia do blog. Não foram, é verdade, férias com F maiúsculo, mas, aproveitando 2 dias na Bahia para um congresso, sete dias de folga encaixados antes e depois do dito. Ainda assim, o post sobre o jornalismo da Globo News foi produzido numa Lan Hause (com “a” mesmo!) na Chapada Diamantina – um super lugar, um oásis em pleno semi-árido, que mostra o quanto a natureza brasileira pode ser surpreendente.

Recomendo a todos, desde que evitem as agências (que agem como cartel) e seus pacotes que promovem maratonas apressadas entre uma beleza natural e outra e optem pelo slow tourism, contratando, se necessário, os mais eficientes e simpáticos (além de muito mais baratos) guias independentes. Afinal, não faz sentido conhecer uma cachoeira deslumbrante no interior de uma reserva natural baiana se não podemos passar um bom par de horas imerso em suas águas, não é mesmo?

3)E das férias decorre ainda o terceiro fator de semi-paralisia do blog: ao voltar, o acúmulo de trabalhos era tal que foi impossível dar conta de tudo e ainda manter-me ativo na blogosfera.

De qualquer modo, estamos de volta - o blog e eu -, um tanto perplexos com a patética tentativa de, após pesquisar bastante a agenda da moça, ressuscitar o “caso” (êpa) Lina-Dilma e com os esforços da “grande mídia” para culpar o governo federal pelo que a imprensa chama de “crise de violência no Rio” (e que não é nem a primeira nem a segunda nem a última, pois trata-se tão-somente das consequências de uma política de segurança pública equivocada e executada por forças policiais despreparadas para tal, que contam ainda com o álibi do combate ao tráfico como uma desculpa para toda transgressão da lei e abuso cometido contra cidadãos inocentes, porém pobres). Em trecho de um artigo acadêmico escrito em 2000 eu comento o processo:

“Vive-se atualmente, em relação às drogas, no país, uma situação à beira do pânico, de iminente e explosiva irrupção social, uma urgência de crise açulada pelo noticiário sensacionalista sobre violência: fala-se em 'guerra civil', em 'inescrutável poder do tráfico', confunde-se pobreza e marginalidade. Insiste-se muito em repressão e muito pouco em políticas conjunturais efetivas.

Como enfatiza Marilena Chaui: 'Esse horror à realidade das contradições se exprime no modo como a classe dominante brasileira elabora as situações de crise. Uma crise nunca é entendida como resultado de contradições latentes que se tornam manifestas pelo processo histórico e que precisam ser trabalhadas social e politicamente. A crise é sempre convertida no fantasma da crise, irrupção inexplicável e repentina da irracionalidade, ameaçando a ordem social e política. Caos. Perigo' (Conformismo e resistência - Aspectos da Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 60)".

De qualquer forma, o blog retorna, a partir de hoje, à atividade normal. Em breve postarei um texto, de tom algo saudosista (that's the mood that I'm in...), sobre aquela que foi a maior manifestação pública que os de minha geração tiveram a oportunidade de presenciar: os comícios gigantescos pelas Diretas-Já.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Globo News oferece versão oficiosa da violência no Rio

Quem, como este assaz viajante blogueiro que vos fala, foi obrigado a (ou optou deliberadamente por) inteirar-se através do canal a cabo Globo News dos confrontos entre policiais e traficantes nos morros cariocas - que culminaram com o abate de um helicóptero -, defrontou-se, uma vez mais, com um jornalismo quase oficioso, majoritariamente baseado em uma única fonte – os órgãos de “segurança pública” do Rio de Janeiro – e que subestima a inteligência do telespectador.

Claro está que as informações concernentes à “guerra ao tráfico” no Rio sofrem de um problema estrutural, que não se restringe ao jornalismo global e seria de difícil solução em tempos normais, mais amenos, tornando-se quase incontornável sob os ânimos acirrados do presente: a premissa básica jornalística de que se deve ouvir – e publicar também a versão do – outro lado é sistematicamente ignorada ante a constatação de que este é composto de bandidos. Há como resolver tal dilema?

Longe se vai o tempo em que o repórter policial se destacava justamente por trafegar, com igual desenvoltura, pelas delegacias e pelo submundo do crime, utilizando-se da informação neles amealhada como moeda de troca com um e outro universo, revelando ao seu público detalhes e antecipando estratégias de confronto entre as forças do crime e da lei.

Tal mítico personagem, iconizado, na própria Rede Globo, pelo repórter Waldomiro Pena, vivido com garra por Hugo Carvana (e cantado em verso e prosa pelo então chamado Jorge Ben) no seriado dos anos 80 Plantão de Polícia, pertence definitivamente ao passado. Hoje em dia, na improvável hipótese de o jornalismo da Globo querer empregar tais estratégias investigativas, correria o risco de ser enquadrado na figura legal da “associação para o tráfico de drogas” – excrescência jurídica que serve para reprimir qualquer manifestação das classes periféricas e poderia muito bem, se fosse o caso, servir também para calar a imprensa. Felizmente, não há risco de que tal truculência ocorra...

Mas os problemas da cobertura concernente à segurança pública carioca vão muito além da negligência da premissa de “ouvir o outro lado”, evidenciando algumas deficiências inatas a esta: os amplos contingentes populacionais que, não pertencendo à “bandidagem”, se veem em meio ao fogo cruzado entre polícia e traficantes são mais uma prova de que às vezes não se limitam a dois os lados a serem ouvidos.

E nesse quesito a cobertura oferecida pela Globo News revela mais uma vez sua tendenciosa fragilidade: não que os moradores do morro não se fizessem presentes, nas imagens, correndo desesperados em meio ao tiroteio; o que não lhes é concedido é voz – a voz analítica que sai de uma ou mais vozes, ou emana do choque polifônico de opiniões. Ninguém que estivesse no morro ou se apresentasse como morador de lá foi ouvido nas edições do jornalístico “Em Cima da Hora” apresentadas entre 7 e 9 horas da manhã e na edição do meio-dia do domingo (18/10) para algo mais do que afirmar o medo das balas perdidas. Para o jornalismo global, é como se ele fosse um não-cidadão, sem direito ou capacidade analítica para conjecturar sobre o que o aflige.

Ao contrário da espinhosa questão de ouvir ou não o outro lado quando este é um criminoso, estamos aqui diante de um problema bem mais simples, de fácil solução se a Globo se prestasse a produzir um jornalismo um pouco mais democrático e – para utilizar termos que a emissora tanto gosta de empregar - que promova a cidadania. Mesmo se, numa atitude entre zelosa e o preconceituosa, seus repórteres fossem instruídos a não ouvir qualquer morador do morro (pois este poderia ter ligação com o tráfico), eles continuariam tendo à disposição uma série de organizações civis e de ONGs que atuam nos morros cariocas, algumas delas capazes de viabilizar canais de comunicação entre a emissora e moradores ou mesmo de produzir análises bem mais complexas e diversificadas do confronto do que a simplificação grosseira oferecida pela Globo News.

Um terceiro aspecto problemático da cobertura do episódio vem da escolha do indefectível expert chamado para comentá-lo. No domingo, a honra coube ao sociólogo Gláucio Soares, que, enquanto tratava o telespectador como uma criança, chamando a atenção para aspectos que, segundo ele, este não se daria conta, dizia acreditar que uma “revanche corporativista” da polícia (que já teria produzido duas mortes no próprio domingo) deveria ser entendida como “compreensível”.

O mínimo a esperar de um intelectual (ainda que “à sombra do poder”, para utilizar a classificação proposta por Carlos Nelson Coutinho), notadamente em questões de segurança pública, é que ele invoque os pressupostos da razão – aí incluídos os Direitos Humanos -, do tecnicismo e do equilíbrio, sobretudo em uma situação de extrema tensão e revolta; quando ele é leniente com a vendetta coletiva de forças públicas armadas não apenas esvai-se de sua função mas, no caso, incita a barbárie à qual deveria se opor.

É preciso uma dose enorme de ingenuidade para deixar de notar que a escolha dos experts que se sentam à bancada da Globo News obedece a um filtro ideológico rigoroso, acabando por funcionar como uma ferramenta editorial das mais eficientes. Isso não justifica, no entanto, no que se refere à violência carioca, que o principal canal a cabo de jornalismo do país negligencie sistematicamente o conhecimento sobre segurança pública e criminologia produzido por pelo menos cinco institutos de alto nível no estado do Rio, em nome da manutenção de uma visão fundamentalista da questão, visão esta que, como instrumento de manipulação da opinião pública, acaba servindo a seus interesses políticos no estado e na cidade.

Sem fontes outras que esse jornalismo monocórdio, ao espectador da Globo News é continuadamente impingida a versão da polícia – nem sempre relativizada pelo álibi “segundo a Secretaria de Segurança”: à medida que a cobertura avança ao longo do dia, algumas matérias incorporam informações de tais fontes sem nomeá-las.

De minha parte, adoraria poder confiar nas versões da polícia fluminense e do simpático e articulado secretário José Mariano Beltrame. Mas, convenhamos, um aparato de repressão que teve, em cargos e períodos diversos, comandantes como Newton “bandido bom é bandido morto” Cerqueira, como o atual membro da tropa de choque serrista Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), e como Álvaro Lins, que deixou o cargo de chefe da Polícia Civil para usufruir dos serviços de hospedagem de Bangu 8, precisa reconstituir sua imagem e mostrar serviços – e por esta expressão não quero dizer extermínio indiscriminado, mas punição a criminosos dentro dos marcos da lei e proteção a inocentes, sejam estes pobres ou não – para ganhar respeitabilidade e confiança.

Porém, é a uma força com tal currículo – e quase que exclusivamente a ela – que a Globo News recorre para “informar” seus espectadores. Isso não se chama jornalismo. Lamento pelos que se deixam acreditar.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Méanrreatan Conéquition

Nem Chiquititas, nem Otávio Mesquita, nem Ataíde Patrese e seu microfone de ouro: o programa mais jeca da história da TV brasileira é o Méanrreatan Conéquition.

Além de jeca, é anacrônico, tendo em vista que sua razão de existir é a exaltação do modo de vida – perdão, uêi ófi láife – de um país que se encontra em plena decadência econômica, cultural e imperial.

Pois longe se vai o tempo em que se acreditava na “América” como a terra prometida. O sonho americano transformou-se num pesadelo real, que inclui, além dos preconceitos étnicos de praxe, um sistema de saúde excludente e desumano, a criminalização da pobreza e da negritude, e uma economia que respira por aparelhos.

No, literalmente, front externo, a política americana, mesmo comandada por um presidente laureado com o Nobel da Paz, consiste numa trama belicista aberta (como no Iraque e no Afeganistão) ou dissimulada (como na Colômbia, na reativação da 4ª Frota e nos golpes de estado fomentados aqui e acolá) cujo fim é alimentar a indústria de armamentos – que segue de vento em popa em plena crise - e cujo principal efeito colateral é a morte, a granel, de jovens inocentes. Nada de novo sob o sol.

Mais os quatro patetas embasbacados continuam lá, na bancada do Méanrreatan, com aquela postura de súdito colonizado falando sobre a sede do império e aquela empáfia deslumbrada de jeca tatu em noviorque (ou, o que é ainda pior, em Nova Jersey, no caso do inacreditável Caio Blinder - aquele que ficou triste porque as Olímpiadas não vão ser em Chicago, mas no Rio).

Muda o sentido do fluxo de imigração – agora os brasileiros retornam em massa, fugindo da crise norteamericana -, muda o pêndulo da economia mundial em direção à China (que detém milhões da dívida norteamericana), diminui o peso imperial dos EUA com a ascensão dos países emergentes – Brasil, inclusive.

Mas toda semana tem Méanrreatan Conéquition teimando em nos informar sobre Wall Street e o falido mercado financeiro, Broadway e o chatérrimo teatro mainstream americano, além daqueles artistas plásticos exóticos de noviorque cujo único mérito indiscutível é a cara-de-pau para afirmar que o que fazem é arte.

Os apresentadores, sempre empenhados em gritar ao mesmo tempo e o mais alto possível, são escolhidos a dedo. Para chefiar a trupe de deslumbrados, Lucas Mendes. Fosse eu um Houaiss ou, melhor, um Aurélio, e a mim coubesse escrever um dicionário, o primeiro sinônimo de “insosso” seria “Lucas Mendes”. O homem é mais serviçal do que um mordomo zumbizado.

Há Caio Blinder, que tem a personalidade de uma mosca e a quem um ex-colega de bancada, Paulo Francis, chamava de inseto e tapava os ouvidos com os dedos enquanto ele falava (diga-se o que dizer de Francis, era um reacionário dos piores, mas ao menos tinha cultura, personalidade e humor, quesitos em falta na bancada do Méanrreatan Conéquition).

Ah, tem também aquele economista com cara de moleque, que acha as demandas do mercado mais importantes do que as das pessoas, e o indefectível dioguinho. Mas sobre este me recuso a falar, afinal este é um blog familiar e temos de manter um certo nível. A única pergunta que não resisto a fazer é: se ele gosta tanto de noviorque, porque não fica por lá mesmo, escrevendo no Times? Não precisa responder...

Méanrréatan Conéquition é um programa chato, com uma pauta desinteressante, apresentadores sem apelo ou wit, e que insiste em cultuar uma relação de deslumbre com a cultura e a sociedade norteamericanas, perpetuando a exaltação a "coisas do Primeiro Mundo!". Ele fazia sentido durante os anos de hegemonia neoliberal, em que os políticos no poder e boa parte do país estavam convencidos que o destino do Brasil era seguir a reboque dos EUA, e em posição subalterna.

Os tempos são outros, e se a TV brasileira não se antenar com os rumos contemporâneos, quem vai ficar defasada e deixar de se comunicar com seus espectadores - que já migram em massa para a internet - é ela.

O fato de o Méanrreatan Conéquition ter-se tornado objeto de humor e escárnio é apenas mais um dentre tantos indicativos de que a hegemonia neoliberal chegou ao fim e um multiculturalismo de fato - e não apenas de discurso - toma forma. Passa da hora da TV brasileira atentar para o fenômeno.


(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sobre o neoudenismo

- “Não há nada pior do que o bom-mocismo!” – costuma brandir, com mordacidade e um sorriso maroto na cara de lua cheia, uma amiga de copos e papos, das mais brilhantes professoras que conheço.

Ela, como eu e tantos mais, considera a corrupção um mal dos mais abomináveis, daqueles que não devem nunca ser negligenciados – como às vezes o são por certos colunistas chapa-branca -; uma prática capilarizada em virtualmente todos os estratos sociais brasileiros e que tanto atraso causou e causa ao país.

Porém, para nós, como a frase que abre o post indica, ainda mas execrável do que a corrupção é o moralismo barato que, travestido com os modos e as intenções puritanas do bom-mocismo, a explora, a fomenta e dela se alimenta como os vermes que devoram as entranhas das crianças pançudas: o neoudenismo.

A razão de ser do neoudenismo é o escândalo, jamais a cura dos males que denuncia. A corrupção é sua moeda de troca, os dossiês produzidos na calada da noite a sua leitura; os grampos, os vazamentos e os arapongas os seus fetiches.

Assim, embora afete grande preocupação cívica, ele é, na verdade, anti-Brasil e antipovo: torce pelo pior, deseja o fracasso, anseia pela derrota, pois o sucesso e o progresso do país minam seu campo de ação, diminuem seu status público e ameaçam sua conta bancária.

São figuras que fingem se indignar com a corrupção que grassa no país que só conhecem através do vidro do carro blindado.

Rousseau concebe na espécie humana dois tipos de desigualdades: a primeira seria a natural ou física, estabelecida pela natureza, “que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma”; a segunda, a desigualdade moral ou política, que se caracterizaria pelos diferentes privilégios de que gozam alguns em prejuízo de outros. É justamente para conservar o status quo desta – marcado por pronunciadas assimetrias - que os neoudenistas alimentam as “qualidades de seu espírito” com os sentimentos da ganância, da cobiça, da empáfia e do preconceito, devidamente dissimulados sob o manto da indignação moral.

O “eterno presente” em que, segundo Eric Hobsbawn, vivemos, ajuda a disseminar a crença segundo a qual o neoudenista seria uma cria bastarda do fla-flu político que ora ocorre no país. Ledo engano. Dá-se exatamente o contrário: a impressão de maniqueísmo binário que se depreende da política brasileira é que é, em grande parte, produzida, propositadamente, pela ação do neoudenismo.

Pois em sua corrente sanguínea fluem os vírus antidemocráticos do golpismo: já em sua gênese – o udenismo de Carlos Lacerda – a razão de sua luta era impedir um presidente democraticamente eleito de governar. Qualquer semelhança com as atuais ações de políticos ruins de voto em seus estados de origem - mas sempre com o microfone e as câmeras do Jornal Nacional à disposição - não é mera coincidência.

Os neoudenistas são um pagode de ex-comunistas (como Lacerda), ex-guerrilheiros (como um certo verde que virou queridinho da Veja), ex-cineastas (como aquele que virou comentarista tucano), ex-sabe-se-lá-o-quê. Tentam justificar sua condição de ex como um avanço, o abandono de uma posição equivocada – e, segundo eles, anacrônica – em prol de uma visão desprovida de dogmas políticos, avançada em sua tecnicidade e impecável em sua moral resoluta.

Mas não se trata de nada disso: a única coisa a que o neoudenista renuncia, quando abre mão de tal passado, é justamente à ética, e a favor de uma teleologia cujo fim único é sua autopromoção como jornalista ou político – posições em que, açulados por um oligopólio midiático sem condições para questionar sequer a ética de uma ameba, assomam ao palanque das TVs, revistas e jornais para o seu show de escândalo fácil.

Ele é basicamente um charlatão, mas ao invés de tônicos para crescer cabelos ou para fazer sumir verrugas o que ele negocia, paradoxalmente, é a certeza – verdadeira ou não - de que tudo está sendo corroído, dilapidado, fraudado. Seu público são os ingênuos, as pessoas de bom coração, aqueles brasileiros bem-intencionados e ainda capazes de se indignar e lutar por mudanças, dispostos a berrar palavras de ordem – Fora, Sarney! – sem saber que o que o neoudenista que os inflama quer é tirar um sarney inimigo para botar outro sarney amigo em seu lugar, mas jamais, nunca, em hipótese alguma, alterar as estruturas de onde vicejam sarneys – pois isso significaria o próprio fim dele, neoudenista.

O neoudenismo é como o cinema clássico visto por Laura Mulvey, em sua exploração sadístico/voyerística do corpo feminino: importa-lhe o espetáculo, não a essência; é como o circo para o palhaço: importa-lhe o picadeiro onde faz estripulias, não os bastidores onde bebe até cair; é como um cafetão que tem a moral como a prostituta a explorar visando o próprio lucro.

O neoudenista é, enfim, como o abutre, que o Houaiss define, em uma das acepções, como o “indivíduo que deseja a morte de outrem para apossar-se do que lhe pertence”. A cobiça é o seu motor, a maledicência sua profissão, o denuncismo o seu ganha-pão.

São o contrário do Brasil solar, da esperança, das 30 milhões de pessoas que saíram da pobreza nos últimos anos e constituem uma classe média em ascensão; do gole na cerveja gelada em uma tarde de domingo, das pernas quentes, do beijo molhado, de tudo o que seja sumo, umidade, calor, prazer; são o oposto dos brasileiros que aplaudem o pôr-de-sol nas praias, de jaboticaba colhida no pé, de um movimento de Daiane dos Santos, de uma crônica de Aldir Blanc ou de um chorinho de Pixinguinha.

Pois seu universo é o das vaias e do negativismo; do ressentimento e da crítica destrutiva; da vergonha de ser brasileiro e de falar português; da ojeriza a negros e a cotas; de tudo o que seja popular, massivo, alegre, bronzeado, festivo.

São uma espécime que se alimenta da escuridão e do medo, caranguejo radiativo que “vive no putrefato, lodoso mangue que o anula e o anima; na lacustre, mórbida espera”, como escreveu o poeta.

São os profetas do atraso e os arautos do caos.

São o que há de mais falso e repugnante no país.

Pois o neoudenismo é a hipocrisia em forma de indignação.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MST e laranjas

O MST é detestado por todos: da direita ruralista à esquerda chavista, passando por tucanos, petistas, psolentos, verdes, azuis e amarelos. Mesmo os que fingem apoiar o MST o detestam.

Isso porque há uma antipatia ancestral e inata contra o MST, esse arquétipo de nosso inconsciente coletivo, esse cancro irremovível que insiste em nos lembrar, mesmo nos períodos de bonança, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão e continuamos sendo uma porcaria de nação que jamais fez a reforma agrária.

O MST é o espelho que reflete o que não queremos ver.

Há duas questões, na vida nacional, que contradizem qualquer discurso político da boca pra fora e revelam qual é, mesmo, de verdade, a tendência ideologica de cada um de nós, brasileiros: a violência urbana e o MST. Diante deles, aqueles que até ontem pareciam ser os mais democráticos e politicamente esclarecidos passam a defender que se toque fogo nas favelas, que se mate de vez esse bando de baderneiros do campo, PORRA, CARAJO, MIERDA, MALDITOS DIREITOS HUMANOS!

O MST nos faz atentar para o fato de que em cada um de nós há um Esteban de A Casa dos Espíritos; há o ditador, cuja existência atravessa os séculos, de que nos fala Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca; há os traços irremovíveis de nossa patriarcalidade latinoamericana, que indistingue sexo, raça, faixa etária ou classe social:

O MST é o negro amarrado no tronco, que chicoteamos com prazer e volúpia.

O MST é Canudos redivivo e atomizado em pleno século XXI.

O MST é a Geni da música do Chico Buarque - boa pra apanhar, feita pra cuspir – com a diferença de que, para frustração de nossa maledicência, jamais se deita com o comandante do zeppelin gigante.

E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas!

E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica! Chega de impunidade! Como o João Dória Jr., cansei!


Jornalismo pungente
Afinal, foi tudo registrado em imagens – e imagens, como sabemos, não mentem. Estas, por sua vez, foram exibidas numa reportagem pungente do Jornal Nacional - mais um grande momento da mídia brasileira -, merecedora, no mínimo, do prêmio Pulitzer. Categoria: manipulação jornalística. Fátima Bernardes fez aquela cara de dominatrix indignada; seu marido soergueu uma das sobrancelhas por sob a mecha branca e, além dos litros de secreção vaginal a inundar calcinhas em pleno sofá da sala, o gesto trouxe à tona a verdade inextricável: os “agentes“ do MST são um bando de bárbaros.

(Para quem não viu a reportagem, informo,a bem da verdade, que ela cumpriu à risca as regras do bom jornalismo: após uns dez minutos de imagens e depoimentos acusando o MST, Fátima leu, com cara de quem comeu jiló com banana verde, uma nota de 10 segundos do MST. Isso se chama, em globalês, ouvir o outro lado.)

Desde então, setores da própria esquerda cobram do MST sensatez, inteligência, que não dirija seu exército nuclear assassino contra os pobres pés de laranja indefesos justo agora, que os ruralistas tentam instalar, pela 3ª vez, como se as leis fossem uma questão de tanto bate até que fura, uma CPI contra o movimento (afinal, é preciso investigar porque o governo “dá” R$155 milhões a “entidades ligadas ao MST”, mesmo que ninguém nunca venha a público esclarecer como obteve tal informação, como chegou a esse número, que entidades são essas nem qual o grau de sua ligação com o MST: O Incra, por exemplo, está nessa lista como ligado ao MST?).


A insensatez dos miseráveis
Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.

Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?

Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.

Para estes, resta, desde sempre, a mesma cova ancestral, com palmos medidas, como a parte que lhes cabe neste latifúndio.

Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação.

Mas os bárbaros, claro está, são o MST.

Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.


(Foto dos marginais-mirins do MST, por Sebastião Salgado, retirada daqui; foto das mansões dos assassinos de laranja retiradas daqui)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Brasil e Honduras: dogmas em destaque

O filósofo e historiador Tzvetan Todorov distingue o dogmatismo e o relativismo como duas tendências extremas e polarizadas entre si no exercício da crítica. Ele afirma, não sem mordacidade, que, se instado a escolher entre o debate com um crítico dogmático ou um relativista, escolheria este, já que, ao contrário do que acontece com os dogmáticos, haveria ao menos a possibilidade de estabelecer um diálogo.

Búlgaro radicado na França desde meados dos anos 1960, o hoje francês naturalizado Todorov, no belo discurso que proferiu ao receber o prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais, em 2008 (ao qual é possível assistir aqui, em espanhol), fez uma veemente defesa do direito dos estrangeiros que vivem na Europa à plena cidadania, aí incluídos o direito ao reconhecimento de sua condição de entes produtores de cultura e ao diálogo desta com a cultura do país em que vivem.


Estripulias ardilosas
A evocação de Todorov foi causada pela leitura do material produzido pelos principais jornais, revistas e blogs do país acerca do grave episódio internacional envolvendo a volta a Honduras do presidente constitucional do país, José Manuel Zelaya, o abrigo concedido a ele e sua família na embaixada brasileira em Tegucigalpa e os ataques de que esta vem sendo vítima.

Antes, porém, de examinarmos as estripulias de nossa ardilosa imprensa, convém reconectar algumas verdades essenciais aos fatos, já que elas se perderam em meio ao cipoal de desinformação, alusões fantasiosas e teorias conspiratórias a estes pespegados.

Como reconhece Mauro Santayana, em artigo-oásis no Jornal do Brasil (que respira com a ajuda de aparelhos), Zelaya não pretendia, no referendo que deveria ter ocorrido em julho, disputar um segundo mandato presidencial, mas sim a colocação de uma quarta urna para votar a convocação ou não de uma Assembléia Constituinte. Já estava definido que esta, se instalada, não teria efeito vinculante (ou seja, caso viesse a decidir pela alteração da duração ou do estatuto da reeleição presidencial, tal medida não beneficiaria Zelaya, mas seu sucessor).

Esse esclarecimento é necessário, pois, na euforia midiática que teve lugar, no Brasil, após o golpe de Estado em Honduras - logo transformada em tibieza em condená-lo -, o principal "argumento" utilizado para justificar o golpe de Estado – como se estes justificáveis fossem – era que Zelaya tentaria um segundo mandato, patrocinado por Hugo Chávez, a nova panacéia editorial do continente, como aponta Leandro Fortes em mais um artigo para ler e guardar. Tal premissa levou alguns colunistas mais afoitos a gastar tinta para falar em uma nova modalidade de golpe de estado alegadamente em voga na América Latina: o golpe institucional, que se daria através da alteração das leis, mas mantendo os militares nos quarteis (até agora, Álvaro Uribe, da Colômbia, que esses tais colunistas adoram, é o único responsável pela "voga").

Ainda que a suspeitíssima Suprema Corte hondurenha tenha desautorizado o tal plebiscito – como, agarrando-se a tal argumento como um náufrago a uma bóia, insistem os setores de direita com pouco apreço pela democracia -, isso configuraria um confronto, rotineiro nas democracias, entre dois dos três Poderes: a solução teria de ser negociada, como de ordinário o é em tais países. Nada justifica a destituição de Zelaya - ou de qualquer presidente eleito - na calada da noite, sem nenhum rito público e sob a mira de armas de fogo. Países democráticos podem até depôr seus mandatários, desde que cumprido o ritual processual do impeachment.


Cobertura dogmática
Ao contrário do que afirmam certos blogs que cultuam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu governo como entidades sagradas e infalíveis, é lícito, sim, questionar a necessidade do envolvimento do Brasil no caso, como o faz a imprensa – na verdade, esta é, idealmente, uma de suas funções precípuas: avaliar as decisões governamentais tendo como horizonte o que julga ser melhor para o país. (Não que sejam esses os motivos para a indignação de nossa imprensa...)

Portanto, é sustentável, na teoria – embora não necessariamente correta –, a posição segundo a qual em nome do restabelecimento da ordem democrática em um país insignificante do ponto de vista comercial ou estratégico, tanto a soberania quanto a instabilidade institucional brasileiras estariam sendo desnecessariamente postas à prova.

Por outro lado, causa estranhamento que a imprensa aja virtualmente como bloco, e que a posição acima descrita seja praticamente unânime. Pois haveria de passar pela cabeça de alguns articulistas que, se o Brasil quer mesmo assumir sua posição de player no cenário internacional, é mais do que recomendável que atue com firmeza para restabelecer a ordem democrática num país sob sua área de influência geopolítica no qual ela foi claramente violada – e através de um tipo de golpe de Estado clássico, que julgava-se condenado aos anais empoeirados da história.

Como meus poucos mas inteligentes leitores já devem ter notado, com essas ponderações acima, uma no cravo, outra na ferradura, estou a fazer um exercício de relativismo, talvez com a pretensão, decerto excessiva, de contrapô-lo ao dogmatismo reinante em nossa "grande imprensa".


Nacionalismo e imprensa
O cenário se complica, porém, ao se constatar que, concedido o abrigo diplomático a Zelaya, a embaixada passa a sofrer represálias por parte do governo golpista (que nossa mídia chama de "governo de facto", o que sugere uma autoridade que ele não tem). Como se sabe, a representações diplomáticas no exterior os tratados internacionais garantem inviolabilidade. Mesmo em golpes de Estado os mais brutais – como no Chile de Salvador Allende, em 1973 – tal jurisprud~encia internacional foi, a princípio, respeitada.

Não que a imprensa tenha a obrigação de defender o Brasil por nacionalismo ou patriotismo. Estas duas modalidades de paixão coletivas, tornadas execráveis em terras nacionais durante a longa hegemonia neoliberal e que agora ensaiam um retorno, podem, de fato, trazer consigo um danoso potencial de manipulação ideológica, do qual a história é farta de exemplos extremos. Como se sabe, os EUA são o único país do mundo cuja população – e a mídia – tem o direito de ser nacionalista e patriota, o que talvez se justifique pelo seu passado pacifista. Imperialista, como nos informa a revista Veja, em matéria de capa, é o Brasil.

Ironias à parte, admitamos que o nacionalismo e o patriotismo não obriguem a imprensa brasileira a tomar uma posição de defesa dos interesses nacionais – embora o fato de a Folha de São Paulo seanunciar como "um jornal a serviço do Brasil" nos permitir meditar sobre a instrumentalização que a imprensa faz de tais conceitos quando de seu interesse. Tal admissão colide, porém, com o que foi afirmado parágrafos acima – que uma das funções precípuas da imprensa seria, idealmente, "avaliar as decisões governamentais tendo como horizonte o que julga ser melhor para o país" – e, portanto, contraditoriamente, com a própria justificativa na qual se baseia a condenação da imprensa à ação diplomática brasileira em Honduras, evidenciando suas reais motivações.


Agressões negligenciadas
Mas o cenário ficaria ainda pior com a reação truculenta dos golpistas ora ainda no poder contra a ação diplomática brasileira. Quando a imprensa negligencia duplamente a agressão a uma embaixada – ao oferecer uma cobertura insatisfatória das graves denúncias contra o governo hondurenho (que incluiria até lançamento de gás venenoso) e ao subestimar a gravidade da violação de leis internacionais – ela transpõe o limite que separa a em si aviltante adoção de uma linha dogmática na cobertura do caso e a conivência com ações inaceitáveis à luz do Direito e da Razão. Viola, portanto, os próprios pressupostos iluministas que sempre conclamou como orientadores básicos da própria atividade jornalística.

O desenrolar da cobertura a partir da consumação do ataque ao território brasileiro no exterior e de sua decorrente condenação pela OEA chegou às raias da irresponsabilidade. Promove-se, desde então, uma tal inversão de valores que se procura fazer crer que o presidente democraticamente eleito e expulso à ponta de baioneta é quem é o provocador, de dentro da embaixada brasileira e, ainda assim, sempre sob o comando do onipresente Chávez. Para completar, as reações internacionais contra um governo que não foi reconhecido por nenhum país vêm sendo minimizadas a favor da repercussão de um jornalismo neocon que é, neste momento, na melhor das hipóteses, continental.

As manchetes oscilam entre o cinismo implícito e a manipulação evidente, tornando-se às vezes peças de humor involuntário – é o caso da Folha de São Paulo de 25/09: "Golpistas acusam Lula de intromissão". O que os editores do diário paulista esperavam que eles fizessem? Saudassem fraternalmente o mandatário do país que dá abrigo ao inimigo que depuseram do poder?

Assim agindo, a imprensa brasileira, em sua militante cobertura do caso hondurenho, torna-se, em última análise, cúmplice da truculência de um governo golpista contra a democracia hondurenha, a soberania do Brasil e as leis internacionais.


Nova doutrina diplomática
Isso justamente em relação a uma operação diplomática que contraria, de forma inédita, uma doutrina estabelecida há mais de cem anos pelo barão do Rio Branco e promove a expansão efetiva da área de influência do Brasil para a América Central, evidenciando assim a posição dúbia do governo Obama em relação ao golpe – em relação ao qual pesam suspeitas de ação de agentes dos serviços secretos norteamericanos.

O leitor que restringe suas leituras à mal chamada “grande imprensa” nacional simplesmente não pôde atinar com os complicados meandros, o ineditismo e o papel primordial que o Brasil vem exercendo para o restabelecimento da ordem democrática no país caribenho e do confronto sutil mas fundamental que tal ação provocou na posição dos EUA, expondo-a e praticamente forçando uma tomada de posição efetiva. A revogação do estado de sítio anunciada hoje é o até agora mais forte indício da efetividade da ação diplomática brasileira.

Fechada em seus dogmas, atrelada tão-somente à defesa de seus interesses, a imprensa assim agindo se iguala ao racista intransigente de que fala Todorov: é um ente em decadência, presa de seu próprio anacronismo e de sua intransigência, cavando a cova de seu próprio descrédito.



Atualização de artigo publicado no Observatório da Imprensa em 29/09.

(Imagem retirada daqui)

domingo, 4 de outubro de 2009

Um momento histórico

Muito mais do que uma importante conquista para o esporte brasileiro, a escolha do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016 representa, a um tempo, o reconhecimento do trabalho, da estratégia e da excelência da política externa do atual governo e, se dúvidas ainda restassem, do Brasil como potência emergente no cenário mundial.

Os despeitados, invejosos e os esquerdistas de meia tigela que, como ratos, saltaram do barco à primeira tempestade – perdendo a chance de integrar um governo que tirou mais de 30 milhões de pessoas da pobreza e obrigando-o a alianças com os setores mais fisiológicos da política nacional – insistem num exercício pessimista de futurologia, nas piadas preconceituosas sobre o Rio e os cariocas, no ato ignominioso de torcer para que dê errado.

Ato este compartilhado por uma mídia que abandonou qualquer pudor e age descaradamente como um partido político – aquele que tem uma ave como símbolo e que alimenta o mesmo sentimento anti-Brasil e o deslumbre colonizado com o que vem de fora tão característico de nossa imprensa, morrendo de vergonha do que somos: um país miscigenado, preto e mulato em sua maioria, com um povo de ordinário festivo e espontâneo, de uma alegria corpórea e sexualizada. Um país de contrastes, cosmopolita e provinciano, caipira e urbano, simples e sofisticado - mas com um dom natural para o convívio com o outro, com o diferente, para o exercício do multiculturalismo de fato.

Mas não vale mais a pena, neste momento de felicidade coletiva e de reconhecimento histórico do Brasil como nação, gastar tinta com um ente comunicacional em franca decadência, apartado dos anseios do povo, o qual não o respeita nem é por ele respeitado. Para um exame das questões essenciais a respeito do momento histórico da mídia brasileira basta ler este brilhante texto de Venício A. de Lima. O ostracismo da mídia é o ocaso da tendência política que representa, que ficou sem discurso.

De qualquer modo, o fato consumado é que o profissionalismo do Itamaraty e – como vários jornais europeus reconheceram – a atuação obstinada de Lula trouxeram para a América do Sul, para o Brasil e parao Rio de Janeiro o evento máximo do esporte mundial, que move fortunas, cria milhares de empregos e pode vir a estabelecer um novo patamar de turismo para a Cidade Maravilhosa – que, como diz a música de Gilberto Gil, continua linda –, com reflexos na atividade turística no país.

O Rio de Janeiro merece as Olimpíadas. O povo carioca, de maneira geral, andava com a auto-estima lá embaixo e, os mais pessimistas, cabisbaixos mesmo – o que vai contra sua essência solar e alegre. Como o próprio Lula citou, indo lá longe no tempo, a perda da aura de sede do Vice-Reino, a transferência da capital pra Brasília, o fim da Guanabara e a decorrente decadência econômica estão entre os fatores que ajudam a explicar tamanha tristeza.

Mas o presidente, diplomático como sempre, esqueceu de citar um outro fator primordial: a cruel campanha midiática que o oligopólio de comunicação que domina o estado, para manutenção de seu próprio poder, promove, desde a democratização do país, contra a cidade. Através dessa autêntica operação difamatória, quer fazer crer que o Rio é uma cidade sitiada pela violência. Trata-se, simplesmente, de uma mentira. Como todos os estudos acadêmicos e dos institutos de criminologia mostram, há menos probabilidade de morte violenta em Copacabana e em Ipanema do que em Paris ou em Nova Iorque. O que infla substancialmente os números da violência no Rio – que, ainda assim, não está entre as três cidades mais violentas do Brasil - é o combate ao tráfico nos morros e favelas cariocas, obediente à estratégia norteamericana de “guerra às drogas” – cujos resultados são a manutenção do lucro das fábricas de armamentos dos EUA e a criminalização dos pobres e dos traficantes pés-de-chinelo (pois os tubarões, preservados, estão no asfalto). Se uma forma mais inteligente e menos “enxuga-gelo” de enfrentar a questão fosse adotada, os índices de violência cairiam bruscamente. No momento, intereses políticos impedem a adoção de tal alternativa.

Pode-se acusar Lula de muitas coisas. Mas jamais de não lutar pelos interesses nacionais, como até alguns tucanos empedernidos reconhecem. Enquanto a mídia e a elite jeca brasileira acham uma graça enorme em ridicularizar o ex-operário por suas metáforas futebolísticas, por não falar inglês e por suas derrapadas gramaticais, internacionalmente ele é cada vez mais reconhecido pelas qualidades que realmente importam em um presidente da república: ser um líder carismático e um político hábil, com visão estratégica e comprometido com questões sociais. Enquanto seu antecessor, com aquela empáfia toda, viajou o mundo para se autopromover, com pouquíssimos resultados efetivos para o país, Lula o fez para redesenhar a política externa brasileira para além do eixo Sul-Norte (leia-se EUA), trazendo investimentos e levando-os aos países mais pobres.

As Olimpíadas coroam esse trabalho, ao mesmo passo em que revelam ao mundo um político que põe, de fato, os interesses do país acima de suas vaidades pessoais, tendo, como aponta Leandro Fortes em mais um belo texto, a nobreza de abraçar a candidatura de uma cidade na qual foi duramente apupado pela vaia espessa e covarde do fascismo orquestrado. E, para além dessa espécime rara de político – o estadista - , revela um ser humano que não se furta a expressar em lágrimas abundantes o amor pelo país que governa. Afinal, homem que é homem não tem receio de chorar em público.