terça-feira, 30 de junho de 2009

Maconha: a culpabilização do usuário

(Imagem retirada daqui.)
Como citado alguns posts atrás, discutir segurança pública no Brasil é temerário. A exacerbação da violência urbana, as medidas tomadas, nos âmbitos municipal, estadual e federal, pelo Estado e, sobretudo, o modo como a mídia trata o tema, conformaram-no ao conservadorismo mais tacanho (e contraproducente, mas essa é outra história). Debater a questão das drogas, nesse cenário, beira a impossibilidade (mas Júlia M consegue, dialogando com humor).

Um dos sucessos estrondosos do conservadorismo, no que tange ao tema, é jogar nos ombros dos usuários de drogas a responsabilidade primária pela violência urbana – que por sua vez, costuma ser atribuída sobretudo ao tráfico de drogas. Tropa de Elite é a obra-síntese desse pensamento, caudatário do modo Rede Globo de retratar as temáticas ditas sociais. O esquema é manjado: finge-se não ver as brutais assimetrias sócioeconômicas e as hordas de miseráveis que habitam as grandes cidades ao mesmo tempo em que se ignora a realidade internacional do mercado de drogas. Só assim a teoria que responsabiliza os usuários pode ser mantida, pois é necessário fingir não saber que o consumo de drogas é muito mais alto nos EUA e nos países desenvolvidos da Europa do que no Brasil e que, pasmem, a violência urbana lá é muito menor do que a daqui. Ora, então a conclusão lógica e inescapável é que não é o tráfico de drogas – e muito menos o usuário - o culpado pela violência urbana, não é mesmo? Mas, para que procurar os reais culpados se o bode expiatório está à mão - na forma do odioso usuário que insiste no crime hediondo de levar seu baseado à boca e tragá-lo? Ademais, sua utilização marota pela mídia não contraria nem os interesses dos verdadeiros tubarões do crime organizado nem os dos políticos incapazes de enfrentar a violência e a pobreza, além de ajudar a continuar evitando que a população tome ciência das verdadeiras causas da violência e da miséria geral às quais está submetida, e comece a ter idéias subversivas e de transformação da realidade política e socioeconômica.

A crescente culpabilização do usuário e a posição subalterna à qual ele é mantido no debate têm favorecido a mistificação. “Maconha mata seus neurônios”, alardeava um célebre anúncio do Ministério da Saúde, no tempo de Serra. Ele visava estabelecer uma caricata dicotomia entre “drogados semi-retardados e apáticos” e “jovens dinâmicos e saudáveis”. Nenhuma das principais pesquisas de longa duração, realizadas segundo critérios consagrados pela comunidade científica, constata “morte” de neurônios em decorrência do uso de maconha. Tais danos estão na esfera de ação das drogas lisérgicas, como os derivados do LSD, “ácidos” sintetizados e cogumelos.

Campanhas baseadas em inverdades e na mistificação tendem ao fracasso. Além das pessoas bem sucedidas e produtivas que pertencem ao círculo de amizades dos jovens, a própria mídia é habitada por personalidades as mais cultuadas, capazes de performances atléticas e notoriamente ligadas ao uso de drogas – e às vezes por longos períodos, como no caso de alguns superstars do rock (The Rolling Stones, Iggy Pop, David Bowie, Rita Lee, pra ficar só nos da "velha guarda"). Quem convive com a juventude urbana se apercebe de que o destino de tais estratagemas publicitários é somar-se ao vasto anedotário das campanhas anti-droga, que, ao recorrerem a discursos que os usuários acabam descobrindo, por experiência própria, inverídicos e caricaturais, reforçam a eles a impressão de que o governo os quer ludibriar com tais campanhas – que acabam, portanto, se revertendo em contra-propaganda.

A prevenção e o combate ao uso de drogas, questão de saúde pública, são legítimos e necessários, sobretudo no âmbito de substâncias pesadas e da disseminação de drogas facilmente acessíveis e de consequências potencialmente devastadoras à saúde, como o crack e o ecstasy. Porém, goste-se ou não, sua eficácia está diretamente ligada à capacidade de criar empatia e confiança com o público jovem. Mistificação e artifícios enganosos não ajudam em nada, significam retrocesso e, eventualmente revertem-se em estímulo ao consumo.

A orientação dogmática e preconceituosa das políticas sobre drogas no Brasil evidencia-se na recusa em se debater de forma adulta e com objetividade uma questão como a "descriminalização" da maconha (leia no blog O Descurvo uma ótima explicação jurídica sobre a questão). Trata-se de reivindicação relevante para parcelas da juventude que não podem compreender como uma droga de efeitos comprovadamente nocivos como o álcool é livremente comercializada, enquanto a maconha, que décadas de pesquisa - incluindo o estudo de 14 anos de duração da FDA norteamericana - nada constataram além de efeitos colaterais mínimos e em sua maioria reversíveis, esbarra em um muro de preconceitos e mistificação, na recusa em tratar o tema pelo mesmo prisma clínico utilizado para condenar outras drogas e no bloqueio ferrenho da militância religiosa. “Uma tática sempre empregada é tratar do tema de forma generalizante, colocando lado a lado a maconha e o mais perigoso dos opiáceos, ou reiterando a afirmação incomprovada de que o uso de maconha conduz ao uso de drogas pesadas”, observa o advogado Nilo Batista, citando estudo científico da New York University que desautorizou a chamada “teoria da escadinha”, em texto incluído num dos melhores livros já lançados no Brasil sobre o tema, a coletânia Maconha em Debate (Brasiliense, 1985).

A legalização de drogas leves (e a decorrente "descriminalização" de seu uso e, portanto, da condição de bode expiatório do usuário) é tema já superado ou na ordem do dia nas democracias européias mas, no Brasil, aguarda há vinte anos para entrar na agenda pública. Para organizar uma simples marcha a favor da legalização é necessário enfrentar uma série de barreiras legais e depender do humor dos Judiciários estaduais – o que é altamente ilustrativo não apenas da atrofia do debate sobre o tema mas das limitações impostas à liberdade de expressão num país dito democrático (acompanhe aqui a epopéia kafkiana que os organizadores da marcha vêm enfrentando há meses).

Intimidados por excrescências jurídicas - algumas delas criadas com o forte apoio da Rede Globo, que parece mandar até na Justiça deste país, como a figura legal da "Associação ao tráfico", instrumento que tem sido usado para roubar às classes subalternas seu direito democrático de manifestação pública - são poucos os que, como o Mello, têm coragem de defender abertamente uma posição pró-legalização.

A recusa institucional em sequer debater de forma aberta o tema não deixa de refletir, como ocorre com frequência nas questões públicas no Brasil, a profunda cisão sócioeconômica que cria, na prática, duas classes de cidadãos: para o “usuário de drogas” das classes médias e altas, uma série de facilidades, da freqüente corrupção policial à eventual chicana jurídica, se lhe oferecesse; para o “viciado” das classes subalternas, cadeia (e, lei não escrita, tortura institucionalizada, coação sexual etc.).

De qualquer modo, um tratamento muito diferente daquele que é dispensado ao usuário nas principais democracias européias, mesmo na mais repressiva. Na maior parte delas, o cidadão tem à sua disposição todas uma estrutura pública voltada à cura de seus vícios - incluindo em drogas -; mas, se prefere fazer uso delas, continua sendo um cidadão - e não, como aqui, um pária. Integrar o usuário de drogas na sociedade é tarefa de todo Estado Democrático de Direito.

Comparar os termos do debate sobre a questão das drogas no país, como colocados hoje em dia - concentrados quase que exclusivamente em questões de segurança pública -, à discussão que tomou vulto 25 anos atrás, logo após o fim da ditadura militar (e que avulta na coletânea citada), é defrontar-se com um retrocesso. Passada a euforia pós-Abertura política, o tema logo seria posto fora da agenda pela incomensurável – e ainda insatisfatoriamente debatida – reação conservadora que o advento conjunto de AIDS e neoliberalismo trouxe à tona. Ainda assim, nunca é demais salientar a legitimidade da posição dos que, como Camille Paglia e este blogueiro, defendem que “O Estado não deveria ter poder para vigiar ou regular atividades solitárias ou consensuais", como o uso de drogas ou a realização de fantasias sexuais entre adultos que as consentem.

Mesmo limitando o debate nos termos atuais, é forçoso notar que enquanto persistir, para amplos setores jovens descapitalizados, em uma ponta do processo, um sentimento de insatisfação e incompletude ante as demandas artificiais por consumo e prazer continuamente alimentadas pela onipresença da publicidade e da mídia; e, na outra ponta, um contingente enorme de mão-de-obra sem emprego e sem perspectivas de futuro, a questão das drogas continuará sendo um problema de primeira ordem no Brasil. Além de constituir uma ameaça permanente ao cidadão, passível de ser criminalmente acusado pelo simples ato de fumar um cigarro com uma erva proibida.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Lula e a autonomia nacional na globalização

(Ilustração retirada daqui)
Um dos sucessos inegáveis da Presidência de Luis Inácio Lula da Silva tem sido relativizar a crença de que à inserção do Brasil numa economia globalizada corresponderia o fim – ou a diminuição drástica – da capacidade do Estado de investir e intervir de forma efetiva nas políticas públicas.

Atualmente, a afirmação de tal capacidade talvez soe aos ouvidos do leitor algo óbvia, mas parte dessa impressão talvez deva ser creditada justamente à mudança – sutil, quase imperceptível tanto para uma mídia que atua como partido quanto para uma academia dividida por preconceitos ideológicos e de classe - operada pelo atual governo. Pois um denominador comum aos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso foi justamente a insistência na crença de que o Estado, nesse novo contexto mundial, estava de mãos amarradas, que a margem de manobra dos Executivos nacionais era quase nula face ao poderio de uma economia que se move veloz e incontrolavelmente em fluxos globais.

Fluxos são justamente a principal categoria temática que, em um texto escrito originalmente para a Public Culture e tornado clássico, o antropólogo indiano Arjun Appandurai utiliza para reler o processo de globalização sob uma perspectiva neomarxista – isso é, privilegiando um enfoque histórico-materialista. Em “Disjunction and Difference in the Global Cultural Economy” (1990), ele identifica cinco fluxos – éticos, midiáticos, tecnológicos, financeiros e ideológicos – que, atuando de forma simultânea e transnacional, seriam responsáveis pela nova formatação sóciocultural-econômica mundial. Assim como a pioneira formulação do sociólogo brasileiro Renato Ortiz sobre a formação de classes econômicas transnacionais na globalização (Mundialização e Cultura, Brasiliense, 1994), o modelo proposto por Appandurai representa um alto nível de reflexão crítica sobre o fenômeno a partir de sua própria dinâmica e sem a adoção explícita de partis pris valorativo (curiosamente, num duplo processo de misreading, a teoria de Ortiz foi atacada por marxistas por alegadamente enfocar sob luz positiva o processo de globalização, enquanto o texto de Appandurai foi largamente utilizado como bandeira pelos defensores da globalização).

No final do governo FHC, escrevi num texto acadêmico que a forma como vinha sendo processado o ingresso do Brasil numa economia globalizada – como economia periférica a reboque dos humores do grande capital internacional e das “agências de risco” que ele próprio forjara – equivaleria a lançá-lo num pequeno barquinho, sem vela nem motor, em alto mar. Havia no texto, além da pobreza metafórica e da intenção de, através dela, criticar a falta de rumo e a enorme chance de desastre (confirmada a cada crise econômica em outras economias periféricas, como a turca, a russa e a dos “tigres asiáticos), a afirmação latente da possibilidade de, mesmo em tal contexto e sob suas intempéries, reassumir o leme.

Ao retirar da pobreza quase 40 milhões de pessoas e redesenhar o eixo da política externa brasileira, entre outras medidas, o governo Lula prova que tal operação é possível e que a globalização não necessariamente significa, às economias não-centrais, tão-somente submissão e renúncia. Essa conquista não deixou de ser, no entanto, eivada de contradições, mesmo porque a aderência do atual governo a alguns dos mantras neoliberais – como a independência do Banco Central e a manutenção de índices considerados satisfatórios de superávit primário – está no cerne do processo que tem garantido à administração federal alguma margem de manobra.

Mas não é, ainda, o momento de pôr na balança os méritos e defeitos do governo Lula. Deve-se levar em conta, no entanto, que a despeito de os oráculos econômicos privilegiados pela mídia nativa continuarem negando, economistas internacionalmente reconhecidos – como Stepehn Kanitz, Paulo Nogueira Batista Júnior e o espanhol Ricardo Lago – atestam que a crise mundial não apenas atingiu o Brasil com atraso, mas o fez de forma muito menos intensa e duradoura do que na maioria das outras economias nacionais – mais uma evidência da retomada vigorosa da capacidade de administração do Estado brasileiro.

Some-se a esses fatos a evidência de que a mesma crise econômica mundial vai certamente – como as medidas inciais tomadas pór EUA e União Européia indicam – restringir ainda mais a autonomia dos grandes capitais voláteis que, sob a desregulamentação então reinante, arrasaram mais de uma vez economias nacionais. Trata-se de mais um fator a exigir uma reflexão mais cuidadosa, mais humanitária e menos fatalista sobre o alegado fim dos Estados nacionais.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

CPIs

(Imagem retirada daqui)

Sempre fui contra as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Mesmo quando a maioria dos brasileiros – e a quase totalidade dos esquerdistas – vibrava com a atuação daquela que acabou por depôr Fernando Collor de Mello, essa já era minha posição.

Mantive-a desde então, tanto para a Presidência FHC, suas suspeitíssimas privatizações e compra de votos para aprovação da emenda da releição, quanto para o governo Lula e seu mal explicado "mensalão". De antemão, a mantenho em relação ao próximo presidente, seja quem for.

Por quê? Primeiro, por uma questão de ordem institucional, de respeito à divisão entre os três Poderes à maneira sugerida por Montesquieu. Ao assumirem para si o papel de investigadores e juízes, os parlamentares passam a desempenhar funções que pertencem, respectivamente, ao Executivo e ao Judiciário (mais a este do que àquele).

Segundo, porque a bem-sucedida CPI que investigou Collor acabou por modificar profundamente o modo de se fazer política no país. Desde então não há mais, no Congresso, debates de projetos que tornem visíveis as diferenças programáticas entre os partidos e, sobretudo, entre as forças de oposição e de situação. O objetivo número um dos partidos de oposição – sejam eles quais forem – é o de criar, a partir de denúncias comprovadas ou não, fatos políticos que permitam a instalação de CPIs - para, daí, atingir as principais figuras do governo e, se possível, o próprio presidente, através da instalação de processo de impeachment. Desnecessário dizer que a mídia desempenha papel primordial nesse processo, na veiculação de denúncias (raramente bem apuradas), na intensificação de um sentimento (verdadeiro ou não) de indignação popular e na cobertura (mais interessada no escândalo do que nos fatos) das sessões das CPIs.

Terceiro porque, devido ao despreparo e ao baixo nível ético da maioria de nossos parlamentares, as CPIs tornam-se, com frequência, palco para congressistas loucos por holofotes, muito mais interessados em aparecer perante o grande público televisivo e fazer demagogia – com o propósito único de prejudicar o governo ao qual se opõem - do que em investigar seriamente o que quer que seja (mesmo porque quase nunca tem qualificação para tal).

A instalação de uma CPI deveria ser uma medida extrema, para casos excepcionais, raríssimos. Do modo como vem sendo praticada no Brasil tornou-se uma excrescência jurídica que há muito atrapalha o funcionamento da democracia no país. Há de se pensar na sua extinção para que os próximos governos – sejam de quais partidos forem – possam governar em paz, confrontados por uma oposição crítica e programática (mas não viciada num jogo de derruba-presidente). Corrupção e demais desvios administrativos? O Judiciário que se encarregue de examiná-los.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A internet como arma político-ideológica

(Fotos retiradas daqui e daqui)

A semana que passou foi excepcionalmente pródiga de medidas relativas ao uso político-ideológico da internet e de más notícias concernendo o o uso livre da rede.

Dois meses depois da condenação dos suecos do site de troca de arquivos Pirate Bay a um ano de prisão, H. Jane Thomas, uma mulher de 32 anos de Minnesota, no meio-oeste dos EUA, foi condenada a pagar U$1,84 mi a grandes gravadoras sob a acusação de ter baixado ilegalmente 24 músicas da internet. Cada uma vai custar a ela, que nega ter feito qualquer download ilegal, U$80,000. Trata-se do primeiro caso relativo ao download de músicas pela grande rede a ser julgado em última instância no país. Teme-se que a sentença crie jurisprudência, propiciando a condenação de milhares de outros acusados condenados em primeira instância, além de fornecer incentivo para que a decadente indústria fonográfica inicie uma caça às bruxas.

Outra notícia inquietante diz respeito ao Irã. o Google anuncia a criação e imediata disponibilização de uma ferramenta especial de tradução do persa para línguas ocidentais, especialmente desenvolvida para que os iranianos possam enviar seus protestos pela internet mundo afora. A novidade e o momento em que vêm a público evidenciam ainda mais, até para os que insistem em não ver, o ímpeto do Ocidente de insuflar as manifestações contrárias à reeleição de Mahmoud Ahmadinejad e em prol do candidato derrotado Mir-Hossein Moussavi. Como se sabe - graças a inusitada e inédita atenção da mídia mundial - a oposição ao atual presidente alega fraude nas eleições.

Mas a notícia mais assustadora vem da China, com a vocação autoritária do atual regime – ferozmente capitalista do ponto de vista econômico, duramente repressivo em termos políticos – se manifestando de forma vigorosa contra a internet. Além do aumento de censores cibernéticos (que as autoridades alegam tratar-se de trabalhadores voluntários), o governo determinou que os computadores passem a sair de fábrica com uma configuração que impeça o acesso a milhares de sites. É pouco crível a alegação oficial de que as restrições limitam-se a sites pornográficos. ONGs iniciam campanha internacional para pressionar as empresas multinacionais que fabricam computadores na China a se recusarem a seguir a norma. O país, como se sabe, leva muito a sério o universo da comunicação virtual. Tanto que, durante as Olimpíadas de Pequim, o presidente Hu Zintao advertiu pessoalmente os jornalistas quanto aos riscos de violar a lei chinesa para a internet...

Enquanto isso, no Brasil, mais um blogueiro é vítima de inquérito policial visando a ser criminalmente processado, no que já vai se tornando uma triste rotina de repressão à livre-manifestação de idéias na blogosfera. Desta feita o alvo é o advogado e ex-atleta Alberto Murray Neto, vítma da intransigência, do ego inflado e da falta de espírito democrático do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman.

A facilidade com que se instauram, no Brasil, processos visando intimidar produtores independentes de informação na internet é uma das razões que me fazem defender a criação de alguma forma institucional de ligação entre blogueiros não-corporativos, que preserve a autonomia opinativa e jurídica de cada blog mas garanta não apenas a louvável solidariedade, mas ajuda jurídica e/ou financeira para essas eventualidades. Trata-se de empreendimento dificílimo de organizar e manter, mas parece-me algo para se ter no horizonte se se quer realmente manter e ampliar o papel da blogosfera como produtor de notícias e visões críticas no setor comunicacional brasileiro.


Mesmo porque, convém lembrar uma vez mais, a lei Azeredo está para ser votada – tendo na mira justamente a blogosfera e a livre circulação de conteúdos na internet – e a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), marcada para o início de dezembro, se aproxima cada vez mais. É preciso que a blogosfera se organize de alguma forma para se contrapôr às forças da mídia corporativa nesses dois eventos. Porque - não tenham dúvida -, a blogosfera será o principal alvo dos grandes grupos de comunicação, acostumados ao monopólio, inconformados com a democratização da notícia e da opinião, e desconfortáveis com o cerrado escrutínio a que os blogueiros diariamente os submetem, desvelando os interesses por trás de suas alianças políticas e práticas e omissões jornalísticas.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Caso Sarney: Tríplice Tragédia

(imagem retirada daqui)

O nome José Sarney está associado a práticas políticas retrógradas e a uma trajetória pública questionável, a começar do apoio dado à ditadura militar. Tornado presidente por mero acaso, seu governo foi marcado pela corrupção, com a relação do Planalto com o Congresso sendo chamada de “balcão de negócios”; pelo populismo econômico do “Plano Cruzado”, que levou a classe média ao paraíso enquanto o truque durou, para em seguida remetê-la a uma longa temporada no inferno; e pela pior das muitas crises inflacionárias do país, em que os índices mensais chegaram à casa das centenas. A crônica musical do período – no Brasil quase sempre o melhor termômetro do humor popular -, a cargo do grupo Exporta Samba, resume a bandalheira (“Se gritar pega ladrão/Não fica um, meu irmão”).

O Maranhão, que ele governa há quase meio século (in persona ou por prepostos), com um poder que se estende ao Judiciário e depõe governadores eleitos, é hoje, a despeito de seu tamanho e abundância de riquezas naturais, a mais miserável das unidades federativas do país. Num acinte à ética eleitoral, candidatou-se pelo Amapá quando viu que seria rejeitado pelo voto na sua capitania hereditária maranhense. Morto ACM, Sarney é hoje a imagem escarrada do coronelismo. Eis a tragédia número um.

Dada a folha corrida do autor de Marimbondos de Fogo, é de causar espanto que, de repente e só a partir do momento em que Sarney assume a presidência do Senado, a mídia e a oposição – que no Brasil atual por vezes se confundem - passem a associá-lo, diariamente, a uma sequência aparentemente interminável de falcatruas. A mais escandalosa delas – os inacreditáveis “atos secretos” do Senado, que distribuíram cargos a granel sem notificar a sociedade de tal decisão – vem, como até o jornal O Globo de hoje reconhece, ocorrendo há anos e, no entanto, não se tem a oportunidade de ver congressistas demo-tucanos ou jornalistas acusando presidentes anteriores da casa, mesmo porque alguns deles eram da oposição.

Oposição esta que, representada por figuras que a cada dia se tornam mais fanfarrônicas – como Arthur Virgílio, Álvaro Dias e Raul Jungman – não demonstra o mínimo pudor em adotar um moralismo raso e falso, pois aplicável apenas às forças políticas às quais se opõem, nunca às condutas dos membros dos partidos que, para desalento da sociedade, representam.

Nem a velhinha de Taubaté acreditaria que tais figuras ajam por amor à ética, mas sim pela mais cruenta guerra política. Aliás, um dado essencial do caso ao qual não tem sido dada a devida atenção é que a eventual remoção de Sarney da presidência do Senado poria esta no colo de Marconi Perillo, membro do coronelato peessedebista goiano e inimigo do Planalto. Por todas essas razões, eis porque, apesar da gravidade das denúncias, se trata, de fato, de denuncismo. Essa atuação do conluio mídia-oposição compõe a segunda parte da tragédia.

Para completar a ópera-bufa, o presidente Lula, sempre tão cioso em conservar a blindagem pessoal e manter-se afastado dos membros de sua aliança acusados de corrupção, vem a público afirmar que “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”. E eu que pensava que, segundo a Constituição do país que Lula governa, todos os cidadãos fossem iguais perante a lei...

O blog do Mello aventa a possibilidade de José Serra estar por trás da perseguição denuncista a Sarney. Afinal, costuma-se debitar na conta do governador paulista a operação da Polícia Federal que, em 2001, retirou a filha do senador, a então candidata presidencial Roseana Sarney (atual governadora não-eleita do Maranhão) do páreo. Ora, mas o presidente Lula, com toda sua louvada sapiência política, ao firmar aliança com a ala do PMDB comandada por Sarney, não sabia dos humores figadais que opõem o truculento bandeirante e o coronel maranhense? Exímio enxadrista que já demonstrou ser, não foi capaz de prever desenrolar tão evidente do jogo político?

Esse é o tipo de episódio em que nenhum lado tem razão, a despeito dos esforços argumentativos dos detratores do governo Lula e de seus apoiadores - alguns dos quais teimam na tática eticamente inaceitável de minimizar atos de corrupção. Sarney, pelas práticas a ele associadas, por tudo o que representa e, sobretudo, pela insensibilidade em não perceber que pertence ao passado e que está manchando de forma indelével sua própria biografia; a oposição e a mídia por apostarem, uma vez mais, num denuncismo histérico e “fulanizado” como forma de luta política, sem atacar as razões estruturais da corrupção; e, pairando acima de todos, o presidente Lula, não só pela realpolitik por demais elástica que pratica – e que junta no mesmo saco Sarney, Collor de Mello e Geddel Vieira Lima, entre outros -, mas por não preservar a Presidência, posando como defensor de práticas e figuras políticas que não coadunam com um regime verdadeiramente democrático nem com seu passado político. Esta, a terceira e última parte da tragédia.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Vigiar e punir

(Foto retirada daqui)

Uma longa e minuciosa descrição dos suplícios aos quais eram submetidos, nos interrogatórios, os prisioneiros da Era Medieval foi escolhida por Foucault para abrir Vigiar e Punir. Embora a ambição última do livro seja, na acepção ampla, não-histórica do termo, “iluminista” - desvelar e denunciar, através do estudo das relações de saber e de controle do sistema punitivo, a natureza política do Poder (como ponto de partida para um projeto maior de questionamento de múltiplos e micropoderes) – percebe-se, nessa passagem do texto do filósofo francês, duas características latentes: o prazer que sente em descrever minuciosamente aqueles tormentos cruéis; e o esforço que faz para mitigar e não deixar transparecer tal prazer, sobretudo através do uso de uma linguagem ainda mais “des-hierarquizada” (no sentido que lhe dá Derrida) do que na maior parte de sua obra.

Mas o prazer mitigado de Foucault não o torna uma exceção, ao contrário. Como observa, em texto que merece ser lido na íntegra, Juarez Cirino dos Santos, “o objeto da pena criminal é o corpo do condenado, mas o objetivo da pena criminal é a massa do povo, convocado para testemunhar a vitória do soberano sobre o criminoso”. A cena nos é familiar, graças ao gosto hollywoodiano pelo espetáculo: a multidão excitada à medida em que o prisioneiro é amarrado a um tronco alto, o close em um tipo pitoresco, de riso sádico e banguela; a fogueira acesa, a multidão urrando.

O filme não mostra, mas ao final do espetáculo, cheiro de carne humana assada no ar, o banguelo volta à servidão, a camponesa gorda a cuidar de seus 18 filhos e o rei ao castelo, para usufruir das benesses do poder. Esse processo de adesão dos oprimidos a uma política repressiva do poder central que a um tempo lhes dá a ilusão de estarem protegidos e os impede de associar assimetrias sócioeconômicas e crime não se limita, de modo algum, a um passado distante que o cinema eternizou em Cinemascope.

Fosse este um tempo em que não existisse a patrulha ideológica de direita e citar Marilena Chaui fosse bem quisto, eu lembraria que a filósofa uspiana dissecou como ninguém o processo de adesão das classes médias ao ideário da elite no Brasil, particularmente no que concerne às políticas de segurança pública (leia-se repressão às periferias).

Tais escritos de Chaui são de meados dos anos 70, e de lá pra cá, com a ajuda dos Datenas da vida, a impressão é de que tal identificação aprofundou-se muito. Ou, melhor dizendo, deixou de se apresentar explicitamente como uma identificação plebe rude-poder; o processo tornou-se mais sutil e quase invisível. Agora a violência apresenta-se onipresente e sem distinção de classe social, com o animado estímulo de uma mídia que se beneficia tremendamente de explorá-la e difundi-la (em audiência e, no Rio de Janeiro, em poder político proporcional à sensação de refém da bandidagem que a Rede Globo conseguir impingir à população). O país pára para acompanhar determinados crimes – a adolescente que matou os pais, os pais que teriam matado a filha, etc -, então o "ibope" sobe, os anunciantes anunciam, a emissora fatura, enquanto as mulheres comentam a beleza do cabelo da apresentadora e os homens a desejam. É fantástico, o show da vida (ou melhor, da morte, da violência, do medo). Mesmo que a pessoa nunca tenha sido vítima de crime, conhece alguém que foi - na vida real nem sempre, mas na TV com certeza. E, como dizem, "a próxima vítima pode ser você".

Por tudo isso, discutir segurança pública no Brasil é estabelecer a discórdia. Se você não quer ouvir a defesa do “esfola e mata” e do “bandido bom é bandido morto”, nem pense em fazê-lo numa mesa de bar, num jantar em família e menos ainda, na academia (de ginástica; se bem que na outra também não é muito recomendável, não...). Quando se trata do tema, mesmo os mais sagazes intelectuais, professores universitários, juristas, jornalistas (até um Janio de Freitas) escorregam feio para a defesa da repressão pura e simples e não se fala mais nisso.

Isso evidencia que um dos sucessos mais incontestáveis dos setores conservadores parece ser a difusão de que os direitos humanos seriam “direito de bandidos” (tema que o blog abordou aqui). O “silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina”, de que nos fala Caetano Veloso, não passa de um flagrante celebratório de tal processo em um seu momento de consumação e paroxismo, mas que é repetido, com menor intensidade, nos pequenos espasmos sadomasoquistas de cada fim de tarde, nas versões televisivas dos jornais populares (“ banco de sangue encadernado”, na definição do também tropicalista Tom Zé).
“É fácil dizer que ‘bandido tem é que morrer’ e sair por aí oprimindo toda uma população, divulgando que os habitantes das favelas e dos conjuntos e bairros populares têm propensão para o crime (...) Difícil é cobrar do Estado o respeito à lei e a proteção dos direitos que toda pessoa tem” – observa o advogado e professor de Direito da UERJ, Nilo Batista, no livro Punidos e Mal Pagos (RJ: Ed. Revan, 1990, pág. 159).
Como resultado dessas distorções, o Brasil apresenta um aparato prisional à beira do colapso, e cuja população aumentou consideravelmente no governo Lula (de 308mil presos em 2006 para inacreditáveis 445mil em 2008, ou seja, quase 50% em dois anos).
"Consequência mais tangível da hiperinflação carcerária, os estabelecimentos estão literalmente abarrotados. A tal ponto que várias cidades e estados viram-se obrigados a soltar criminosos aos milhares visando controlar a degradação das condições de reclusão".
É o que vem acontecendo, por exemplo, no Rio Grande do Sul. Mas o "detalhe" é que o trecho citado acima não se refere ao Brasil, e sim aos EUA. Não se trata de coincidência. Como o próprio autor de Punir os Pobres: a Nova Gestão da Miséria nos EUA (RJ: Revan, 2003), Loïc Wacquant, abordou em outra ocasião (em artigos para o livro La Misère du Monde, organizado por Pierre Bourdieu), é esse o resultado de uma obsessão punitiva crescente que teve lugar nos EUA em fins dos anos 80 e vem sendo importada no Brasil por todos os governos democráticos pós-ditadura militar - incluindo, como se viu, a Presidência de Lula, pusilânime para promover mudanças numa política criminal que o PT sempre criticou.

Os resultados desse processo de criminalização, no Brasil, são a repressão periférica sistemática, a estigmatização e a colocação, na prática, das periferias e favelas fora do âmbito do Estado Legal de Direito, além do aprisionamento de um crescente contingente humano em condições degradantes. Tudo isso para a obtenção (sic) de um resultado pífio, para a manutenção de índices altíssimos de violência e para o acirramento dos ódios e temores de amplos setores da população que se veem como reféns da violência.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Cinesul 2009 traz o melhor do cinema latinoamericano

(cena de Postales de Leningrado)

Começa hoje (1606), no Rio de Janeiro, o Cinesul 2009, que oferece uma rara oportunidade de tomar contato com a produção cinematográfica latinoamericana – que devido a um misto de ingerência externa, fatores geopolíticos, a questão do idioma e a decorrente ausência de hábito cultural tem sido historicamente negligenciada no país.

O festival – que traz ainda filmes de Portugal e da Espanha (incluindo Ilhas Canárias) – oferece mais de 300 filmes entre curtas e longas metragens. Há 3 mostras competitivas e 7 mostras paralelas, com nomes autoexplicativos: Programa Foco Espanha, Bossas Musicais, Palcos e Telas, Cinesul Animado, Brasil Real, Cinema de Fé e Cinema Ambiental. Haverá ainda uma oficina de produção audiovisual para celulares, a cargo de Marco Altberg.

O Cinesul deste ano homenageia o cineasta Carlos Hugo Christensen (1914-1999), que após fazer filmes na Argentina (onde nasceu), no Chile, no Peru e na Venezuela, se radicaria no Brasil, onde expandiria para mais de uma dezena de títulos sua filmografia, incluindo o belo Crõnica da Cidade Amada (1964). A trajetória de Christensen, que morreu antes de completar o que seria o primeiro filme produzido pelo Mercosul – Casa de Açúcar (1996) -, o qualifica como um dos cineastas que melhor representa o panamericalatinismo.

Merece destaque, ainda, uma mostra em comemoração dos 50 anos do ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficos), criado três meses depois da vitória em Sierra Maestra, pelo primeiro decreto do Governo Revolucionário concernendo assuntos culturais. A despeito de sua função de instrumento de difusão ideológico do regime, o ICAIC acabou por produzir algumas das mais críticas visões do período castrista, notadamente nos filmes de Tomás Gutiérrez Alea. A mostra privilegia o trabalho de Pavel Giroud, que prima pela combinação de refinado apuro estético e senso de observação social e do excepcionalmente prolífico documentarista Santiago Álvarez (que realizou mais de 200 filmes, entre curtas, médias e longas metragens).

Eu recomendaria enfaticamente o filme venezuelano Postales de Leningrado (2007), dirigido por Mariana Rondón e que conta, a partir de jogos imaginativos de duas crianças, que atuam como narradoras, a atuação do grupo guerrilheiro FALN nos anos 60. O roteiro de Rondón é extremamente inventivo e, através de múltiplos níveis de narração e da utilização de recursos visuais diversos, consegue dar um tratamento lúdico e involvente a uma temática pesada, que inclui abandono, perseguições e tortura. Com excelência nos quesitos técnicos – merecendo destaque a trilha sonora e direção de fotografia (Micaela Cajahuaringa) -, Postales..., em parte devido à sensibilidade feminina que transpira, é um dos melhores filmes produzidos na região nos últimos anos.

Aos que apreciam curtas metragens, não percam o hilário Tira os Óculos e Recolhe o Homem, baseado na música homônima de Jards Macalé e Moreira da Silva, dirigido pelo talentoso André Sampaio.

O Cinesul este ano acontece apenas no Rio de Janeiro, de 16 a 28 de junho, com as sessões começando às 17:30 durante a semana e ao meio-dia aos sábados e domingos. A maioria dos eventos tem lugar no CCBB (rua Primeiro de Março, 66) e no Centro Cultural dos Correios (rua Visconde de Itaboraí, 20), ambos no belo centro antigo do Rio, mas há também projeções no MAM, no Jardim Botânico e no Teatro Tim Lopes, em Nilópolis. Programação e mais informações aqui.

O melhor fica para o final: o ingresso é gratuito, devendo ser retirado uma hora antes do evento.

sábado, 13 de junho de 2009

Peru: o massacre anunciado

(Foto retirada daqui)

Considero o Peru minha segunda pátria. Convivo desde os tempos da graduação em cinema com amigos peruanos, sendo que três deles são como irmãos para mim; amo o país, que irei visitar mais uma vez no final do ano; Cusco, a cidade mágica ('umbigo do mundo" em quéchua), sede do império Inca, tem, na minha vida, uma importância simbólica e afetiva que só a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro é capaz de superar. Por conta dessas circunstâncias tenho um razoável conhecimento da cultura e da história peruana, que são riquíssimas – mas também, esta última, trágica, escrita em sangue e por vezes de um absurdo que nem a mais delirante obra do realismo mágico conseguiria conceber.

Em razão disso tudo, senti um frio no peito quando, em 2006, vi confirmar-se a eleição de Alan García como presidente do país, pela segunda vez (a primeira foi de 1985 a 1990). Seria como se Collor de Mello fosse novamente eleito presidente do Brasil.

Em seu primeiro mandato, García, assim como Collor, comandou uma administração escandalosamente corrupta (mesmo para os padrões latinoamericanos) e durante a qual o país passou pela pior crise econômica de sua história, além de estar praticamente sitiado pelas ações do grupo terrorista Sendero Luminoso, que sequestrava nas estradas e com frequência interrompia o fornecimento de energia elétrica às grandes cidades. O atual presidente deixou o governo sob grande insatisfação popular e a um triz de sofrer impeachment (um ano depois, quando se intensificou a investigação sobre a corrupção em seu governo, foi afastado temporariamente do Senado e teve de exilar-se na Colômbia).

Por conta desses fatos, se, três anos antes, um analista político predizesse sua volta ao poder seria tachado de louco. Mas, nas eleições de 2006, a histeria que tomou conta das elites, da mídia peruana e, consequentemente, da classe média urbana com a possibilidade da vitória do militar nacionalista Ollanta Humala – vendido pela mídia como uma espécie de Hugo Chávez peruano – permitiu a García derrotá-lo por 52,6% a 47,4% no segundo turno.

García é herdeiro do aprismo - originalmente um movimento latinoamericano de centroesquerda dos anos 30, que acabaria por adotar a socialdemocracia nas décadas seguintes e, no Peru (onde o APRA é o partido mais organizado e massificado) desandaria, desde os anos 80, para um populismo de centro-direita, que o atual presidente peruano leva agora ao paroxismo.

O mau presságio que senti ao ouvir a notícia de sua mais recente vitória eleitoral logo se revelaria profético e é agora plenamente confirmado pelas notícias que chegam do Peru (“chegam”, prezado leitor, é modo de dizer, já que não podem ser lidas, senão em retalhos inconsistentes e tendenciosos, na nossa briosa “grande mídia" – que, como aponta Rafael Fortes, além de usualmente voltar as costas à América Latina, tudo perdoa quando se trata de governos alinhados ao ideário neoliberal).


Genealogia de um massacre
García anuncia, em dois artigos escritos em novembro de 2007, sua intenção de explorar a Amazônia através de vultosos empreendimentos madeireiros que se viabilizariam com a concessão de vastas extensões de terras a empresas multinacionais – um projeto democrático e de grande alcance social, como se vê. Seus argumentos são de um cinismo atroz, sem demonstrar a mínima consideração por questões humanitárias e ecológicas. Em dado momento, ele candidamente pergunta: “Os que se opõem dizem que não se pode dar terras na Amazônia (e por que na costa e na serra sim?)”. Nos dois artigos não há uma vírgula sobre os povos indígenas que lá habitam (e os quais o apoiaram no primeiro governo). Tal omissão não impede que a desculpa de García para implementar o programa seja a mesmíssima utilizada por governos anteriores, com os resultados sabidos: combater a pobreza.

Porém, como observam os antropólogos Alberto Chirif e Frederica Barclay, no excelente artigo (em espanhol) “Ataques y mentiras contra los derechos indígenas", “O governo, se é que o tema o interessa de verdade, não deve buscar a pobreza em lugares tão distantes como a Amazônia, e sim em Lima e nas demais grandes cidades do país, onde uma grande porcentagem da população não tem trabalho e sobrevive com rendas ínfimas. A pobreza que realmente afeta os indígenas amazônicos está precisamente nas zonas que têm sido devastadas pela colonização e pelas indústrias extrativistas, que têm contaminado o meio ambiente, afetado sua saúde e destruído suas redes sociais de solidaridade. Mas essas políticas do governo não se voltam à solução desses problemas, mas ao seu agravamento”.

No entanto, García ignora as reações negativas que seu projeto provoca e, ato contínuo, consegue do Congresso autorização, inicialmente em vigor por seis meses, para governar através de decretos legislativos (D.L.). Essa autorização é válida apenas para decisões relativas ao TLC (Tratado de Libre Comércio Perú-EUA), mas o presidente ignora esse “detalhe técnico” e passa a gerir de forma direta o país, particularmente seu tenebroso projeto para a Amazônia, sem dar satisfações ao Congresso. (Ou, posto de outra forma: a ocupação comercial da Amazônia é item obrigatório para assinatura do TLC, mas isso não pode ser publicamente assumido.)


Ataque frontal ao direito dos índigenas
Dentre os decretos que promulga está o DL 1064, “um dos mais nocivos para as comunidades indígenas, porque atropela o direito de imprescritibilidade de suas terras e permite que invasores [grilheiros] estabelecidos há apenas quatro anos se apropriem de terras comunais”, explicam Chirif e Barclay.

Em agosto de 2008 começam as paralizações dos povos indígenas nas regiões amazônicas afetadas. Elas são organizadas pela Aidesep (Asociación Interétnica de Desarrollo de la Selva Peruana), que representa nacionalmente os povos indígenas e reúne 1350 comunidades nativas. A pressão a princípio funciona, e o Congresso derruba a D.L. 1015, promulgada por García e chamada – observe o duplo sentido – de “lei da selva”, pois permitia que se comprasse, com a anuência de apenas 3 de seus membros, toda a propriedade de cada comunidade indígena. A Defensoría Pública também questiona a constitucionalidade da lei e as instituições do país parecem dar mostras de que funcionariam a contento, favorecendo uma solução democrática para o impasse.

Mas García, que é apoiado pelos militares, pelo grande capital internacional e, o que é mais revelador, até pelos fujimoristas - bem como pela mídia e pelos setores médios da população, concentrados nas grandes cidades e satisfeitos com o "bom momento" da economia do páis -, reage com rapidez e promulga novos decretos ao mesmo tempo em que intensifica a cooptação de setores do Congresso. É sempre bom lembrar que os dados da economia peruana têm de ser postos sob suspeita, já que o INEI (o IBGE deles) deixou de ser confiável desde que seu presidente foi demitido e processado por divulgar estatísticas que contrariavam o Executivo. Quanto aos métodos de aliciamento do Congresso, creio ser suficiente registrar que, em outubro de 2008, todo o gabinete peruano teve de renunciar por terem sido encontradas provas de políticos apristas recebendo grandes somas para alterar as licitações das vendas de lotes petrolíferos na Amazônia. Veja, caro leitor, que coincidência curiosa: o processo está suspenso porque o Judiciário alega não possuir determinados programas de computador necessários para retirar a informação dos HDs...

O Peru, assim como o Brasil, é pródigo em leis que, mesmo promulgadas, não são efetivamente cumpridas – notadamente aquelas que se referem aos estratos mais pobres e marginalizados da população, aos quais pertence enorme parcela dos peruanos de descendência indígena. É justamente uma dessas leis – com potencial para barrar todo o projeto garciano de ocupação extrativista da Amazônia – que causa os violentos acontecimentos que ora contrapõem governo e comunidades indígenas. Chamada popularmente de “Consulta”, initula-se “Convenio 169” (Ley Nº 26253) e firma a adesão às regras da Convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Prevê que os povos indígenas habitantes de suas terras devem ser consultados “cada vez que se prevejam medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetar-lhes diretamente”, determinando, ainda, que com aprovação parcial das comunidades indígenas às medidas propostas, o Estado deve negociar até satisfazer a outra parte; e caso as comunidades rejeitem as medidas, estas não devem ser efetivadas.

Assinada há 15 anos, a lei não foi jamais cumprida. “Por quê? Porque que o Estado parece não saber as leis que assina ou porque, em se tratando de indígenas - que diabo! - por que fazer tanto alvoroço? Ao fim das contas, como assinalou o presidente Alan García, ‘As terras da Amazônia são de todos os peruanos’, o que significa apagar de uma canetada os direitos legais de propriedade das comunidades nativas e camponesas, declarar rapidamente a livre disponibilidade das terras da região e convocar o caos para que se encarregue de cancelar os direitos indígenas” (Chirif e Barclay). Já vimos esse filme antes na América Latina, não?


Populismo neoliberal
Em vias de terem suas terras comercializadas à sua revelia ante o avanço do projeto de García, as comunidades indígenas, vendo fracassarem as negociações, unem-se na luta pelo direito legal de determinar seu destino, mas García, numa jogada típica do neopopulismo aprista, passa a defender (como já citado) que a Amazônia pertence a todos os peruanos – e que, portanto, o direito de participar da “Consulta” e decidir sobre o que fazer com as terras amazônicas deve ser votado por todos. A legislação é absolutamente clara quanto aos beneficiários da “Consulta” – as comunidades indígenas que há séculos cultivam aquelas terras -, mas o sofisma de García cai como uma luva aos anseios midiáticos e das elites, que adotam-no como discurso e passam a difundi-lo.

Na conformação sócio-política do Peru atual, os indígenas, embora em grande número se computados os estratos urbanos e os campesinos, ocupam posição minoritária em termos de força política, contando apenas com o apoio do que restou da esquerda (que ou amoldou-se ao projeto neoliberal ainda em alta no país ou, se mais radical, foi praticamente dizimada por Fujimori em sua "abrangente" “Luta contra o terror”) e com o suporte da Aidesep, de algumas ONGs (embora entre elas destaquem-se organizações de projeção internacional) e com a atuação destemida da Defensoria del Pueblo, única instituição peruana que tem resistido sistematicamente - e com algum sucesso, embora fugaz - contra os abusos de García. Entre os exemplos deste último estão as cada vez mais frequentes concessões de autorização para que empresas como a canadense Pacific Stratus Energy, a franco-britânica Perenco e, ora vejam só, até a "nossa" Petrobrás possam operar no interior de reservas indígenas, onde tem sido descoberto petróleo. Ao mesmo tempo, sob a alegação de razões de segurança nacional e evidenciando a política antiindígena, tem sido negada autorização para a decretação de duas novas reservas e de um parque nacional, com a desculpa esfarrapadíssima de que os 700 índios secoyas peruanos e os 300 equatorianos que as habitam rebelar-se-iam e criariam um país autônomo. Mas, numa contradiçaõ só aparente, o conluio cívico-militar no poder mostra-se extremamente negligente com a verdadeira segurança nacional, fazendo vista grossa para uma cratera de - até agora -150km quadrados aberta pela empresa madeireira Newman Lumber Company (EUA) ao largo da fronteira com a Bolívia.


Rios de Sangue
Desesperados ante tal cenário e na iminência de perderem suas terras, os indígenas aumentam o tom e a frequencia dos protestos, bloqueando estradas. Em 9 de maio o governo declara Estado de Emergência em cinco estados da Amazônia. Está aberto o caminho para a disseminação da violência oficial.



É preciso, aqui, abrir parênteses para a especifidade da violência no Peru. O processo de genocídio e escravização dos incas promovido no século XVI pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro – um dos mais brutais da história da humanidade - e os muitos massacres do período colonial, legaram ao país pobreza, um tecido social esgarçado e rancores represados que de tempos em tempos se materializam em atos de extrema violência. Para ficar em apenas um exemplo: as técnicas de tortura utilizadas pelos paramilitares na repressão contra o grupo maoísta Sendero Luminoso incluíam a utilização rotineira do fogo, arma que mesmo os torturadores mais cruentos evitam aplicar (se não por pudor, pelas marcas definitivas que provoca, evidência de tortura que, na impunidade generalizada que acompanhou a “guerra contra o terror” no Peru, não queria dizer nada) . Com o perdão da generalização, se o Brasil é o país em que convivem a alegria e o caos, o Peru é a pátria da doçura extrema e da violência exacerbada.

Para perpetuar essa história de extrema violência e aniquilação dos povos indígenas, em 5 de junho chegam com estrondo à região de Bagua, na Amazônia, 369 efetivos da temida Dinoes (Direção Nacional de Operativos Especiais), fortemente armados, tal qual os contingentes das Forças Armadas que os acompanham. Eles iniciam o que a imprensa chama de uma batalha – mas, como aponta João Villaverde, massacre seria uma melhor descrição – contra a revolta indígena, com saldo de mortes incerto.

Meu querido amigo Claudio Suárez, correspondente especial do blog no Peru (pensam que é só a Globo que tem dessas coisas?), informa: “Causa indignação o fato de a população limenha estar, em sua maioria, desinformada pelos meios de comunicação, que exibem informações tendenciosas [que horror! isso jamais acontece aqui no Brasil, Claudio]: fala-se em 12 policiais e 3 indígenas mortos, mas na zona de conflito a imprensa local faz estimativas de algo entre 50 e 100 mortos entre os indígenas (além de centenas de feridos), pois vários corpos teriam sido queimados e outros jogados em um rio; é patente que a polícia ostentava grande quantidade de francoatiradores que disparavam para matar” [alguns deles podem ser vistos em ação no link "mostram a polícia", abaixo].

Os números fornecidos por Claudio são de uma semana atrás e é quase certo que aumentaram bastante nos 5 dias seguintes ao conflito, em que a região ficou sob toque de recolher e execuções foram relatadas. Oficialmente, morreram 24 policiais e 9 civis, mas este último número não é levado a sério nem mesmo pela maioria das publicações da mídia corporativa internacional. Às manipulações da mídia soma-se um enraízado preconceito contra os indígenas, que acaba por resultar em uma autêntica fratura na sociedade peruana. Como registra José Álvarez Alonso, biólogo que trabalha na região amazônica, em artigo sereno mas contundente (em espanhol), os setores médios urbanos e as elites “seguem considerando os indígenas cidadãos de segunda classe [condição que foi corroborada por García em uma de suas falas], ‘esses chamados nativos’, como alguns os qualificam com desprezo. Enquanto se mostra na televisão cenas da dor dos valorosos policiais mortos no cumprimento do dever, se ignora ou minimiza-se a cifra de mortos indígenas, que alguns calculam en mais de uma centena, talvez duas”.
Como aponta o blog Diário Gauche (de onde vêm as fotos que ilustram o conflito), "Organizações indígenas de seis países acusam o presidente do Peru por massacre e genocídio." No portal esquerdista Vermelho pode-se acompanhar a evolução dos protestos no Brasil e no mundo. Mas, se é verdadeira a suposição de que o grau de violência de um massacre costuma ser inversamente proporcional ao número de registros visuais que o documentam, então os piores temores se justificam, pois o número de imagens documentando o conflito é absurdamente baixo para os padrões digitais-cibernéticos atuais. Vídeos, há alguns poucos no youtube (como este, aquele outro, dois que mostram a polícia atirando contra o povo e mais uns tantos), mas quase todos mal filmados e pouco explícitos, embora indicativos do grau de violência e impunidade das forças oficiais.

Após o massacre, durante 5 dias, ninguem pôde entrar na zona de "batalha", nem imprensa, nem órgãos de direitos humanos, nem a Cruz Vermelha; foi instituído toque de recolher. Em seguida, parte da legislação sob ataque foi "suspensa", mas também o foram 7 dos mais aguerridos congressistas de oposição; líderes indígenas estão sendo processados por terrorismo e sedição, como já vinha ocorrendo com sindicalistas e lideranças sociais - o que levou o líder da Aidesep, Alberto Pizango, a se exilar na Nicarágua. Na quinta-feira (11/06), de 20 a 30 mil pessoas, segundo Claudio Suárez, protestaram em Lima, mas o que poderia ter sido o início da reação popular foi, como se vê na foto ao lado (por ele enviada), brutalmente reprimido pela polícia.


Com o apoio cúmplice do grande capital e dos meios de comunicação peruanos, o governo de García assemelha-se cada vez mais a uma ditadura travestida de democracia, enquanto seu projeto faraônico para a Amazônia traz todas as caracterísitcas de um novo genocídio indígena em pleno século XXI.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Lei mira preconceito contra homossexuais

(Imagem retirada daqui)

Sou a favor do casamento gay, da adoção de crianças por homossexuais de ambos os sexos e da plena inserção social (jurídica, política, trabalhista) de gays e lésbicas, abominando qualquer forma de discriminação contra esses cidadãos e cidadãs.

Mais do que isso: anseio por um dia em que não passe pela cabeça de ninguém perguntar a uma mãe ou a um pai o que eles sentiriam se tivessem um filho homossexual (tema que VP analisa com muita sensibilidade).

Por isso mesmo, sou contra o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, na forma como ora redigido - ousando discordar, portanto, de meu ídolo Idelber Avelar, cujo post de hoje, repleto de comentários interessantes, inspirou a redação deste artigo. (A íntegra do PLC pode ser lida aqui. Aproveite e divirta-se com o uso da gramática por nossos bem-remunerados legisladores, que cometem, em documento oficial, pérolas como “o artigo serão”.)

A referida lei criminaliza não apenas a discriminação e o preconceito por orientação sexual, mas por raça, religião e procedência nacional, entre outros, mas tem sido mais identificada com os homossexuais por conta de campanhas pró-aprovação movidas por sua militância.

Três artigos são particularmente problemáticos: o 4º., que pune o empregador que demitir gays ou lésbicas por conta de sua opção sexual; o 6º., que combate a discriminação em “qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional”; e o 7º. - “Sobretaxar recusar, preterir ou impedir a locação, a compra, a aquisição, o arrendamento ou empréstimo de bens móveis ou imóveis de qualquer finalidade”. As penas previstas variam de 1 a 5 anos de reclusão.

A primeira questão é: como se vai determinar que a pessoa foi demitida (ou reprovada na escola ou impedida de alugar uma casa) por conta de sua opção sexual e não por outra razão? A não ser que haja um episódio (ou vários) que claramente caracterize o preconceito, será extremamente difícil a produção de provas que, do ponto de vista jurídico, estabeleçam indubitavelmente tal premissa. Mas, para deleite da mídia, estará aberto o caminho para a difamação e a acusação fácil.

Não é preciso ser nenhum gênio para deduzir que essa lei fará com que os empregadores, a despeito da ameaça de punição se preterirem homossexuais no sistema de recrutamento, pensarão duas vezes antes de contratar um funcionário que lhes pareça gay ou lésbica. Preferirão, é claro, um candidato que, na eventualidade de não desempenhar suas funções a contento, possa ser demitido sem maiores receios de retaliação potencialmente escandalosa - e que também não vá à justiça se for preterido por um colega de trabalho na hora da promoção. No campo trabalhista, portanto, a lei prejudica ao invés de beneficiar os homossexuais.

Mas o aspecto talvez mais problemático do PLC seja o fato de que ele, ao estabelecer distinções e privilégios a determinados cidadãos em detrimento de outros, pratica, em sentido inverso, a discriminação que quer combater, ao mesmo tempo em que cria uma casta de privilegiados perante a lei. Ao estabelecer a desigualdade entre iguais, tal operação afronta de forma notória não só a Declaração Universal dos Direitos do Homem, mas a própria Constituição brasileira, em seu quinto artigo.

Como se não bastasse essa criação inconstitucional de duas classes de cidadãos – uma com maiores direitos perante a lei do que a outra – o PLC 122/2006, como aponta, em comentário que merece ser lido na íntegra, Felipe de Carli, reforça a mania brasileira (importada dos EUA desde o início dos anos 90) de apostar na criminalização como panacéia fácil para todos os males, ao invés de formular soluções criativas que incluíssem campanhas de conscientização, projetos educacionais e planos de promoção da integração de setores da sociedade alvos de preconceito e discriminação.

Já há figuras jurídicas na legislação atual às quais os homossexuais que se sintam discriminados podem recorrer (como a Lei nº 10948/01, que trata especificamente de discriminação sexual e que tem servido de base para a obtenção de indenizações por danos morais) e, como reconhece a advogada e editora do site Amor Legal (de "defesa da causa homossexual com informação jurídica"), Sílvia Maria Mendonça do Amaral, "o Poder Judiciário vem se manifestando de forma solidária ao segmento GLBT, fazendo com que as leis sejam adequadas à nossa realidade atual".

Em relação aos deploráveis assassinatos e casos de violência contra gays, “se o que se quer é evitar homicídios e lesões motivados pela homofobia, já temos os tipos penais de homicídio (inclusive qualificado pelo motivo torpe, em que a homofobia sem dúvida se encaixa) e de lesões corporais”, observa de Carli. Se se preferir continuar insistindo na comprovadamente ineficaz criminalização, o caminho seria endurecer as penas para tais delitos quando ligados à homofobia, e não criar uma legislação específica para crimes já previstos no Código Penal.

É ilusão achar que a lei prestes a ser votada reduzirá tais atos de violência; ela tende a agravá-los, à medida em que suscitar revolta contra o status diferenciado de seus beneficiários em potencialmente vastas parcelas da sociedade.

Travestido de avanço e defendido por um enorme contingente de pessoas progressistas narcotizadas pelo ópio do politicamente correto à americana, o PLC 122/2006 é um retrocesso, uma ameaça para os próprios gays e lésbicas que pretende beneficiar e uma excrescência jurídica que mira o preconceito mas acaba acertando a Constituição, a qual afronta.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A verdadeira face de José Serra

(Foto: Márcio Borges/AE)
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
Não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

(Eduardo Alves da Costa,
"No caminho com Maiakóvski", 1964).


A invasão de um campus universitário por forças militares é, por si só, condenável; mesmo em plena ditadura militar aconteceu com raridade extrema (UNB, PUC, quantas vezes mais?), como lembra Marjorie Rodrigues .

Porém, os governos do PSDB que governam São Paulo há mais de uma década, tal como ocorre no poema acima, primeiro passaram a permitir a entrada da polícia do campus da USP, algo antes inimaginável na história da instituição.

Agora, a polícia de José Serra é responsável não apenas por uma invasão, mas por espancamentos, tiros com bala de borracha, uso de bombas lacrimogêneas e de concusão (que, como o impressionante relato do professor da USP Pablo Ortellando explica, estilhaçam e causam ferimentos) contra estudantes cercados e indefesos - que, em seu próprio local de estudo protestavam pacificamente.
O que virá a seguir? Um cadáver?

Observem, no vídeo abaixo, que a polícia ataca e atira contra os estudantes sem ter sido atacada (no sempre ótimo blog de Altamiro Borges há um vídeo ainda mais impressionante).


Como assinala Túlio Viana, essas são consequências da irresponsabilidade de se mandar tropa de choque a um campus universitário. Ao que Idelber Avelar - que, só pra variar, fez a melhor "cobertura" das atrocidades na USP - acrescenta que a utilização contra estudantes de tamanha truculência é "responsabilidade direta da Polícia subordinada ao governador. Ele tem obrigação de responder por ela. São atrocidades perpetradas pelo poder público".


Portanto, com esse inaceitável uso da violência contra jovens universitários indefesos, fica cabalmente demonstrado que "O Sr. José Serra não tem autoridade moral para ser Presidente da República Federativa do Brasil. Haja mãos e pés para contar os exemplos de truculência, autoritarismo e vocação ditatorial. Esse senhor simplesmente não sabe conversar com a sociedade civil" – finaliza Avelar.


Serra só age assim porque sabe que a mal chamada "grande mídia" vai, como de costume, minimizar os fatos e fazer de tudo para "livrar sua cara" - e não só porque clara mas não assumidamente apoia sua candidatura à Presidência mas porque, dominada por uma plutocracia das mais retrógradas e atrasadas, abomina qualquer manifestação popular, ainda mais se levada a cabo por jovens estudantes que convivem com setores da futura elite do país.


Esse episódio de violência absolutamente desnecessária poderia ter, por incrível que pareça, um lado bom, que seria mostrar a verdadeira face de José Serra para o resto do país que ele sonha governar. Os moradores de outros estados poderiam ver, então, que o verdadeiro semblante do governador paulista não conserva qualquer espécie de relação com a imagem do economista polido e de fala didática, que a mídia usualmente mostra: como sucessivos episódios de violência oficial mostram, não passa de um truculento, de um elitista refratário ao diálogo; do que de pior e de mais retrógrado a política nacional tem a oferecer.


De administrador e tecnocrata eficiente Serra não tem nada - e basta morar em São Paulo para se certificar disso diariamente. Ele não passa, na verdade, de um sub-ACM sem o sotaque que o preconceito condicionou a associar ao coronelismo, o que tem impedido a máscara do cosmopolitismo de cair, trazendo à luz sua verdadeira face de coronel (veja porque a trajetória de Serra provoca medo).


Porém, para que a difusão da imagem do verdadeiro Serra percorresse o país seria necessário que ou a "grande mídia" resolvesse mostrar, subitamente, interesse em aprofundar-se no retrato de um episódio tão prejudicial ao candidato do PSDB, ou a internet - sobretudo a blogosfera - provasse que o poder que tem demonstrado de produzir contrainformações e de desnudar as falcatruas da "grande mídia" se estende à difusão massiva de informação. A primeira possibilidade é uma hipótese remota, quase inconcebível; a segunda, uma incógnita.


Caso nenhuma das alternativas venha a ocorrer, restará a utilização das imagens da violência da polícia comandada por Serra durante a campanha eleitoral, mas, fora desse contexto, a grave dimensão do ocorrido tende a se diluir sem maiores consequências. A elite paulista - e, o que é ainda pior, a classe média que pensa que é ou quer ser elite - vai, como de costume, aplaudir secretamente a violência contra "esses vagabundos" da mesma forma como ofereceu seu "silêncio sorridente" quando 111 seres humanos indefesos e sob a guarda do estado foram mortos. E, pelo verificado até agora na blogosfera, o grau de mobilização e indignação, embora presente, está longe do esperável, enquanto a alienação e o direitismo, mesmo entre jovens, proliferam.


Até que nos roubem a luz e arranquem a voz de nossa garganta.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Colunismo Monocórdico

(Colunista da Folha exercendo com brilho seu ofício)

Ao menos desde a reforma promovida por Cláudio Abramo nos anos 70, a Folha de São Paulo passou a apresentar como uma de suas características distintivas a pluralidade opinativa. Embora a linha editorial se evidenciasse nas pautas, matérias e reportagens – e mesmo na escolha dos colunistas "da casa" –, havia espaço para uma plêiade de opiniões que cobriam virtualmente todo o espectro político-ideológico. A principal dificuldade metodológica para empreender uma pesquisa do conteúdo discursivo do jornal advinha justamente dessa tendência à pluralidade – que uns reconheciam como autêntica e efetiva, enquanto outros acusavam tratar-se de mero recurso dissimulatório para o conservadorismo do jornal e álibi para torná-lo palatável a um público mais amplo.

Essa configuração plural teve sua abrangência à esquerda paulatinamente reduzida - e tornada menos frequente - a partir de fins dos anos 90 e hoje faz parte do passado. Ora não apenas o conteúdo opinativo produzido por convidados na seção "Tendências/Debates" (pág. A3) e por não-jornalistas na página A2 tornou-se muito mais homogêneo, com amplo predomínio de representantes dos setores conservadores (em que pesem as presenças de Marina Silva e de César Benjamin), mas o próprio corpo de jornalistas responsáveis pelas colunas de opinião tem apresentado maior coesão e identificação ideológica entre si, com as honrosas exceções de Carlos Heitor Cony e, ainda com maior agudeza, de Janio de Freitas. Tal característica tem evidenciado a guinada conservadora do jornal sob o comando do diretor de redação Otavio Frias Filho, que, além de moldá-lo de acordo com sua orientação político-ideológica, vem tornando a publicação muito mais repetitiva e tendenciosa, aproximando-se temerosamente de uma certa direita raivosa até mesmo na adoção de métodos de falseamento dos fatos (como no inaceitável caso da falsa ficha policial de Dilma Roussef recebida pelo correio eletrônico e que foi publicada mesmo sem ter sua autenticidade comprovada).


Opiniões viciadas
É exemplar desse novo estado de coisas o colunismo praticado na edição da segunda-feira (01º./06), dia em que a rabujice habitual de Clóvis Rossi dá lugar à ex-grande promessa do jornalismo brasileiro Fernando de Barros e Silva. Ambos jornalistas são responsáveis por uma coluna chamada "São Paulo", mas a última coisa que o leitor vai encontrar no espaço é algo que se refira ao estado em questão, e muito menos ao governo Serra – o tema recorrente ali é a presidência de Luís Inácio Lula da Silva, sempre ferozmente criticada.

A bola da vez é, nas palavras de Barros e Silva, a "máquina de propaganda do lulismo", tema de reportagem de Fernando Rodrigues publicada pelo jornal no dia anterior (31/05), que "revelou" que o governo Lula teria adotado "uma política radical e sistemática" de aplicação da verba publicitária pública. Antes que o leitor, ante denúncia de tamanha gravidade (se é radical é grave, não é mesmo?), sinta um frio na espinha e um cheiro de falcatrua no ar, vamos aos números:
"Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados – um aumento de 961%. Discriminada por tipo de mídia, essa explosão capilarizada da propaganda oficial irrigou primeiro as rádios (270 em 2003, 2.597 em 2008), depois os jornais (de 179 para 1.273) e a seguir o que é catalogado como `outras mídias´, entre elas a internet, com 1.046 beneficiadas em 2008”.
Repare o leitor que não há um pio quanto ao volume de capital destinado à publicidade governamental; o aumento é horizontal, ou seja, a verba foi distribuída a um número maior de órgãos, promovendo uma louvável desconcentração de recursos publicitários. Um escândalo, sem dúvida...

Ao instituir tal regionalização e democratização da publicidade estatal, o governo, na visão do colunista, "promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país". Não se tem notícia de esperneio semelhante de Barros e Silva quando o governo Fernando Henrique Cardoso enchia as burras da Folha de São Paulo, e tampouco ocorreu, mesmo ao mais mal intencionado dos analistas, confundir aplicação de verbas publicitárias com compra do jornal ou transformação deste em órgão chapa-branca.

Mas ao analisar a mídia alheia, Barros e Silva faz uso de dois pesos e duas medidas (repare no estilo policialesco, como se descrevesse uma atividade criminosa, que o colunista uma vez considerado um dos melhores textos e um dos analistas mais argutos em atividade, no afã de agradar ao patrão, não demonstra o mínimo pudor em adotar):

"No subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede chapa-branca na base de verbas publicitárias. É o Bolsa-Mídia do governo Lula".

A ilação maliciosa entre a política publicitária do governo e seu programa de distribuição de renda é reveladora do elitismo intransigente de uma certa imprensa – da qual a Folha compõe a linha de frente – que primeiro rejeitou o programa, apelidando-o de forma pejorativa (“Bolsa-Esmola”), para, quando ele passou a ser internacionalmente saudado, passar a analisá-lo exclusivamente como medida eleitoreira.

Somada à menção gratuita e leviana – pois sem comprovação – do papel que tais verbas publicitárias teriam no "governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí", o texto evidencia a incapacidade (ana)crônica dos colunistas da Folha para entender dois fenômenos do Brasil atual: o governo Lula e o ativismo político na internet. Trata-se de deficiência a um tempo significativa e perigosa para o próprio jornal, pois sua posição ante tais fenômenos afigura-se fundamental para entender sua crescente perda de credibilidade e sua vertiginosa queda nas vendas.

Assim, nem a o que restou de categoria no texto de Barros e Silva consegue disfarçar o óbvio: por trás da adjetivação pesada e da argumentação tortuosa não se esconde fato escandaloso algum, mas apenas interesses empresariais contrariados – no caso, do próprio Grupo Folha. Tais artifícios não passam, portanto, de cortina de fumaça para um queixume disfarçado de indignação cívica, um esperneio de um grande grupo de mídia que não aceita ser preterido na distribuição de verbas publicitárias federais. Que colunistas aluguem seu espaço de opinião alegadamente autônoma para tal chilique corporativo é revelador do grau de contágio que a decadência moral da outrora prestigiada redação do diário paulista ora apresenta.


A culpa é do marketing

Fernando Rodrigues, em coluna logo abaixo da de Barros e Silva, vai mais longe (você pode ler as colunas dos dois fernandos aqui, ao final dó ótimo texto que Luiz Antonio Magalhães fez publicar sobre o assunto). Para o jornalista da Folha:

"A resiliência inaudita do petista não surge por geração espontânea. Tampouco é fruto apenas da capacidade de comunicação do ex-sindicalista. Tudo é resultado de uma complexa estratégia de marketing [grifos meus]. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula."

O leitor atento nota que, no texto dos dois fernandos, não há nenhum questionamento relativo ao montante de verbas empregado pelo governo, sendo que Rodrigues tem a correção de reconhecer que o governo federal sempre foi o maior aplicador de verbas publicitárias no país – embora, ao contrário do que afirma, não haja "paroxismo" algum na ação do atual governo, que ao horizontalizar a distribuição e verbas promove, pela primeira vez em âmbito federal, a alteração de um modelo concentrador e responsável por desigualdades regionais graves no campo da comunicação.

O truque das duas colunas advém justamente de tal confusão: mistura volume de verba com número de veículos contemplados por tal verba como forma de atribuir ao marketing do governo – e exclusivamente a ele, como a frase grifada do texto de Rodrigues evidencia – o sucesso da administração Lula. Tal raciocínio suspende o julgamento de seu governo, de seus méritos e pontos críticos, em prol (sic) de um subtexto óbvio: você, (e)leitor que simpatiza com o governo Lula, é um idiota que se deixa ludibriar por propaganda oficial feita com dinheiro público.

Colunismo a serviço do patrão

Depois de tantos factóides políticos que resultaram inócuos e da contra-reação espetacular da Petrobrás ao criar um blog para defender-se da artilharia tucano-midiática (desculpe, leitor, o pleonasmo), parece por ora restar aos críticos sistemáticos do governo na imprensa pouco mais do que essa falaciosa operação discursiva, que finge desconhecer que a principal mídia do país, e a única que atinge todas as classes sociais, etárias e regionais – a TV Globo – não pode ser arrolada como órgão chapa-branca por conta do agrado das verbas federais. Aliás, muito pelo contrário.

Ler as duas colunas aqui comentadas e comparar o seu conteúdo aos fatos que criticam é deparar-se com um tipo de jornalismo que distorce os fatos de uma maneira tão deliberada que fica patente a despreocupação não somente em respeitar a inteligência do leitor, mas em preservar a própria respeitabilidade como jornalista (assim como a do órgão em que trabalham, se este ainda a tivesse).

A esse colunismo desonesto, elitista e em descompasso com a dinâmica do país faria muito bem a capacidade de observação sociológica em relação à popularidade de Lula demonstrada pelo jornalista Leandro Fortes em texto fundamental sobre a polêmica do terceiro mandato (publicado originalmente em seu blog, que infelizmente não oferece hiperlink). Ele assinala que:

"Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia (...) Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física".

Tudo isso, de acordo com os colunistas da Folha de São Paulo, graças às verbas pulverizadas da publicidade oficial...

(Este texto foi originalmente publicado n’Observatório da Imprensa em 04/06/09. Fiz algumas modificações).
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P.S. Na segunda-feira (08/06), dia de menor circulação de jornais, a Folha abriu espaço para que o ministro-chefe da Secom, Franklin Martins, se manifestasse sobre o assunto (íntegra do texto aqui). Sua linha argumentativa coincide, em alguns pontos, com a do texto acima, acrescentando informações relevantes, sobretudo a de que apenas 10% da verba publicitária federal são utilizados para publicidade institucional direta (leia abaixo). Destacaria os seguintes trechos:

“[Do total de verbas], 70% são investidos por empresas estatais, que não fazem publicidade do governo, mas de seus produtos e serviços, para competir com companhias privadas. Além disso, os ministérios e autarquias, que respondem por 20% da verba publicitária federal, não podem fazer propaganda institucional, só campanhas de utilidade pública (vacinação, educação de trânsito, direitos humanos etc.). Apenas a Secom está autorizada a fazer publicidade institucional. Para esse fim, seu orçamento é igual ao do governo anterior (cerca de R$ 105 milhões)”

"Não houve aumento de verbas. O que mudou foi a política (...) Esses critérios técnicos, amplamente discutidos com o TCU e entidades do setor, têm favorecido a democratização, a transparência e a eficiência nos investimentos de publicidade do governo federal. Não há privilégios nem perseguições. Tampouco zonas de sombra. Muito menos compra de consciências.”

O texto de Martins deve ser lido, questionado e criticado. Merece destaque, porém, seu destemor em justificar a estratégia de marketing oficial através da abordagem de assuntos-tabus na FSP, como a queda das vendas dos grandes jornais em comparação com o aumento da venda dos jornais interioranos e populares e o crescimento da internet como mercado publicitário. Assim, é claro, Martins acaba por desnudar a distorção deliberada do sentido dos fatos empreendida por dois colunistas que, embora alegadamente tenham independência opinativa, preferem defender os interesses econômicos da empresa em que trabalham.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cenas de colonialismo explícito

(Imagem criada por Fabi)
Não tenho por hábito comer ou beber em shopping centers. E não só porque a assepsia reinante me faz sentir em um hospital, mas pela homogeneização que, sob o predomínio das cadeias de fast food, impede que se usufrua de um dos prazeres básicos da culinária - e da “bebelinária” -, o desfrute de um ambiente único em caracterização e em personalidade.

Abro duas exceções: a happy hour do Barbacoa Grill e a comida japonesa do Gendai, ambos no Shopping Morumbi, em São Paulo. O primeiro oferece, em um corredor isolado, num cantinho meio escondido (portanto longe das despersonalizadas e barulhentas praças de alimentação), um bom chopp, um serviço gentil (embora um tanto displiscente) e um buffet de petiscos de qualidade – farto e, o que é melhor, gratuito. A ambiência é agradável e de vez em quando aparece gente interessante e disponível, em geral funcionárias ou executivas dos muitos escritórios da região, que é perto da sede paulista da Globo.

Já o Gendai é uma ótima opção para quando o que se quer é comida japonesa trivial e barata, mas feita com bons ingredientes, peixes bem cortados, massas de arroz consistentes, combinados de modo a resultar num sabor com personalidade. De quando em vez passo lá e levo a bandeja para saborear tomando chopp num daqueles quiosques da Brahma que servem o famigerado “chopp paulista” – que é delicioso no primeiro gole mas, devido à inconsistência da espuma - que sai de uma torneira à parte -, esquenta mais rápido e se torna enjoativo lá pela metade da caldereta.

Há tempos notei que a fachada do restaurante japonês ostentava tão-somente duas placas: numa se lê os dizeres “Gendai” e, logo abaixo, “Japanese Food”; na outra, sobre o guichê dos caixas, “Order here”, encimando uma larga seta vermelha que aponta para baixo.
Estaria eu nos EUA? Logo me dei conta de que não, passando a achar patético tal demonstração de colonização cultural, sobretudo por se dar em um centro de compras suburbano, cuja frequência por estrangeiros desacompanhados de nativos é ínfima.

O primeiro pensamento que me ocorreu foi que, em plena popularização dos sushis e temakis, combinada à ascensão das classes C e D – estas, sim, frequentadoras visíveis daquele shopping – promovida pelo governo Lula, a placa “Order Here” poderia afugentar fregueses ao invés de atrai-los, já que o domínio do idioma inglês nesses estratos não é tão comum quanto uma certa elite - que pensa que todos dominam a língua – imagina.

Mas o que aconteceu, na verdade, foi mais surpreendente do que isso. Parei no guichê, atrás de um cara muito alto. Enquanto os atendentes brasileiros, irrequietos, faziam caretas de interrogação em direção a ele, cuja linguagem corporal era neutra, não denotando nenhum nervosismo. Este era perceptível apenas pelo tom crescente e irritadiço de sua voz. Falava inglês. Perplexo, ele constatava que um lugar que oferecia “Japanese food” e convidava a “Order here” não entendia a sua língua.

Mais por pressa irritada do que pelo desejo de bancar o anfitrião gentil traduzi aos pasmos atendentes que ele só estava perguntando se podia levar a comida para comer em casa. E fiquei rindo sozinho, pensando em quão patético pode ser o colonialismo cultural.